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Administração Escolar e Qualidade do
Ensino: O que os Pais ou Responsáveis Têm a Ver Com Isso?
Vitor Henrique Paro
Universidade de São Paulo - Faculdade de Educação
A
questão da participação da população usuária na gestão da escola
básica tem a ver, em grande medida, com as iniciativas
necessárias para a superação da atual situação de precariedade
do ensino público no País, em particular o ensino fundamental.
Diante da insuficiência da ação do Estado no provimento de um
ensino público em quantidade e qualidade compatíveis com as
necessidades da população, propugna-se pela iniciativa desta no
sentido de exigir os serviços a que tem direito. É a população
usuária que mantém o Estado com seus impostos e é precisamente a
ela que a escola estatal deve servir, procurando agir de acordo
com seus interesses.
Por outro
lado, cada vez mais se toma consciência de que o caminho para
uma sociedade democrática não pode restringir-se ao voto nas
eleições periódicas para ocupantes de cargos parlamentares e
executivos do Estado. Uma efetiva democracia social (BOBBIO,
1989) exige o permanente controle democrático do Estado, de modo
a levá-lo a agir sempre em benefício dos interesses dos
cidadãos. Esse controle precisa exercer-se em todas as
instâncias, em especial naquelas mais próximas à população, onde
se concretizam os serviços que o Estado tem o dever de prestar,
como é o caso da escola pública. Daí a importância de que esta
preveja, em sua estrutura, a instalação de mecanismos
institucionais que estimulem a participação em sua gestão não só
de educadores e funcionários mas também dos usuários, a quem ela
deve servir.
Ao lado dessa
questão, um importante elemento tem sobressaído que, embora
tenha a ver com o conceito de participação enquanto instrumento
de controle democrático do Estado, extrapola-o, em certo
sentido: trata-se da percepção de que, para funcionar a
contento, a escola necessita da adesão de seus usuários (não só
de alunos, mas também de seus pais ou responsáveis) aos
propósitos educativos a que ela deve visar, e que essa adesão
precisa redundar em ações efetivas que contribuam para o bom
desempenho do estudante.
A seguir
apresento discussão teórica sobre o assunto seguida de breves
referências à maneira como uma escola pública fundamental de
periferia urbana da cidade de São Paulo, onde realizei pesquisa
sobre o tema[1],
começa a enfrentar a questão.
Quando se
discute o ensino público no Brasil, hoje, o senso comum costuma
identificar duas características como configuradoras de sua má
qualidade: a má preparação para o mercado de trabalho e a
ineficiência em levar o aluno à universidade. Infelizmente,
também entre políticos e administradores da educação, e mesmo em
círculos acadêmicos onde se discutem políticas educacionais, o
assunto não costuma elevar-se muito acima do senso comum, em
direção a um tratamento mais rigoroso da questão.
Entretanto,
por mais importante que seja a preparação para o mercado de
trabalho e para o ingresso no ensino superior, cumpre indagar se
não existiriam outros valores a informar os fins que se devem
buscar com a escola pública fundamental. Será que, tendo em
vista apenas o setor produtivo, como querem os empresários e
como apregoam os apologistas do mercado, estaremos contribuindo
para uma sociedade mais democrática, mais livre e produtora de
relações civilizadas entre pessoas e grupos? Será que, quando
nos preocupamos apenas com a preparação para o ensino superior
como fazia a escola pública "de qualidade" de algumas décadas
atrás[2]
ou a escola
particular de hoje que atende as camadas privilegiadas[3],
estaremos promovendo a melhoria no nível de bem-estar geral da
sociedade?
