Ludus est necessarius ad
conversationem humanae vitae
O brincar é necessário para (levar uma)
a vida humana
(Tomás de Aquino,Suma Teológica II-II, 168, 3, ad 3)
I - Razões do
Lúdico na Pedagogia Medieval
“No
mercado de Olinda, que é um mercado pobre,
há mais alegria do que em toda a Suíça!”
(Julián Marías – Entr. a J. Lauand, in Videtur 8, 2000
http://www.hottopos.com/videtur8/entrevista.htm)
Deus brinca. Deus
cria, brincando. E o homem deve brincar para levar uma vida
humana, como também é no brincar que encontra a razão mais
profunda do mistério da realidade, que é porque é “brincada”
por Deus. Bastaria enunciar essas teses - como veremos,
fundamentalíssimas na filosofia do principal pensador
medieval, Tomás de Aquino - para reparar imediatamente que
entre os diferentes preconceitos que ainda há contra a Idade
Média, um dos mais injustos é aquele que a concebe como uma
época que teria ignorado (ou mesmo combatido...) - o riso e o
brincar.
Naturalmente, não
se trata só de Tomás de Aquino; a verdade é que o “homem da
época” [2] é muito
sensível ao lúdico, convive com o riso, e cultiva a piada e o
brincar [3] .
Tomás, por sua vez, situa o lúdico nos próprios fundamentos da
realidade e no ato criador da Sabedoria divina.
Assim, diante do
panegírico do brincar feito por Tomás - e diante da prática do
lúdico em toda a educação medieval - torna-se difícil
compreender como um erudito do porte de Umberto Eco
[4] possa ter querido situar no centro da trama de seu O
Nome da Rosa [5] ,
o impedimento “medieval” da leitura de um tratado de
Aristóteles sobre o riso (e no romance S. Tomás é citado como
autoridade respeitada não só pelo abade - p. 48 -, mas também
pelo fanático bibliotecário Jorge - p. 158 - , para quem o
riso é o pior dos males e está disposto a matar para obstruir
o acesso a um livro de Aristóteles sobre o tema - pp. 529 e
ss.) [6] . É
difícil compreender o empenho de proibir essa leitura de
Aristóteles, quando o próprio Aquinate - já solenemente
canonizado antes de 1327, ano em que se dá a ação do romance -
vai muito mais longe do que o Estagirita
[7] no elogio do lúdico...
Antes de
entrarmos em diálogo com a filosofia da educação de Tomás,
apresentemos alguns significativos exemplos
[8] do lúdico na Pedagogia Medieval: educadores e
educadoras; monges e reis; os eruditos e o povo; na educação
formal e informal, freqüentemente o lúdico está informando a
prática educativa. Tal fato, afinal - ao contrário do
preconceito que nos é imposto -, não é de estranhar: a própria
decadência cultural, que marca, desde o início, a Idade Média
encurta as distâncias - tão acentuadas em outras épocas
(sobretudo no Renascimento) -, entre as culturas chamadas
erudita e popular.
Assim, um
primeiro fator que nos ajuda na compreensão dessa valorização
medieval da cultura popular (e do lúdico...) está na própria
situação em que surge a Idade Média: com a queda do Império
Romano no Ocidente e a instalação dos reinos bárbaros, a
cultura erudita sofreu um sério abalo. E é em função da
valorização exclusiva da cultura erudita que são cunhadas as
próprias expressões “Idade Média” e “Renascimento”, carregadas
de valores e fruto da narcisista historiografia renascentista
[9] . Em ambos os casos manifesta-se a auto-apreciação de
uma época que pretende fazer “renascer” (ou, em alguns casos,
imitar servilmente...) a erudição clássica depois de uma época
"média" de mil anos. De fato, a Idade Média não tem, nem de
longe, a erudição clássica; mas valoriza e fomenta a cultura
popular. E é a partir do Renascimento, como faz notar Regine
Pernoud, que encontramos até mesmo proibições legais da
cultura popular: como as sentenças de 1542 do Parlamento,
proibindo o teatro popular - de tradição medieval -
precisamente por ser popular
[10] .
A primeira
característica essencial da Idade Média é - para tomar as
clássicas expressões de Hegel
[11] - diese Entzweiung, dies Gedoppelte, a dualidade
bárbaro-romana. O bárbaro - ainda ontem não só analfabeto, mas
ágrafo - instala-se hoje, triunfante, no espaço do extinto
Império Romano no Ocidente...
