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A Primeira
Aula-Crônica
Prof. Silas Corrêa Leite
Membro da UBE-União Brasileira de Escritores
Assim como a primeira professora a gente nunca
esquece, como o primeiro beijo, a primeira viagem, o primeiro
amor e o primeiro livro, o primeiro dia de aula de um ex-aluno
universitário (recém formado) e recente professor, pode não ser
lá essas coisas, mas é muito emocionante, pois o primeiro passo
é para sempre, principalmente em se tratando de ensino público.
Pois lá fui eu assumir as
aulas de Geografia e História na Escola Marabá do município de
Taboão da Serra, coração batendo forte, ônibus lotado, medo de
não achar o lugar ou descer em ponto errado, mas visando com
esse emprego prover melhor meu salário, depois de trabalhar por
oito horas durante o dia, tendo que emendar com aquele “bico”
das 7 as onze da noite, na docência. Escolhi as aulas e fui,
algo preocupado, não com uma pulga atrás da orelha, mas com um
elefante...
E a primeira escola da
primeira aula a gente nunca esquece.
Fui pra Secretaria da
Escola, falar com a Diretora, me apresentei, todo eufórico,
achando que – a exemplo de uma empresa particular – ela iria me
levar para conhecer o espaço físico do lugar, apresentar-me o
corpo operacional todo, colegas, funcionários administrativos,
mas, eis a surpresa. Mal me apresentando, papelada aos montes,
eis que ela súbito se levanta e diz: - Venha comigo,
Professor! Lá fui eu, ciente que iria conhecer tudo
ali, no meu primeiro dia, trocar informações, saber amigos,
técnicas de trabalho, métodos de funcionamento. Entramos num
corredor enorme e pichado (eu atrás, emocionado, segurando o
tesão do primeiro momento tão sonhado), e eis que senão quando,
a Diretoria Helvécia simplesmente abre uma sala de aula (uma
quinta série problemática), adentra, dá um psiu geral, cobra-me
que entre, apresenta-me curto e grosso à sala antes em polvorosa
e então em curiosa e em simpática expectativa, dá-me uma caixa
de giz e um apagador tosco que se apresenta por ali, deseja-me
boa sorte e, grosso modo, antes de sair batendo a porta diz:
-A classe é sua, Professor. Boa
aula!
Fiquei no mato sem
cachorro, ou, como diz o popular em Itararé, “Montei num
porco”. Foi quando deu-me o conhecido tick, estalo, sei-lá.
Pensei rápido e rasteiro. - (A sala começava o burburinho da
conversinha dissimulada, alguém até, acho, se engraçou com
alguma coisa referente à minha pessoa exótica ali, no contexto
todo.) - Nunca ninguém tinha me ensinado isso; eu era novato no
meio mas não me fiz de rogado. Tivera outras “primeiras vezes”
em várias situações constrangedoras ou inusitadas, e sempre
saíra se não muito bem, saira pelo menos intato, são e salvo,
sem dar vexame ou pagar mico.
-Boa tarde! – Sou o
novo Professor de Geografia, nunca dei
aula e... – E fui falando feito um espeloteado nervoso (o
coração em pandarecos no peito enluado – a primeira emoção
mágica de todo momento magno é para sempre!), falei que era de
origem pobre, minha mãe uma mistura de negro com índio, meu pai
de português com judeu, que tinha vindo para São Paulo só com a
quarta série, que tinha passado fome, morado em pensão, mas que,
lendo e estudando muito, até nas férias, feriados e finais de
semana, tinha já feito duas faculdades e talecoisa, pelaí....
Um tipo piou xingando um
colega humilde de baiano crentinho – Cortei curto e grosso que
minha mãe era crente e não aceitava discriminação – parte da
classe riu (estavam me testando), parte acho que se aprumou pro
meu lado (a maioria de mestiços, pardos ou mulatos, nordestinos,
pobres – senti firmeza), um outro tipo riu alto do primeiro e eu
já perdi as estribeiras (sou pilha curta – mas fazendo o que eu
gosto e sonhara a vida toda - demorei muito até ser abrupto), e
comentei com o rapazinho alto, bem mais velho (repetente - olhar
de inteligente e carente mas com pinta brava de bagunceiro - a
dinâmica de quem não sabe o que fazer com a energia e
sensibilidade que tem?) e encorpei a voz:
-O sr. quer lá na Diretoria fazer graça pra
Diretora?
Pisei na bola? Ele
titubeou. A classe silenciou. Ele devia ser de responder mas
você pondo verdade nas palavras, nos olhos e no gestual (pantomina)
a verdade daquilo que você é com defeitos e emoções, sem ser
falso ou injusto (além de ter que ser bom naquilo que se propõe
a fazer, claro), conquista, domina, junta a teoria à praxis.
Peguei o giz, datei o dia,
coloquei GEOGRAFIA, O S de minha assinatura (depois escrevi
Silas para que não houvesse dúvida e marcasse bem), e, já não
mais refém da circunstancias e me sentindo algo dono da
situação, perguntei se a classe sabia o que era Geografia, giz
molhado numa mão e o apagador feio de uso na outra. Tenso.
-Geografia é uma matéria,
disse uma menininha humilde e algo antipática numa primeira
avaliação imediatista.
-Muito bem, agradeci. Qual
é o seu nome? - Errei.
-É Raimunda cara de bunda,
disse um espeloteado que de tanta raiva que fiquei nem me lembro
a fuça do estrupício. A classe caiu na risada, a menina começou
a chorar, um primo dela já xingou a mãe do gozador ameaçando “
pegar lá fora” e fez-se o forfé por atacado.