Embora não se
deva minimizar a importância desses dois elementos, parece-me
que as discussões que restringem a eles os objetivos da escola
pública têm omitido o essencial. A escola, como locus da
educação sistematizada, não pode passar ao largo do próprio
conceito de educação em sua inteireza, enquanto apropriação da
cultura. Esta tem a ver com a própria concepção de homem que
constrói sua especificidade e se constrói enquanto ser histórico
à medida que transcende o mundo natural pelo trabalho. Ao
transcender a mera natureza (tudo aquilo que não depende de sua
vontade e de sua ação), o homem ultrapassa o nível da
necessidade e transita no âmbito da liberdade. A liberdade é,
pois, o oposto do espontaneísmo, da necessidade natural; é algo
construído pelo homem à medida que constrói sua própria
humanidade. (PARO, 1997, p. 107-114)
Na produção
material de sua existência, na construção social de sua
história, o homem produz conhecimentos, técnicas, valores,
comportamentos, atitudes, tudo enfim que configura o saber
historicamente produzido. Para que isso não se perca, para que a
humanidade não tenha que reinventar tudo a cada nova geração,
fato que a condenaria a permanecer na mais primitiva situação, é
preciso que o saber esteja permanentemente sendo passado para as
gerações subseqüentes. Essa mediação é realizada pela educação,
entendida como a apropriação do saber produzido historicamente.
Disso decorre a centralidade da educação enquanto condição
imprescindível da própria realização histórica do homem. É,
pois, pela educação, que o homem tem a possibilidade de
construir-se historicamente, diferenciando-se da mera natureza.
(PARO, 1997, p. 107-114.)
A escola,
então, ao prover educação, precisa tomá-la em todo seu
significado humano, não em apenas algumas de suas dimensões. Por
isso, pode-se dizer que a escola pública tem baixa qualidade
sim, mas não pelas razões que normalmente são levantadas para
isso (porque não consegue fazer o que faz a escola particular ou
o que fazia a "boa" escola de antigamente). A escola pública tem
baixa qualidade, antes de tudo e principalmente, porque não
fornece o mínimo necessário para a criança e o adolescente
construírem-se enquanto seres humanos, diferenciados do simples
animal. Quando se fala em educação para a formação do cidadão é
esse pressuposto que deve estar por trás: o de que, como
condição para elevar-se a um nível humano de liberdade,
diferenciando-se da mera necessidade natural, o indivíduo
precisa "atualizar-se" historicamente pela apropriação de um
mínimo do saber alcançado pela sociedade da qual ele faz parte.
Essas
reflexões não se fazem presentes, em geral, na prática cotidiana
de nossas escolas públicas fundamentais, onde os professores,
ainda influenciados pela ideologia liberal burguesa (segundo a
qual é possível, igualmente a todos, subir na escala social por
meio do esforço pessoal, via educação escolar), continuam
buscando, para as atuais camadas sociais usuárias da escola
pública, a mesma meta de ingressar na universidade, que era
objetivo da escola pública de três ou quatro décadas atrás. Mas
a população escolar mudou, e as crianças e adolescentes que
freqüentam hoje a escola pública já não trazem o background dos
estudantes da antiga escola pública ou da atual escola privada.
Junte-se a isso a consideração das precárias condições de
funcionamento das escolas mantidas pelo Estado e se terá o
quadro de ineficácia das mesmas diante de suas obrigações
sociais. (PARO, 1997, p. 83-105)
O educador
escolar, em especial o professor, pouco tem conseguido fazer
diante da falta de material pedagógico, das classes abarrotadas
(que desafiam qualquer bom senso pedagógico), da falta de
assistência pedagógica, enfim, das inadequadas condições de
trabalho em geral. Entre estas, seu ínfimo salário, que o obriga
a mais de uma jornada de trabalho, é um dos elementos mais
marcantes, condicionante inclusive de sua baixa competência
profissional.
Nessas
condições, a escola pública brasileira tem produzido altos
índices de reprovação e de evasão e baixo nível de conhecimento
mesmo dos que conseguem ser aprovados. A culpa, na grande
maioria das vezes, cai sobre o "produtor final", o professor,
acusado de incompetência e de pouco empenho profissional. Este
reclama do salário mas, no íntimo, massacrado pela evidência dos
fracos resultados de seus serviços, se considera mesmo um
profissional pouco qualificado, responsável pela má qualidade do
ensino. Quando sua baixa consciência política não lhe permite
perceber as condições de que é refém, prefere, em defesa de sua
auto-estima, pôr a culpa no aluno, acusando-o de não querer
aprender.
