|
|
Uma
Reflexão Histórica Que Permeou As Tratativas Da Infância E
Adolescência No Último Século - A Passagem Do Brasil Monárquico
Para O Republicano
Adelaide Consoni
Vale a pena
conferir os discursos dos senadores e da elite cultural da
época. Difícil é constatar que há mais de um século, estamos
imersos neste paradigma: Não se salvou a criança e nem a nação.
Porém, as medidas propostas atualmente são as mesmas de um
século perdido - muito mais do que perdido!!!!
Os estudos que empreendi sobre as "Raízes
Históricas das Políticas Públicas para a Infância no Brasil", no
último século dão conta de explicar sobre a questão da criança
neste país. Estudos realizados pela Dra. Irene Rizzini apontam
que o abandono da criança no Brasil é secular.
"Temos uma pátria a reconstruir, uma nação a
firmar, um povo a fazer... e para emprehender essa tarefa, que
elemento mais ductil e moldável a trabalhar do que a infância?".
(...)São chegados os tempos" preconizava o Senador, "de
prepararmos na infância a céllula de uma mocidade melhor, a
genesis de uma humanidade mais perfeita". (Discurso do Senador
Lopes Trovão no Senado Federal de 11 de setembro de 1896).
É no século XIX, tido como um período
historicamente importante na formação das sociedades modernas,
palco de sucessivos confrontos entre dogmas e ideologias,
provocando uma revolução nas mentalidades e em meio as grandes
transformações econômicas, políticas e sociais que o conceito de
infância deixa de ser objeto de interesse, preocupação e ação do
âmbito da família e da igreja para tornar-se uma questão de
cunho social, de competência administrativa do Estado" . É
também desta época - "da passagem do regime monárquico para o
republicano, que vem o significado social de que foi revestida a
infância. Por um lado, simbolizava a esperança caso fosse
devidamente educada e se necessário até retirada do seu meio
(tido como enfermiço) e reeducada ela se tornaria útil a
sociedade. Predomina a visão higienista mostrando-se eficaz na
tarefa de educar. Por outro lado, a criança representa uma
ameaça nunca antes descrita com tanta clareza. Põe-se em dúvida
a sua inocência".
No dizer de um jurista da época, isto pode ser
observado "(...) contentamo-nos em confessar que aquella lenda
da alma infantil cândida e altruísta, está morta". (Apud Rizzini,
1997:29).
Segundo a autora, é também desta época a visão
ambivalente em relação à criança - em perigo versus perigosa -
que torna-se dominante no contexto das sociedades modernas,
urbanizadas e industrializadas.
Ao final do século XIX é que identifica-se a
criança, filha da pobreza - "material e moralmente abandonada" -
como um "problema gravíssimo", objeto de uma "magna causa", a
demandar urgente atenção. Do referencial jurídico claramente
associado ao problema é que se constrói uma categoria específica
- a do menor - que divide a infância em duas e passa a
simbolizar aquela pobre e potencialmente perigosa ou "em perigo
de o ser"; pervertida ou "em perigo de o ser" (...) (Apud
Rizzini, 1997:29).
Daí resulta, o porque de toda esta justificação
de um aparato médico-jurídico-assistencial, cujas metas eram
definidas pelas funções de prevenção, educação, recuperação e
repressão. Não podia portanto haver espaço para o lúdico, a
convivência, a relação, o jogo, a criatividade, a troca e
portanto desenvolvimento. Era preciso educar para o trabalho.
Era preciso vigiar e reprimir quaisquer manifestações lúdicas. O
discurso dual - ora em defesa da criança, ora em defesa da
sociedade, é que são estabelecidos os objetivos para as funções
abaixo: "de prevenção (vigiar a criança, evitando a sua
degradação, que contribuiria para a degeneração da sociedade);
De educação (educar o pobre, moldando-o ao hábito do trabalho e
treinando-o para que observe as regras do "bem viver"); De
recuperação (reeducar ou reabilitar o menor, percebido como
"vicioso", através do trabalho e da instrução, retirando-os das
garras da criminalidade e tornando-o útil à sociedade); De
repressão (conter o menor delinqüente, impedindo que cause
outros danos e visando sua reabilitação, pelo trabalho) (Apud
Rizzini, 1997:29 e 30).
Se o propósito comum era: "Salvar a criança" para
transformar a Nação, pois identifica-se na infância a
possibilidade de moldá-la para o bem (virtuosa) ou para o mal
(viciosa) . E ser virtuoso ou vicioso, eram qualidades que
estavam claramente ligadas, ao cultivo ou não do "hábito do
trabalho", mais uma vez podemos depreender que não poderia haver
espaço para o lúdico. Isto é evidenciado de maneira abundante
nos depoimentos, nas declarações e publicações que compõe o
discurso da elite intelectual e política da época. De médicos,
juristas, filantropos e moralistas . Daí depreende-se que a
lógica "salvacionista" dos nossos reformadores que "Educar a
criança era cuidar da nação; moralizá-la, civilizá-la. Cuidar da
criança e vigiar sua formação moral era salvar a nação, portanto
"salvar a criança era salvar a nação" - frase que tantos
repetiram nos idos de 1800 a 1900. Entendia-se ser essa a
missão, num Brasil, visto ainda por fazer, não encontraria
fórmulas verdadeiramente novas na gestão do poder.
