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Vygotsky: A Zona de Desenvolvimento
Próximo Criada Pelo Jogo
Ofélia Libório em "Partilhar para Crescer" -
Boletim das ECAE do distrito de Coimbra, nº 0 - Ano 1 -
Dezembro/2000 - pp. 12 a 14.
Porquê falar de jogo e de
Vygotsky no âmbito dos apoios educativos?
A razão fundamental prende-se com a atualidade da teoria do
desenvolvimento cognitivo de Vygotsky, autor que tem vindo a ser
bastante referido nos cursos e disciplinas de Educação Especial,
focando-se, no entanto, essencialmente os aspectos da sua teoria
que se centram no desenvolvimento e na aprendizagem da criança
em idade escolar.
Este artigo pretende dar uma outra imagem da abrangência da
teoria de Vygotsky e faz parte da fundamentação teórica da tese
de Mestrado de Ofélia Libório em Ativação do Desenvolvimento
Psicológico, apresentada à Universidade de Aveiro e intitulada
"Perspectivas de educadores e crianças sobre o jogo no contexto
educacional do jardim de infância".
O contributo de Vygotsky sobre o jogo na infância implica a sua
valorização acrescida, pela relação estreita que o autor
estabelece entre jogo e aprendizagem. Além disso, poderá ajudar
a esclarecer algumas duvidas que os educadores apresentam nas
suas práticas educativas e que muitos estudos definem como
diferenças entre retórica e prática, ou discrepâncias entre
retórica e raciocínio de ação pedagógica sobre o jogo. Numa
altura em que se pretende romper com o paradigma romântico em
educação de infância, em que se questionam os currículos e
práticas adequadas, importa refletir sobre o valor do jogo.
Para compreender a importância que Vygotsky atribui ao jogo na
criança precisamos esclarecer primeiro algumas idéias a
propósito da sua teoria do desenvolvimento cognitivo, sendo que,
a primeira de todas, é que o desenvolvimento cognitivo resulta
da interação entre a criança e as pessoas com quem mantém
contactos regulares.
Contemporâneo de Piaget e também desenvolvimentista, Vygotsky
demonstrou diferenças profundas na concepção desse
desenvolvimento. Estando ambos os autores fundamentalmente
interessados em toda a gama de desenvolvimento mental desde a
infância até à adolescência, o conceito biológico de
desenvolvimento de Piaget, como sendo uma questão de maturação e
desdobramento, foi rejeitado por Vygotsky. Segundo este último
autor a adaptação da criança é bastante mais ativa e menos
determinista (Sutherland, 1996). Ou seja, Vygotsky deu maior
ênfase à cultura do que à herança biológica para o
desenvolvimento cognitivo.
“No processo de socialização para a respectiva cultura, as
crianças aprendem coisas que constituem as características
comuns da sua cultura, por exemplo mitos, contos de fadas,
canções e história. As ferramentas integram uma parte
extremamente importante de uma cultura, a criança precisa de ir
conhecendo as ferramentas fundamentais para a nossa cultura...”
(Sutherland, 1996:78).
O conceito central da teoria de Vygotsky é o de Zona de
Desenvolvimento Próximo, que o autor define como a discrepância
entre o desenvolvimento atual da criança e o nível que atinge
quando resolve problemas com auxílio. Partindo deste pressuposto
considera-se que todas as crianças podem fazer mais do que o
conseguiriam fazer por si sós.
"No desenvolvimento a imitação e o ensino desempenham um papel
de primeira importância. Põem em evidência as qualidades
especificamente humanas do cérebro e conduzem a criança a
atingir novos níveis de desenvolvimento. A criança fará amanhã
sozinha aquilo que hoje é capaz de fazer em cooperação. Por
conseguinte, o único tipo correto de pedagogia é aquele que
segue em avanço relativamente ao desenvolvimento e o guia; deve
ter por objetivo não as funções maduras, mas as funções em vias
de maturação" (Vygotsky, 1979:138).
Muitos dos escritos de Vygotsky que apresentam o conceito de
Zona do Desenvolvimento Próximo fazem referência à criança em
idade escolar, no entanto isto não significa que o autor
considere que este conceito seja apenas aplicável em idade
escolar e em conseqüência do papel exercido pelas aprendizagens
formais. O autor realça igualmente o papel do jogo da criança na
medida em que este possibilita a criação de uma Zona de
Desenvolvimento Próximo.
Baquero (1988) sintetiza em três pontos fundamentais o que há de
comum entre a atividade de jogo e as situações escolares de
aprendizagem: a presença de uma situação ou cenário imaginário;
a presença de regras de comportamento; a definição social da
situação. Porém, o autor esclarece que Vygotsky distingue no
jogo a sua amplitude.
"Ainda que se possa comparar a relação brincadeira[1]-
desenvolvimento à relação instrução-desenvolvimento, a
brincadeira proporciona um campo muito mais amplo para as
mudanças quanto a necessidades e consciência." (Vygotsky in
Baquero, 1998:103).
Não é o caráter espontâneo do jogo que o torna uma atividade de
vanguarda no desenvolvimento da criança, mas sim o duplo jogo
que existe entre exercitar no plano imaginativo capacidades de
planear, imaginar situações, representar papéis e situações
quotidianas; e o caráter social das situações lúdicas, os seus
conteúdos, e a regra inerente á situação.