É nessa situação
- aparentemente desesperadora - que um dos mais geniais
educadores de todos os tempos, Boécio, o “último romano e
primeiro escolástico” (na consagrada fórmula de Martin
Grabmann), cria seu projeto pedagógico - o único cabível para
a Primeira Idade Média - que consiste em manter acesa uma
pequena chama-piloto, apresentando aos novos povos traduções
de precários resumos da ciência e da cultura clássicas. Esse
projeto pode-se sintetizar na sentença do começo do livro II
do Ars Geometrica: “Quamvis succincte tamen sunt dicta”,
embora resumida e precariamente, aí estão traduzidos os
fundamentos da cultura antiga...
[12] .
Outros educadores
(Cassiodoro, Beda, Isidoro, Alcuíno...) seguiram o paradigma
boeciano - succincte tamen... - e, bem ou mal, a cultura
antiga foi de algum modo preservada, até haver condições, no
século XII, de um “renascimento”
[13] .
Outro aspecto
pouco lembrado e que guarda relação com o lúdico é o fato -
específico da época - de a Idade Média ser, em diversos
sentidos, jovem. A juventude e a velhice não se predicam só
das pessoas singulares, mas também das épocas e regiões.
Pieper faz notar [14]
que a média de idade dos grandes autores da época - passe
o trocadilho, estamos falando de lúdico - “a idade média na
Idade Média”, está entre 20 e 30 anos: "Nada mais inexato do
que imaginar monges de barba branca, afastados do mundo em sua
cela, caligrafando sutis tratados em pergaminhos" (op. cit.
p.71).
É também por esse
caráter jovem dos novos povos que a Idade Média cultiva o
lúdico. Embora referindo-se ao lúdico em sentido muito mais
amplo de que o nosso brincar, cabe aqui a conclusão de
Huizinga em seu clássico Homo Ludens: “À medida que uma
civilização vai se tornando mais complexa e vai se ampliando e
revestindo-se de formas mais variadas e que as técnicas de
produção e a própria vida social vão se organizando de maneira
mais perfeita, o velho solo cultural vai sendo gradualmente
coberto por uma nova camada de idéias, sistemas de pensamento
e conhecimento; doutrinas, regras e regulamentos; normas
morais e convenções que perderam já toda e qualquer relação
direta com o [lúdico] jogo [Spiel]”
[15]
II - Quatro
Educadores Medievais e o Lúdico
Já
brinquei de bola, já soltei balão,
mas
tive que fugir da escola para aprender esta lição
(Chico Buarque “Meu Refrão”)
Nesta “grande
aprendizagem” que é a pedagogia medieval, destaquemos - de
modo necessariamente breve - quatro autores que, entre tantos
outros, praticaram amplamente o lúdico na educação.
II.1. Alcuíno
Alcuíno, o homem
mais erudito de seu tempo, ensina por meio de adivinhas,
charadas e anedotas. E consubstancia formalmente seu princípio
pedagógico numa carta
[16] dirigida ao Imperador Carlos Magno: “Deve-se ensinar
divertindo!”
Antológico, nesse
sentido, é o diálogo entre Alcuíno
[17] e Pepino, então um garoto de 12 anos. Junto com a
discussão dos grandes temas existenciais - o que são a vida e
a morte; o que é o homem etc. - o mestre propõe divertidas
charadas ao aprendiz: “Psst, não conta para ninguém, quero ver
se você sabe qual é a caçada na qual o que apanhamos não
trouxemos conosco e o que não pudemos caçar, sim, trouxemos
conosco”. O menino, prontamente, responde - mostrando que sabe
- que é a caçada feita pelo caipira (os piolhos: os piolhos
que “caçamos” não os trazemos conosco; os que não conseguimos
caçar, sim ,trazemos conosco! - p. 87)
Nas escolas
monásticas, o lúdico e o jocoso tinham, além do caráter
motivacional, uma outra função pedagógica: aguçar a
inteligência dos jovens. Ad acuendos iuvenes
[18] é o título de diversas coletâneas de exercícios de
Aritmética. Nelas encontramos divertidos problemas como o
seguinte: “Problema do boi. Um boi que está arando todo o dia,
quantas pegadas deixa ao fazer o último sulco? R.: Nenhuma, em
absoluto: as pegadas do boi, o arado as apaga”. (p. 98)
II.2. Petrus
Alfonsus
Se, a propósito
de Alcuíno, vimos o lúdico no ensino das escolas monásticas e
na escola palatina, Petrus Alfonsus, por volta de 1100, inclui