Confesso que não me lembro
direito o que fiz. Só sei que me lembro que expliquei que
geografia é tudo, tempo (horas), remédios (ervas e raízes),
comida (alimentos), ar (oxigênio), e que tiramos tudo da
Natureza (Geografia) para viver, comer, beber, vestir, habitar.
Expliquei, dei exemplo, até que um tipo comentou que na verdade
Geografia era tudo então, elogiei, sem perder o fio da meada,
bati na carteira informando que ali era um móvel mas tinha sido
árvore como papel do caderno, mostrei os pés de ferro e disse
que tinha sido minério, óxido de ferro, que o assento de
plástico tinha sido extraído da terra, de materiais decompostos
em processo químico e por aí a fora. Deitei falatório.
-Pra que time o ser
torce, professor?
(Um corinthiano (a camisa)
como eu, atentando a seqüência lógica e loquaz do meu ritmo
eloqüente.) Um filhote de cruz credo, com papo fora de hora.
-O Tião peidou de novo, “fessor”,
disse uma menina inocente puxando a cerzida blusinha para cobrir
o nariz. A classe caiu na gandaia. Quase achei graça, no socado
ímpeto do momento, mas o cheiro da flatulência sonora braba veio
feito um tufão; cortei a respiração, pedi que abrissem as
janelas (corri abrir a porta), e, como a classe fez aquela pausa
fui pra lousa e tentei escrever. Naquele momento acertei em
cheio. Começaram a copiar, deixaram de falar, eu que sou bom no
improviso dos textos, fiz um apanhado geral do que falara, quase
enchi a lousa (letra feia que só vendo) – Letra feia,
hein, Professor Silas?, gritou um disgramado, sapeca –
continuei escrevendo sem palpitar e ele sossegou o pito. Enchi a
lousa (Chega, professor! - reclamou uma menina posuda, cara de
metida a sebo), tocou o sinal – parecia aqueles de
penitenciárias que soam em ocasiões de rebelião - eu suspirei,
agradeci a colaboração (podia ser pior, disseram colegas, depois
– outros tiveram situações incontroláveis, disse, outros – se
fosse tal classe você desistiria na hora, pinchou um tipo sarará
docente de matemática), e eu saí da sala dois por dois, com o
rabo entre as pernas (passara no teste?), pois vencera o impacto
psicológico do primeiro momento, e garrei questionar a Inspetora
de Alunos para qual classe eu iria.
Era aula vaga. Fui pra
Sala dos Professores que estava vazia, mas que tinha água,
banheiro, café, chá. Asseei-me, fiz as necessidades – quando
fico nervoso solta-me o intestino -tomei um chá com muito
açúcar, respirei fundo (quebrara-se o impacto psicológico do que
na verdade tinha sito uma espécie de teste da praxis
pedagógica), relaxei, sentei no sofá e quase dormitei, até que
tocou o sinal da hora do recreio e a sala se encheu de todos os
tipos de pessoas, altas, baixas, magras, obesas, bonitas, feias,
pardas, negras, brancas, caras de rico, pobres, titulares,
eventuais, contratados, alguns felizes, outros fazendo bico,
algumas pessoas até frustradas ali, sem saber direito o ofício,
duas neuróticas disfarçadas, outras humildes, sensíveis,
competentes perdendo (ou ganhando?) cancha ali, quando mal-e-mal
me apresentei de sopetão, uns disseram benvindo, um ou outro
grunhiu o dezelo pela concorrência naquela periferia ao
deus-dará, outra disse uma palavra parecida com “coitado” , fui
com a feição de uns e outros, sondei riscos em terceiros, medi o
momento e, afinal, com garra e coragem, enturmei-me com o lanche
que, por sorte, aquele dia era cachorro-quente com salsicha
horrível de terceira categoria.
Fumaram, falaram
besteiras, reclamaram do governo (corrupto, ladrão – e era!),
tocou o sinal, peguei uma dobradinha numa Oitava série muito
boa, mesmo papo, copiei resumidamente o texto de um livro que me
emprestaram, expliquei – sou bom de improviso – depois dei
questões – e assim tive a primeira graciosa aula gostosa de
minha vida, lá nos idos de 1992, bairro do Marabá, município de
Tabão da Serra, área da chamada Grande São Paulo.
Acho que fiquei ali um ano
e meio nessa Unidade escolar de Ensino Público, saí-me muito
bem, e quando arrumei escola melhor, a improvisada professora
que assumiu a minha classe – eu tinha conseguido aula também em
escola particular – fazia faculdade com a minha esposa, e, mês
depois, um dia, aloprada, em pé de guerra, nervosa e fora do
sério, interpelou minha esposa e cobrou:
-O quê é que o seu marido
tem, afinal? Ele é feito de açúcar? Ele é louco? Os alunos só
falam nele, fazem comparações que me irritam, enchem o saco,
sentem a falta dele. Maldita hora que eu peguei as aulas dele
para substituir
Minha mulher engoliu a
seco, não disse nada, deixou passar o destempero ocasional de
uma professora ainda muito jovem. Ela não era tão sovada pela
vida, ainda. Amar se aprende amando. Não é assim que disse o
Poeta Vinícius? A melhor pedagogia é o exemplo? Lecionar é uma
missão, uma cruz? Deve ser isso
Eu já estava nos trinta e
tanto, e estava dando aula por amor, fazendo o que gostava.
Tinha passado por tantas situações, tinha apanhado da vida, mas,
finalmente, estava fazendo alguma coisa que gostava. A melhor
vingança é ser feliz? Devia ser isso, nada mais.
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