A "salvação da criança", não significou a
existência do compromisso de rompimento entre a tradicional
estrutura agrária de poder e a ascensão de novos grupos
embalados pelos ideais republicanos de construção nacional e
pelo modo civilizatório europeu. A elite letrada, que dominava a
arena política à época, tinha diante de si uma opção a fazer:
promover a educação (para "civilizar"), sem no entanto, abrir
mão dos privilégios "herdados". Tal investimento na infância
feito com claros objetivos de moldá-la para o futuro, concebido
a partir de um projeto de nação livre das amarras de seu passado
colonial. Isto tinha por meta moldá-la para a submissão. Além de
obstaculizar a formação de uma consciência mais ampla de
cidadania antagonizou por vez os direitos entre pobres e ricos.
Eles eram impostos pela demanda das relações de produção de
cunho industrial e capitalista tal como evidencia-nos a autora.
Em detrimento de uma educação de qualidade e ao
acesso de todos, optou-se pelo investimento numa política
predominantemente jurídico-assistencial de atenção à infância
dicotomizando-a: "a criança mantida sob os cuidados da família,
para a qual estava reservada a cidadania; e do outro, o menor,
mantido sob a tutela vigilante do estado, objeto de lei, medidas
filantrópicas, educativas/repressivas e programas assistenciais,
e para o qual, poder-se ia dizer com José Murilo de Carvalho,
estava reservada a "estadania". O autor utiliza este termo "estadania",
para se referir a ação paternalista do Estado em contraposição a
participação de cidadãos ativos no processo político. No seu
livro "Os Bestializados", José Murilo de Carvalho focaliza
particularmente a questão da cidadania na passagem do regime
monárquico para o republicano e discute a noção positivista de
cidadania, segundo a qual não eram admitidos direito políticos".
(Apud, RIZZINI, 1997: 35 e 36)
Em seu livro a autora Irene Rizzini aponta que:
Data do final do século XIX a contemplação de algumas matérias,
carentes de regulamentação efetiva: estabelecimento da
obrigatoriedade do ensino, forçando os pais a enviarem seus
filhos para a escola; a regulamentação do trabalho infantil como
estratégia para controlar os abusos dos empresários
"capitalistas", na ânsia de explorar qualquer braço disponível,
desviando a criança da educação; a regulamentação do ensino
profissionalizante, incutindo desde cedo o "hábito do trabalho"
. Penso ser curiosa a questão que ela levanta: (...) qual seria
efetivamente o cerne da missão saneadora em questão, com sua
"prevenção moralizante e salutar" a que se referira Evaristo de
Moraes em seu livro "Creanças abandonadas e Creanças Criminosas"
?(1900).
Segundo a autora veremos que por trás das medidas estipuladas, a
meta era imprimir ao trabalho uma nova concepção - a do trabalho
dignificante e enobrecedor - missão nada simples, dada a nossa
trajetória de trabalho escravo, humilhante, forçado e aviltante.
A mudança de mentalidade deveria se dar em todos
os segmentos, pois para o pobre, que livre era coagido a
trabalhar para se manter, para as demais classes, trabalhar era
igualmente degradante e algo associado à escravidão e à pobreza.
Se no trabalho estava " a salvação" - esse é o termo utilizado,
veja-se que havia a percepção de uma catástrofe, de um perigo
eminente - pois então, era preciso atribuir-lhe um novo valor;
incutir na população o hábito de trabalhar e punir severamente
os que insistissem em escapar. Os indivíduos caracterizados como
"avessos ao trabalho", seriam discriminados e coagidos à labuta,
ainda que nos estabelecimentos carcerários.
Os eloqüentes discursos do Senador Lopes Trovão,
proferidos em 1896, seriam lembrados por muitos anos no Rio de
Janeiro: "(...) Pois bem senhores(...), dizia o Senador, " (...)
quem com olhos observadores percórre a capital da República vê
apezarado que é nesse meio peçonhento para o corpo e para a
alma, que bôa parte da nossa infância vive ás soltas, em
liberdade, incondicional, ao abandono, imbuindo-se de todos os
desrespeitos, saturando-se de todos os vícios, apparelhando-se
para todos os crimes." (In Moncorvo Filho, 1926:130, Apud
Rizzini, 1997: 144). "Por isso senhores, como recurso supremo,
eu me volto para a infância - os pequeninos de hoje que serão os
grandes de amanhã; é nella que ponho as esperanças da grandesa
do actual regimen pela regeneração da patria" (op. cit:. 131,
Apud Rizzini, 1997: 144)
Via-se claramente, conforme aponta a autora, que
"havia uma multidão desenfreada de pobres e desqualificados que
ameaçavam não apenas qualquer projeto de futuro, mas a própria
estabilidade da República" (Apud Rizzini, 1997:144).
Considerando o acima exposto é
na música de Caetano Veloso (Fora da Ordem) que vou encontrar
outra bela metáfora para o que pesquiso: "(...) Aqui tudo parece
construção e já é ruína. Tudo é menino e menina no olha da rua.
O asfalto, a ponte e o viaduto ganindo para a lua. Nada
continua. E o cano da pistola que as crianças mordem refletem
todas as cores da paisagem da cidade que é muito mais bonita e
muito mais intensa do que no cartão postal. Alguma coisa está
fora da ordem, fora da nova ordem mundial, alguma coisa está
fora da ordem(...)"
:::::VOLTAR:::::
 |