em sua Disciplina Clericalis
[19] - obra escrita para a formação do clero! - uma
coleção de anedotas para servir de exemplo na pregação. O
personagem principal é Maimundus Nigrus, o preto Maimundo, um
servo preguiçoso e espertalhão (uma espécie de Macunaíma ou de
Pedro Malazartes) que sempre se sai bem
[20] . Um exemplo: “Anedota do Pastor e do Mercador: Um
pastor sonhou que tinha mil ovelhas. Um mercador quis
comprá-las para revendê-las com lucro e queria pagar duas
moedas de ouro por cabeça. Mas o pastor queria duas moedas de
ouro e uma de prata por cabeça. Enquanto discutiam o preço, o
sonho foi-se desvanecendo. E o vendedor, dando-se conta de que
tudo não passava de um sonho, mantendo os olhos ainda
fechados, gritou: "Uma moeda de ouro por cabeça e você leva
todas..." (ed. cit. pp. 249-250)
II.3 Rosvita de
Gandersheim
No mosteiro
beneditino de Gandersheim - na época de nossa educadora (em
torno do ano 1000) um importante centro cultural, onde havia
monjas de cultura esplendorosa - Rosvita, após um hiato de
séculos, re-inventa o teatro, re-introduz a composição teatral
no Ocidente. E compõe seis peças de caráter educativo (Sapientia,
por exemplo, traz embutida toda uma aula de matemática!) - que
combinam drama e comédia. Entre inúmeras outras situações
cômicas, destacamos aqui a hilariante seqüência das cenas IV a
VII da peça Dulcício.
O governador
pagão, Dulcício , está encarregado da impossível tarefa de
demover três virgens cristãs - Ágape, Quiônia e Irene – de sua
fé. Confiante em seu poder de sedução e atraído pela beleza
das moças, manda trancafiá-las na despensa, ao lado da cozinha
do palácio, e, de noite – enquanto elas cantam hinos a seu
Deus -, Dulcício vai invadir a despensa, mas tomado de súbita
loucura, equivoca-se e entra na cozinha e acaba, sofregamente,
abraçando e beijando os caldeirões e panelas, tomando-as pelas
prisioneiras, que o espiam pelas frestas e vêem-no cobrir-se
de fuligem etc. Só quem ignora o papel do lúdico na pedagogia
medieval pode se surpreender que uma mulher, uma monja, numa
composição devota, para ser encenada no mosteiro, inclua uma
cena “escabrosa” como essa.
II.4. D. Alfonso
X o Sábio
O Libro del
Acedrex, o primeiro tratado de xadrez do Ocidente, composto em
1283 por Alfonso o Sábio, começa pela rotunda afirmação: “Deus
quis que os homens naturalmente tivessem todas as formas de
alegria para que pudessem suportar os desgostos e tribulações
da vida, quando lhes sobreviessem. Por isso os homens
procuraram muitos modos de realizar com plenitude tal alegria
e criaram diversos jogos que os divertissem (...) E esses
jogos são muito bons etc.”
[21]
II.5. Algumas
características comuns aos educadores medievais
Há algo em comum
nessas destacadas figuras medievais; cada um deles situa-se
como um dos mestres mais eruditos de seu tempo (e com uma
pedagogia de caráter acentuadamente popular). Além do mais,
são pioneiros: Alcuíno é quem inicia a escola palatina; Petrus
Alfonsus introduz a fábula na literatura medieval; Rosvita,
reimplanta o teatro; e é de D. Alfonso o primeiro tratado de
xadrez no Ocidente. Todos eles estão pagando um tributo a
Boécio, mas, além disso, estão afirmando o lúdico - em
charadas, teatro, anedotas ou jogos - como necessário para a
educação. Coincidem também - e com isto tocamos um segundo
elemento essencial da Idade Média - em convocar a religião
como fundamento, uma espécie de “tema transversal” (diríamos
hoje), onipresente no ensino medieval.
No diálogo de
Alcuíno e Pepino, a seqüência de adivinhas começa quando o
menino pergunta: "O que é a fé?" (fala 165). Ao que o mestre
responde: "A certeza das coisas não sabidas e admiráveis".
Ora, admirável (mirum) é precisamente um termo para designar
adivinha: as adivinhas servem de modelo para a fé. Tanto num
como noutro caso, temos já uma revelação mas não ainda a luz
total, que só vem quando o enigma é resolvido e, no caso da
fé, com a visio beatifica (a ligação dos enigmas com a fé
remonta ao apóstolo Paulo, ao Pseudo-Dionísio Areopagita etc.)