Apesar de nem todo o jogo da criança possibilitar a criação de
uma Zona de Desenvolvimento Próximo, da mesma forma que nem todo
o ensino o possibilita, no jogo com caráter simbólico as
condições estabelecidas para que aquela se gere estão
normalmente presentes, pois esta forma de jogo comporta uma
situação imaginária e a sujeição a certas regras de conduta. No
jogo simbólico, as regras são parte integrante, embora não
tenham caráter sistemático e antecipatório como acontece nos
jogos habitualmente designados regrados. O agir dentro de um
cenário imaginado faz com que a criança pondere as regularidades
sucedâneas da representação de um papel específico segundo as
regras da sua cultura. A criança ensaia em cenários lúdicos
comportamentos e situações para as quais não está preparada na
vida real, projeta-se nas atividades dos adultos, ensaiando
atitudes, valores, hábitos, significados que estão muito aquém
das suas possibilidades efetivas. Mesmo considerando que existe
uma grande diferença entre o comportamento na vida real e o
comportamento no jogo, a atuação no mundo imaginário cria uma
Zona de Desenvolvimento Próximo composta de conceitos, ou
processos em desenvolvimento. As interações requeridas no jogo
possibilitam a internalização do real e promovem o
desenvolvimento cognitivo (Baquero, 1998).
Em síntese, a regra e a situação imaginária caracterizam o
conceito de jogo infantil em Vygotsky: "Tal como a situação
imaginária tem de ter regras de comportamento também todo o jogo
com regras contém uma situação imaginária" (Vygotsky in Bruce,
1991:36).
Como afirma Palangana (1994) as concepções de Vygostky e Piaget
quanto ao papel do jogo no desenvolvimento cognitivo diferem
radicalmente. Para Piaget (1975) no jogo prepondera a
assimilação, ou seja, a criança assimila no jogo o que percebe
da realidade às estruturas que já construiu e neste sentido o
jogo não é determinante nas modificações das estruturas. Para
Vygotsky o jogo proporciona alteração das estruturas.
Por último importa referir que existe outra idéia fundamental em
Vygotsky (1999) relativamente ao jogo que se relaciona com o
papel que o autor atribui à imaginação, um dos pontos em que, em
nossa opinião, a discrepância entre o autor e Piaget mais se
acentua. Haverá dois tipos fundamentais de conduta humana que
constituem a plasticidade do nosso cérebro:
atividade reprodutora, em estreita relação com a memória;
atividade criadora e combinatória, em estreita relação com a
imaginação.
Ora, a relação entre o jogo e o desenvolvimento cognitivo na
criança deve também se procurar na relação entre o jogo e a
atividade combinatória do cérebro, a essência da criatividade.
Segundo o autor uma das questões mais importantes da psicologia
e da pedagogia infantil diz respeito à criatividade das
crianças, o seu desenvolvimento e a importância do trabalho
criador para a evolução e maturação da criança.
Como o próprio autor afirma, os processos de criação são
observáveis, sobretudo nos jogos da criança, porque no jogo a
criança representa e produz muito mais do que aquilo que viu.
“Todos conhecemos o grande papel que nos jogos da criança
desempenha a imitação, com muita freqüência estes jogos são
apenas um eco do que as crianças viram e escutaram aos adultos,
não obstante estes elementos da sua experiência anterior nunca
se reproduzem no jogo de forma absolutamente igual e como
acontecem na realidade. O jogo da criança não é uma recordação
simples do vivido, mas sim a transformação criadora das
impressões para a formação de uma nova realidade que responda às
exigências e inclinações da própria criança” (Vygotsky,
1999:12).
Esta idéia de transformação criadora é completamente diferente
da idéia de Piaget de assimilação do real ao eu. Tanto em
Vygotsky como em Piaget se fala numa transformação do real por
exigência das necessidades da criança, mas enquanto que em
Piaget (1975) a imaginação da criança não é mais do que
atividade deformante da realidade, em Vygotsky a criança cria
(desenvolve o comportamento combinatório) a partir do que
conhece, das oportunidades do meio e em função das suas
necessidades e preferências.
Na concepção de Vygostky, o que a criança vê e escuta
(impressões percebidas) constituem os primeiros pontos de apoio
para a sua futura criação, ela acumula material com o qual
depois estrutura a sua fantasia que progride num complexo
processo de transformação em que jogam a dissociação e a
associação como principais componentes do processo. Toda a
impressão representa um todo complexo composto por um conjunto
de partes diferentes e a dissociação consiste na divisão dessas
partes, das quais se destacam apenas algumas através de um
processo de comparação entre elas. Para unir posteriormente os
diferentes elementos o homem tem de romper com a relação natural
em que os elementos foram percebidos.
Para Vygotsky (1999) a imaginação depende da experiência, das
necessidades e dos interesses, assim como da capacidade
combinatória e do exercício contido nessa atividade e não
podemos reduzir a imaginação às necessidades e sentimentos do
homem.
Uma prática pedagógica adequada, tanto do educador do regular,
como do educador dos apoios educativos passará não apenas por
“deixar as crianças brincar”, mas sobretudo por “ajudar as
crianças a brincar” e por “brincar com as crianças”, ou até
mesmo por “ensinar as crianças a brincar”.
Bibliografia
BRUCE, T. (1991) – Time to Play in Early Childhood Education.
London: Hodder & Stoughton.
PALANGANA, I. C. (1994) – "Desenvolvimento & aprendizagem em
Piaget e Vygotsky (a relevância do social)" – São Paulo: Plexus.
PIAGET (1975) – A formação do símbolo na criança. Rio de
Janeiro: Zahar Editores.
Sutherland, P. (1996) – O desenvolvimento cognitivo atual.
Lisboa: Instituto Piaget.
Vygotsky, L. S. (1979) –Pensamento e linguagem. Lisboa: Edições
Antídoto.
VYGOTSKY, L. S. (1999) – Imaginación y creación en la edad
infantil. La Habana: Editorial Pueblo y Educación.
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[1] Opção do tradutor brasileiro.
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