Mas a
alegação da falta de interesse do aluno como justificativa para
o mau desempenho escolar precisa ser combatida de forma radical
porque ela implica a própria renúncia da escola a uma de suas
funções mais essenciais. Os equívocos a esse respeito geralmente
advêm da atitude errônea de considerar a "aula" como o produto
do trabalho escolar. Nessa concepção, desde que o professor deu
uma boa aula, a escola cumpriu sua obrigação, apresentou o seu
produto, tudo o mais sendo responsabilidade do aluno. Mas, se
consideramos o conceito de trabalho humano enquanto "atividade
adequada a um fim" (MARX, s.d., p. 202), a aula ou a "situação
de ensino" constitui o próprio trabalho, não seu produto. Se a
escola tem que responder por produtos, estes só podem ser o
resultado da apropriação do saber pelos alunos. Se estes não
aprenderam, a escola não foi produtiva. Dizer que a escola é
produtiva porque deu boa aula mas o aluno não aprendeu é o mesmo
que dizer que a cirurgia foi um sucesso mas o paciente morreu.
Mas a
consideração do processo pedagógico escolar enquanto processo de
trabalho nos ajuda também a compreender melhor a situação
especial do próprio objeto envolvido nesse processo. Não há
dúvida de que o aluno é verdadeiramente o objeto de trabalho
pois é ele que é objeto da ação educativa. Como em qualquer
outro processo de trabalho, o educando é quem "sofre" as ações
com que se pretende alcançar o objetivo e é ele, transformado
(em sua personalidade viva, pela apreensão do saber4),
que se constituirá no produto desse trabalho, ou seja, o "aluno
educado" (ou o aluno com a "porção" de educação que se pretendeu
oferecer). Todavia, há aqui um elemento que diferencia
radicalmente o objeto de trabalho pedagógico do objeto de
trabalho na produção material. Nesta, o objeto reage a sua
transformação apenas enquanto objeto, opondo resistências
meramente passivas. Na produção pedagógica, entretanto, temos um
objeto que é também sujeito, posto que se trata de um ser
humano, dotado de vontade. E eis aí uma das peculiaridades mais
importantes desse processo de trabalho: ele não pode dar-se à
revelia do objeto. Seu objeto-sujeito precisa querer para que a
produção se realize. Se o aluno não quiser, o aprendizado não se
dará.
Ora, o
"querer aprender" é também um valor cultivado historicamente
pelo homem e, pois, um conteúdo cultural que precisa ser
apropriado pelas novas gerações, por meio do processo educativo.
Não cabe, pois, à escola, enquanto agência encarregada da
educação sistematizada, renunciar a essa tarefa. Por isso é que
não tem sentido a alegação de que, se o aluno não quer aprender,
não cabe à escola a responsabilidade por seu fracasso. Cabe sim,
e esta é uma de suas mais importantes tarefas. Levar o educando
a "querer aprender" é o desafio primeiro da didática, do qual
dependem todas as demais iniciativas. (PARO, 1995)
Parece que
essa predisposição para aprender que existia no aluno da escola
pública de décadas atrás (v. nota 2) e que está presente em
grande medida no aluno da escola privada de hoje (v. nota 3) é a
chave para se explicar, pelo menos em parte, a aparência de
maior competência dessas duas escolas comparadas à atual escola
pública. Um aluno que já quer aprender depende muito pouco da
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competência da escola. Por isso, a instituição escolar que pode
selecionar seus alunos entre aqueles que já têm os
pré-requisitos culturais adequados para o ensino (Cf. BARRETO,
1992) pode prescindir de grande competência, bastando ocupar-se
em despejar "conteúdos", contando com o esforço dos alunos que,
em grande medida, aprendem não por causa da escola, mas apesar
dela. Mas a escola pública, que não pode selecionar seus
estudantes - o que seria um absurdo - não pode dar-se ao luxo de
falhar nessa tarefa, porque seus alunos não estão “preparados”
para aprender apesar dela; assim, diferentemente da antiga
escola pública (v. nota 2) e da atual escola privada (v. nota
3), sua incompetência aparece.