[22] .
Petrus Alfonsus
usa suas anedotas para a formação do clero e tira
conseqüências espirituais delas. Assim, a anedota da venda das
ovelhas, é utilizada para ilustrar a máxima religiosa: "As
riquezas deste mundo são transitórias como os sonhos de um
homem que dorme e que, ao despertar, perde, irremediavelmente,
tudo quanto tinha... " (op. cit. p. 250).
Também Rosvita
apresenta suas peças com explícitos objetivos religiosos. Na
seqüência que selecionamos, pode-se empreender - como o fazem
críticos como Sticca e Bertini - também uma interpretação
alegórica - sempre tão presente na Idade Média e em Rosvita
[23] : a noite, a dispensa, as panelas, a fuligem, o
próprio Dulcício são projeções simbólicas do Inferno e do
demônio. Nessa linha, o imperador Diocleciano, Dulcício e seu
assistente Sisínio representam respectivamente os clássicos
inimigos do cristão: o mundo, o demônio e a carne; epicamente
vencidos pelas virtudes (alegorizadas nos nomes das virgens
mártires) da caridade (Ágape), pureza (Quiônia - nívea) e da
paz (Irene).
Finalmente, D.
Alfonso atribui o xadrez e os jogos à vontade de Deus.
Se a cultura
erudita medieval tem já esse cunho popular e lúdico, o que não
dizer das manifestações culturais espontâneas do povo: o
teatro anônimo, os cantadores de feiras etc.?
[24]
III - O lúdico em
Tomás
“Não está totalmente errado o tipógrafo quando
troca ‘cósmico’ por ‘cômico”’(Chesterton)
[25]
III.1. A base
ético-antropológica do ludus
Voltemo-nos agora
para o alcance e o significado do lúdico em Tomás
[26] . Como dizíamos, se há uma marca característica da
cultura medieval é precisamente o fato de que toda a cultura,
na época, era pensada em termos religiosos: a religião como o
"tema transversal", por excelência e radicalmente
[27] .
Quando no século
XII, ocorre a redescoberta de Aristóteles (ou do “Aristóteles
arabizado”) no Ocidente a cristandade medieval é confrontada,
pela primeira vez, com uma completa visão-de-mundo elaborada à
margem do cristianismo. A divisão que este fato produz entre
os eruditos é fácil de prever: surgem, por assim dizer, dois
partidos: o daqueles que se aferram ao enfoque tradicional,
"espiritualista" e, por outro lado, o daqueles que se fascinam
com a investigação natural - à margem da Bíblia - propiciada
pelo referencial aristotélico. Tomás - junto com Alberto Magno
- está no meio, sofrendo incompreensões por parte dos dois
bandos, enfrentando o desafio de harmonizar a teologia bíblica
com a plena aceitação da realidade natural, a partir de
Aristóteles... [28]
O tratamento dado
ao brincar, é bastante representativo dessa postura de Tomás:
por um lado, ele segu
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e a antropologia da Ética a Nicômaco nos
dois breves estudos que tematicamente ele dedicou ao tema: os
artigos 2 a 4 da questão 168 da II-II da Suma Teológica e o
Comentário à Ética de Aristóteles IV, 16. Seu ponto de vista
em ambos é antropológico e ético: o papel do lúdico na vida
humana, a necessidade de brincar, as virtudes e os vícios no
brincar. Por outro lado, em outras obras (e de modo não
sistemático) guiado pela Bíblia, aprofunda de modo inesperado
e radical no papel do lúdico na constituição do ser.
O ludus de que
Tomás trata na Suma e na Ética é sobretudo - o brincar do
adulto (embora se aplique também ao brincar das crianças). É
uma virtude moral que leva a ter graça, bom humor, jovialidade
e leveza no falar e no agir, para tornar o convívio humano
descontraído, acolhedor, divertido e agradável (ainda que
possam se incluir nesse conceito de brincar também as
brincadeiras propriamente ditas). Ao falarmos do lúdico,
note-se que nos escritos de Tomás ludus e iocus são
praticamente sinônimas
[29] .
O papel que o
lúdico adquire na ética de Tomás decorre de sua própria
concepção de moral: a moral é o ser do homem
[30] , doutrina sobre o que o homem é e está chamado a
ser. A moral é um processo de auto-realização do homem
[31] ; um processo levado a cabo livre e responsavelmente
e que incide sobre o nível mais fundamental, o do ser-homem:
"Quando porém se
trata da moral, a ação humana é vista como afetando não a um
aspecto particular mas à totalidade do ser do homem... ela diz
respeito ao que se é enquanto homem" (I-II, 21, 2 ad 2).
A moral, assim
entendida, pressupõe conhecimento sobre a natureza humana (e,
em última instância, a Deus, como seu autor). A forma
imperativa dos mandamentos ("Farás x...", "Não farás y..."),
na verdade, expressa enunciados sobre a natureza humana: "O
homem é um ser tal que sua realização requer x e é
incompatível com y". E numa sentença só à primeira vista
surpreendente: "As virtudes nos aperfeiçoam para que possamos
seguir devidamente nossas inclinações naturais" (II-II,
108,2).
III.2. Ludus e
Educação na Suma e na Ética
Na Suma
Teológica, Tomás, sem a preocupação de glosar, trata do
brincar mais livremente do que o faz no Comentário à Ética.
A afirmação
central da valorização do brincar encontra-se no ad 3 do
artigo 3 da q. 168 da II-II: Ludus est necessarius ad
conversationem humanae vitae, o brincar é necessário para a
vida humana (e para uma vida humana). A razão dessa afirmação
(como sempre, o ser do homem) a encontraremos desenvolvida no
artigo 2 (da mesma q. 168): Tomás afirma que assim como o
homem precisa de repouso corporal para restabelecer-se pois,
sendo suas forças físicas limitadas, não pode trabalhar
continuamente; assim também precisa de repouso para a alma, o
que é proporcionado pela brincadeira
[32] .
Esta “re-creação”
pelo brincar - e a afirmação de Tomás (ainda na q. 168) pode
parecer surpreendente à primeira vista - é tanto mais
necessária para o intelectual e para o contemplativo que são
os que, por assim dizer, mais "desgastam" as forças da alma,
arrancando-a do sensível. E "sendo os bens sensíveis
conaturais ao homem" as atividades racionais mais requerem o
brincar.
Daí decorrem
importantes conseqüências para a Filosofia da Educação: o
ensino não pode ser aborrecido e enfadonho: o fastidium é um
grave obstáculo para a aprendizagem
[33] .
Em outro lugar da
Suma Teológica, no tratado sobre as paixões, Tomás -jogando
com as palavras - analisa um interessante efeito da alegria e
do prazer (delectatio) na atividade humana: o efeito que ele
chama metaforicamente de dilatação (dilatatio): que amplia a
capacidade de aprender tanto em sua dimensão intelectual
quanto na da vontade (o que designaríamos hoje por motivação):
delectatio/dilatatio, a deleitação produz uma dilatação
essencial para a aprendizagem
[34] . E, reciprocamente, a tristeza e o fastio produzem
um estreitamento, um bloqueio, ou, para usar a metáfora de
Tomás, um peso (aggravatio animi), também para a aprendizagem
[35] . Por isso em II-II, 168, 2 ad 1, Tomás recomenda o
uso didático de brincadeiras e piadas: para descanso dos
ouvintes ou alunos.
Não é de
estranhar, portanto, que, tratando do relacionamento humano,
Tomás chegue - com um realismo prosaico - a afirmar a
necessidade ética de um trato divertido e agradável, baseado
no fato (empírico) tão simples de que: nullus potest per diem
morari cum tristi, neque cum non delectabili
[36] - ninguém agüenta um dia sequer com uma pessoa
aborrecida e desagradável.
Daí que exista
uma virtude do brincar: a eutrapelia. E há também vícios por
excesso e por falta: as brincadeiras ofensivas e inadequadas,
por um lado, e, por outro, a dureza e a incapacidade de
brincar (também um pecado).
Basicamente as
mesmas teses da Suma reaparecem no comentário de Tomás aos
pontos da Ética a Nicômaco que Aristóteles dedica à virtude do
brincar. O comentário do Aquinate é cerca de três vezes mais
volumoso do que o original aristotélico (1127 b 30 - 1128 b
10) e segue passo a passo a tradução de que Tomás dispunha.