Mas, se a
escola pública precisa ser competente, ela deve também levar em
conta a necessidade de que seus alunos sejam seduzidos pelo
desejo de aprender. Não há dúvida de que a escola pouco ou nada
tem feito para tornar o ensino prazeroso, condição mais que
necessária para despertar o interesse do educando. Mas é verdade
também que há muito a fazer que não depende exclusivamente da
escola. E aqui é preciso voltar à complexidade do objeto de
trabalho com o qual ela lida. Enquanto sujeito humano, o aluno
não vive apenas na escola e não forma apenas aí seus valores. A
escola tem falhado não só por estar mal aparelhada, com métodos
inadequados e professores mal formados, embora não se possa
menosprezar o enorme peso desses fatores. A escola tem falhado
também porque não tem dado a devida importância ao que acontece
fora e antes dela, com seus educandos. Uma postura positiva com
relação ao aprender e ao estudar não acontece de uma hora para
outra nem de uma vez por todas: é um valor cultural que precisa
ser permanentemente cultivado. Começa a formar-se desde os
primeiros anos de vida, precisa de ambiente favorável para
desenvolver-se e carece de estímulos permanentes durante a
infância e a adolescência. Como a escola só tem acesso direto ao
educando durante as poucas horas que este freqüenta suas
atividades, ela precisa começar a voltar sua atenção para os
períodos em que ele está fora de seu abrigo.
Assim, a
escola que toma como objeto de preocupação levar o aluno a
querer aprender precisa ter presente a continuidade entre a
educação familiar e a escolar, buscando formas de conseguir a
adesão da família para sua tarefa de desenvolver nos educandos
atitudes positivas e duradouras com relação ao aprender e ao
estudar. Grande parte do trabalho do professor é facilitada
quando o estudante já vem para a escola predisposto para o
estudo e quando, em casa, ele dispõe da companhia de quem,
convencido da importância da escolaridade, o estimule a
esforçar-se ao máximo para aprender.
É aqui que
entra a questão da participação da população na escola, pois
dificilmente será conseguida alguma mudança se não se partir de
uma postura positiva da instituição com relação aos usuários, em
especial com os pais e responsáveis pelos estudantes, oferecendo
ocasiões de diálogo, de convivência verdadeiramente humana, em
suma, de participação na vida da escola. Levar o aluno a querer
aprender implica um acordo tanto com educandos, fazendo-os
sujeitos, quando com seus pais, trazendo-os para o convívio da
escola, mostrando-lhes quão importante é sua participação e
fazendo uma escola pública de acordo com seus interesses de
cidadãos. (PARO, 1995)
É isso que
justifica investigar, no âmbito da escola pública fundamental,
as dimensões de uma possível participação da família na
promoção, junto a seus filhos estudantes, de valores favoráveis
ao estudo e à aquisição do saber, bem como na adoção de posturas
e comportamentos diante deles que contribuam para a melhoria da
qualidade de seu aprendizado. Em termos de política educacional,
a relevância de estudo dessa natureza está em que, ao pesquisar
a colaboração que os pais podem dar, em casa, para o processo
pedagógico, pode-se fornecer importantes subsídios para tomadas
de decisões que ensejem a inclusão de elementos facilitadores da
melhoria da educação escolar, até hoje desconsiderados no
planejamento do ensino público. Qual o sentido de encaminhar
políticas restritas ao sistema de ensino, e em particular à
escola, se parte essencial da solução pode estar nas famílias ou
em instituições outras, fora do sistema regular de ensino? Esse
tipo de questão leva à necessidade de dimensionar as
potencialidades de contribuição das famílias dos alunos,
procurando conhecer, em especial, o que pensam eles a respeito
do ensino e quais suas predisposições em colaborar com a escola
no desenvolvimento de valores favoráveis à aquisição do saber.
É mister ter
bem claro, todavia, que uma tal iniciativa não pode cair no
equívoco de delegar aos pais e à comunidade aquilo que compete
ao Estado, por meio da escola, realizar. A crítica que se ouve
com freqüência é a de que medidas visando à participação dos
pais na escola acabam redundando em mais um ônus às famílias
desprivilegiadas usuárias do ensino público, já tão
sobrecarregadas de trabalho e de necessidades. Mesmo entre
alguns pais se ouve a alegação de que a obrigação de ensinar é
da escola e que eles, pais e mães, não têm tempo nem
conhecimento para isso. Um corolário dessa objeção é a afirmação
de que chamar os pais a “ajudarem” o professor e a escola seria
uma forma a mais de explorá-los, eles que já pagam o ensino com
seus impostos e que já são tão explorados em seu trabalho.