Tal tradução, se bem que muito boa para os padrões da época, é
obscura em certas passagens, como naquela em que se dá a
própria interpretação da palavra eutrapelia. Aristóteles
quando se vale do vocábulo eutrapelia está comparando essa
virtude da alma à agilidade como qualidade do corpo: "o bem
voltar-se" corporal, com flexibilidade e desembaraço. Já o
significado que a tradução deu a eutrapelus, bene vertente,
sugere a Tomás a errônea (mas feliz...) interpretação "aquele
que bem converte", aquele que “converte” adequadamente em riso
as incidências do quotidiano
[37] . Também na Ética, Tomás retoma os temas do brincar
como virtude e os pecados por excesso e por falta: “853 -
Aqueles que não querem dizer algo engraçado e se irritam com
os que o dizem, na medida em que assim se agastam, tornam-se
como que duros e rústicos, não se deixando abrandar pelo
prazer do brincar”.
III.3. O ludus na
teologia da obra criadora divina.
O lúdico, tão
necessário para a vida e para a convivência humana, adquire na
teologia de Tomás um significado antropológico ainda mais
profundo. Ele se baseia especialmente em duas sentenças
bíblicas, que, na tradução de que ele dispõe, têm as seguintes
formulações:
"Cum eo eram
cuncta componens et delectabar per singulos dies ludens coram
eo omni tempore, ludens in orbe terrarum et deliciae meae esse
cum filiis hominum" (Prov. 8, 30-31)
(Com Ele estava
eu, compondo tudo, e eu me deleitava em cada um dos dias,
brincando diante dEle o tempo todo, brincando no orbe da terra
e as minhas delícias são estar com os filhos dos homens)
"Praecurre prior
in domum tuam, et illuc advocare et illic lude, et age
conceptiones tuas" (Eclo. 32, 15-16).
(Corre para tua
casa, e lá recolhe-te e brinca e realiza tuas concepções)
[38] .
Para Tomás, o
brincar é coisa séria. Para ele, é o próprio Logos, o Verbum,
o Filho, a Inteligência Criadora de Deus, quem profere as
palavras de Prov. 8, 30:
A própria
Sabedoria fala em Prov. 8, 30 : “Com Ele estava eu etc.. ”. E
esse atributo encontra-se especialmente no Filho, enquanto
imagem de Deus invisível e por cuja Forma tudo foi formado
(...), pois como diz João I, 3: “Tudo foi criado por Ele”
[39] .
Nesses versículos
encontram-se os fundamentos da criação divina e da
possibilidade de conhecimento humano da realidade. Antes de
mais nada, Tomás sabe que não é por acaso que o evangelho de
João emprega o vocábulo grego Logos (razão) para designar a
segunda pessoa da Santíssima Trindade: o Logos é não só imagem
do Pai, mas também princípio da Criação, que é, portanto, obra
inteligente de Deus: "estruturação por dentro", projeto,
design das formas da realidade, feito por Deus por meio de seu
Verbo, o Logos.
Assim, para
Tomás, a criação é também um "falar" de Deus, do Verbum
[40] (razão, razão materializada em palavra): as coisas
criadas são, porque são pensadas e "proferidas" por Deus: e
por isso são cognoscíveis pela inteligência humana
[41] . Nesse sentido encontramos aquela feliz formulação
do teólogo alemão Romano Guardini, que afirma o "caráter
verbal" (Wortcharakter) de todas as coisas criadas. Ou, em
sentença quase poética de Tomás: "as criaturas são palavras".
"Assim como a palavra audível manifesta a palavra interior
[42] , assim também a criatura manifesta a concepção
divina (...); as criaturas são como palavras que manifestam o
Verbo de Deus" (In Sent.I d. 27, 2, 2 ad 3).
Esse entender a
Criação como pensamento de Deus, "fala" de Deus, foi muito bem
expresso em uma aguda sentença de Sartre (ainda que para
negá-la): "Não há natureza humana porque não há Deus para a
conceber [43] ".
E, como vimos, essa mesma palabra - conceptio - é essencial na
interpretação de Tomás.
Como num
brinquedo ou jogo, o Verbum compõe (componens) a articulação
intelectual das diversas partes e diversos momentos da
criação. Pois o ato criador de Deus não é um mero "dar o ser",
mas um "dar o ser" que é design, projeto intelectual do Verbo
[44] : “(Qualquer criatura...) Por ter uma certa forma e
espécie representa o Verbo, porque a obra procede da concepção
de quem a projetou” (I, 45,8).
A criação como
“brinquedo de composição” liga-se também ao modo como Tomás -
seguindo, aliás, uma tradição patrística - encara as três
obras [45] dos
seis dias [46] :
criação (propriamente dita, opus creatus, no primeiro dia);
distinção (opus distinctionis, no segundo e terceiro dias) e
ornamento (opus ornatus, quarto, quinto e sexto dias)
[47] . Para ele, seguindo Agostinho, as três obras do
relato dos seis dias do início da Bíblia são obra do Verbo
[48] .
Tomás - como,
aliás, toda a tradição medieval - tem um extraordinário
desembaraço em interpretar a Bíblia. As palavras com que se
abrem os livros sagrados “No princípio...” são entendidas por
ele pessoalmente - na pessoa do Verbo - e não adverbialmente:
“no começo”... Essa atitude dá-lhe, como veremos, inesperadas
possibilidades exegéticas. Comecemos, seguindo sua análise -
em Comentário às Sentenças I- do já tantas vezes citado
versículo de Provérbios: “Com Ele estava eu, compondo tudo, e
eu me deleitava em cada um dos dias, brincando diante dEle o
tempo todo...”
“Com Ele estava
eu, compondo tudo” - O Verbo estava junto ao Pai (em outro
lugar, Tomás explica
[49] que esse “Com Ele estava eu, compondo tudo” significa
que o Verbo estava com Ele (Deus Pai) como princípio da
Criação.
"Eu me
deleitava", delectabar, compartilhando a glória do Pai.
"Delectabar, consors paternae gloriae" (In I Sent. d.2 q.1 a.5
ex).
"Brincando",
ludens, a sabedoria de Deus cria brincando, pois é próprio da
sabedoria o ócio da contemplação, tal como se dá nas
atividades do brincar, que não se buscam por um fim que lhes é
extrínseco, mas pelo prazer que dão por si mesmas (In I Sent.
d.2 q.1 a.5 ex).
“Em cada um dos
dias”. É precisamente quando comenta o “per singulos dies”,
“em cada um dos dias”, que o pensamento de Tomás atinge sua
máxima profundidade. Dia tem dois significados: 1) a
diversidade da obra do Verbo, conhecimento criador, que opera
algo novo em cada um dos dias da Criação, mas também: 2) o dia
como luz, luz conhecedora, inscrita na criatura, que “repassa”
sua luminosidade para o conhecimento do homem. Quanto a este
último sentido, lemos no Comentário a I Tim 6, 3: "Tudo o que
é conhecido chama-se luz. Mas qualquer ente é conhecido por
seu ato, sua forma: daí que o que o ente tem de ato, tem de
luz (...) e o que tem de ser, tem de luz"
[50] .
Juntando os dois
significados de “dia”, Tomás diz que o Verbo fala “em cada um
dos dias” por causa de suas diversas ações na obra dos seis
dias: a concepção das diversas “razões” das criaturas, que de
per si são trevas, mas em Deus são luz: “Per singulos dies,
quantum ad rationes creaturarum quae in Deo sunt lux, quamvis
creaturae in seipsis sint tenebrae” (In I Sent. d.2 q.1 a.5
ex).
Essa luz do
design do Verbo embutida no ser da criatura (ou melhor: que é
o próprio ser da criatura!) é, como dizíamos, o que a torna
cognoscível para o intelecto humano. Assim não é descabido que
a inteligência humana tente captar também o senso lúdico do
Verbum. Na já citada I, q. 70 (da Summa), Tomás vai associando
a obra de ornamentação aos elementos mencionados na Criação:
no quarto dia são produzidas as luminárias, ornamento do céu;
no quinto, as aves e os peixes (que ornamentam o ar e a água);
e no sexto, os animais, para a terra.
Se bem que o
pecado do homem afetou a criação irracional, aventuremo-nos -
neste breve parêntese - a adivinhar o senso lúdico na criação
dos animais, que ornamentam a terra. É o que faz Guimarães
Rosa em uma enigmática sentença de sua visita ao Zoológico
[51] : após contemplar toda a cômica variedade (“O cômico
no avestruz: tão cavalar e incozinhável...”; “O macaco: homem
desregulado. O homem: vice-versa; ou idem”; “O dromedário
apesar-de. O camelo além-de. A girafa, sobretudo”), desfere a
“adivinha”: “O macaco está para o homem assim como o homem
está para x”. Ao que poderíamos ajuntar: o homem está para x
assim como x para y...