Entretanto,
não se trata, nem de os pais prestarem uma ajuda unilateral à
escola, nem de a escola repassar parte de seu trabalho para os
pais. O que se pretende é uma extensão da função educativa (mas
não doutrinária) da escola para os pais e adultos responsáveis
pelos estudantes. É claro que a realização desse trabalho deverá
implicar a ida dos pais à escola e seu envolvimento em
atividades com as quais ele não está costumeiramente
comprometido. Mas, em contrapartida, além de terem melhores
condições de influir nas tomadas de decisão a respeito das ações
e objetivos da escola, eles estarão investindo na melhoria da
qualidade da educação de seus filhos bem como na melhoria de sua
própria qualidade de vida, na medida em que esses adultos
estarão mais capazes, intelectualmente, de usufruir melhor de
bens culturais a que têm direito e que antes não estavam a seu
alcance. Com isso, a escola não estará, na verdade, passando
parte de suas tarefas aos pais, mas aumentando seu próprio
trabalho e responsabilidades, na expectativa, é bem verdade, de
facilitar seu trabalho educativo com os estudantes. Mas isto
apenas denota uma preocupação com a qualidade de seus serviços
que, em última análise, reverter-se-á em benefício dos próprios
usuários.
No que
concerne à administração das unidades escolares, as implicações
de medidas visando à adequação desse problema dizem respeito
tanto às questões propriamente organizacionais quanto aos
assuntos relativos à gestão do pessoal escolar. Com relação ao
primeiro ponto, e tendo em vista o fim específico de promover a
adesão (e a colaboração) dos pais aos propósitos educativos da
instituição escolar, trata-se de refletir acerca de como se
configurará a participação dos pais na escola e qual o papel
reservado a eles em colegiados como o conselho de escola e os
conselhos de classe e de série. Quanto à gestão do pessoal
escolar, supõe-se que novos elementos precisarão ser incluídos
na definição do papel desses servidores frente às famílias
usuárias da escola, a partir da exigência de um contato
qualitativamente novo e provavelmente muito mais freqüente do
que o atual. Especialmente com relação aos professores, supõe-se
que isso poderá exigir mecanismos permanentes de assessoria,
orientação e treinamento com o propósito de mantê-los
capacitados a desenvolver um trabalho com novas atribuições.
A unidade
escolar em que realizei a pesquisa antes referida apresenta
aspectos bastante interessantes para o estudo desse tema. Embora
as dimensões deste trabalho não permitam um tratamento mais
extensivo do assunto, é possível mencionar, ainda que de
passagem, alguns pontos que ressaltam do exame da questão no
interior da escola. O primeiro deles refere-se à crença unânime
entre professores, coordenadores pedagógicos, funcionários e
direção, na importância da ajuda dos pais para o bom desempenho
dos alunos na escola. É bastante recorrente, especialmente no
discurso do corpo docente, a afirmação da dependência do
professor em relação ao que é feito, antes, na família. Quanto à
natureza dessa ajuda, embora muitos reclamem a própria
assessoria dos mais velhos no estudo e na realização de lições
de casa, o que todos consideram mais importante é a atenção e o
estímulo que devem ser propiciados aos estudantes.
Isto tem a
ver, já, com o segundo aspecto relevante a se observar: embora
considere difícil que os pais, em sua maioria, pela própria
condição de semiletrados, não sejam capazes de ensinar os
conteúdos escolares ou de auxiliar eficazmente na solução dos
problemas de aprendizagem apresentados pelos alunos, a maioria
dos professores enfatiza que todos os pais podem muito bem
estimular seus filhos, interessando-se por seus estudos,
verificando seus cadernos, reforçando sua auto-estima, enfim,
levando-os a perceber a importância do aprender e a sentir-se
bem estudando. Uma professora de 3o. ano dá o exemplo de sua
mãe, que mesmo sendo analfabeta sabia estimulá-la a estudar
enquanto criança.
“Minha mãe
era analfabeta mas ela olhava meu caderninho. Eu nem percebia
que ela não sabia nada. Até os dez anos, pra mim, ela sabia
tudo. Ela olhava, discutia se tava bonito [ou] se não tava
bonito. (...) Então, a ajuda dos pais é nesse sentido: ‘ô, meu
filho, que cê tá fazendo, deixa eu ver o que que é que tem’, né.”
Apesar de
muitos professores acharem que os pais não cumprem essa função
porque não têm tempo diante da vida de trabalho duro que levam,
a maioria concorda que o que falta é um bom esclarecimento a
eles a respeito da forma de desempenhar seu papel e da
importância de fazê-lo. Concordam que esse esclarecimento deve
caber à escola, mas consideram que a maior dificuldade é trazer
os pais para participarem. Não acreditam que essa orientação
possa ser proporcionada aos pais, contando apenas com as vias
institucionais existentes: reuniões de pais, conselho de escola
e associação de pais e mestres. E aqui aparece outro elemento
praticamente consensual na concepção do pessoal da escola
entrevistado: sempre que são instados a apresentar uma solução
para a situação, os professores indicam como alternativa a
instituição de algo como uma “escola de pais” em que se
procuraria ensinar aos pais a melhor forma de lidar com seus
filhos para que estes tenham um melhor desempenho escolar.
Entre as
inúmeras implicações de uma tal iniciativa, pode-se destacar,
por um lado, o perigo de se adotar uma posição “catequética” com
relação aos pais que se suporiam passíveis de serem educados
pelos professores, por outro, a dúvida a respeito da
possibilidade de os mesmos educadores conseguirem, com os pais,
aquilo que reclamam não conseguir com os filhos, ou seja, o
interesse e empenho no estudo por parte destes últimos.
Em que pesem
estas e outras questões, a escola em exame na pesquisa de campo
apresenta-se como local privilegiado para o estudo do assunto
pelo especial motivo de estar começando a implementar uma
experiência a respeito. Trata-se de um projeto de formação para
pais autorizado pela delegacia de ensino e com previsão de
recursos para sua execução. Mas o mais auspicioso para a
experiência é que ela foi concebida e terá a liderança de uma
direção escolar vivamente interessada na participação de pais e
mães na escola, no duplo aspecto de direito dos usuários e de
necessidade da escola para o bom desempenho de suas funções.
Não se trata
de esquecer o enorme caminho a ser percorrido no interior da
própria escola, em termos da adequação de seus objetivos e de
seu aparelhamento material, humano e metodológico. Não se pode,
em absoluto, estar alheio a isto. Mas, trata-se, também, de
reconhecer algo a que a teoria educacional tem prestado pouca
atenção. Por pequena que seja, em comparação com tudo o que há
por fazer na escola, a contribuição que os pais podem dar para o
processo pedagógico escolar precisa ser levada em conta para
evitar o risco de se ignorar algo que é imprescindível para o
bom desempenho dos alunos.
BARRETO, Elba
Siqueira de Sá. O novo diálogo com a privatização na área da
educação. Em Aberto, v. 10 n. 50/51, p. 81-88, abr./set., 1992.
BOBBIO,
Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo.
4.ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.
MARX, Karl. O
Capital. Rio de Janeiro, Civil. Brasileira, s.d., v. 1.
PARO, Vitor
Henrique. Gestão democrática da escola pública. São Paulo,
Ática, 1997.
PARO, Vitor
Henrique. Gestão democrática: participação da comunidade na
escola. Nosso Fazer, Curitiba, ano 1, n. 9, ago. 1995, p. 1
PARO, Vitor
Henrique. Participação escolar e qualidade do ensino público
fundamental: o papel da família no desempenho escolar. São
Paulo, Feusp, 1998. Relatório de Pesquisa.
4 Observe-se
que, como me referi anteriormente, estou tomando o conceito
de saber de modo bastante amplo, referindo-se, tanto a
conhecimentos e técnicas, quanto a comportamentos, valores,
atitudes, enfim, tudo o que configura a cultura humana,
passível de ser apropriada na educação.
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