III.4. O lúdico
divino/humano no Comentário ao De Hebdomadibus
Se no Comentário
às Sentenças, Tomás fala do Deus Ludens, comentando passo a
passo Prov. 8, 30-31; no Comentário ao De hebdomadibus de
Boécio ele apresenta uma interpretação mais sugestiva do mesmo
tema, desta vez aplicada ao homem e a propósito de
Eclesiástico 32, 15-16, que é posto precisamente como epígrafe
de seu livro e objeto de todo o “Prólogo”. Tomás interpretará
de modo originalíssimo este “Brinca e realiza as tuas
concepções...” (com aquele sem-cerimonioso modo medieval, a
que já aludimos, de interpretar não literalmente a Bíblia).
Aparentemente
este versículo é um conselho moral bíblico a mais (assim o
entende Agostinho no Speculum
[52] ); um conselho secundário, que passou quase
inteiramente despercebido aos autores anteriores (e também aos
posteriores...) ao Aquinate
[53] . Um conselho que, como vimos, a Bíblia de Jerusalém,
traduz pela anódina fórmula: “Corre para casa e não vagueies.
Lá diverte-te, faze o que te aprouver, mas não peques falando
com insolência”.
Tomás, porém, vê
nesse versículo um convite ao homem a exercer seu
conhecimento, seguindo - a seu modo - os padrões lúdicos de
Deus. Seu Prólogo fundamenta todo um programa pedagógico, que
aponta para o fim por excelência
[54] da educação: a contemplatio (palavra que, como se
sabe, traduz a theoria grega).
Acompanhemos
Tomás em seu Prólogo
[55] , desde a epígrafe: "Praecurre prior in domum tuam,
et illuc advocare et illic lude, et age conceptiones
tuas"(Eclo. 32,15-16).
“Corre para tua
casa, e lá recolhe-te, brinca e ‘age’ tuas concepções” (Ecclo
32, 15). Tomás começa dizendo que a aplicação à Sabedoria tem
o privilégio da auto-suficiência: ao contrário das obras
exteriores, não depende senão de si mesma: tudo que o homem
necessita para aplicar-se à sabedoria é recolher-se em si
mesmo. Daí que o Sábio (o autor do Eclesiástico), diga:
“Corre para tua
casa”. Trata-se de um convite (cfr. nota 50) à fecundidade da
solidão e do silêncio, ao recolhimento, a entrar em si mesmo,
solicitamente (daí o “Corre”) e afastando toda a distração e
os cuidados alheios à sabedoria.
“Recolhe-te”. Com
a palavra advocare, Tomás quer reforçar - como em tantas
outras passagens [56]
em que emprega esse vocábulo - o recolhimento de quem foi
chamado, convocado para outra parte, a serena concentração -
que se abre à contemplação intelectual da realidade, da
maravilha da Criação.
“Brinca” – Além
das duas razões que aponta em I Sent. - o brincar é deleitável
e as ações do brincar não se dirigem a um fim extrínseco -,
aqui, Tomás acrescenta que no brincar há puro prazer
[57] , sem mistura de dor: daí a comparação com a
felicidade de Deus
[58] . E é por isso que diz - juntando as duas passagens
chave - que Prov. 8 afirma: “eu me deleitava em cada um dos
dias, brincando diante dEle o tempo todo”.
A conclusão de
Tomás é de uma densidade insuperável: “A divina sabedoria fala
em ‘diversos dias’ indicando as considerações das diversas
verdades. E por isso ajunta ‘Realiza as tuas concepções’,
concepções pelas quais o homem acolhe a verdade”.
Infelizmente, Tomás não diz como concebe essa imitação do
Logos divino pela inteligência humana.
Tomás não diz
como se dá este “lude et age conceptiones tuas” (brinca e
realiza tuas descobertas); seja como for trata-se de um
convite ao homem - com sua limitada inteligência - a entrar no
jogo do Verbum (na Suma I, 37, 1, diz que verbum é vocábulo ad
significandum processum intellectualis conceptionis, “para
significar o processo intelectual de concepção”), a descobrir
sua peças, seu sentido: a "lógica lúdica" do Logos Ludens.
Certamente, trata-se da contemplação da sabedoria (o que
inclui a contemplação “terrena”, da maravilha da criação),
mas, nada impede que estendamos este convite ao exercício
racional-lúdico a outros campos: num tempo como o nosso em que
alguns antevêem o fim da sociedade do trabalho, o fim da
burocracia, o fim da racionalidade sem imaginação, Domenico de
Masi, o profeta da sociedade do lazer - não por acaso
napolitano; Tomás também era da região de Nápoles - nos vem
anunciar “a importância do espírito lúdico, sem o qual não se
constrói a ciência”
[59] .
Afirmar o Logos
Ludens é afirmar a contemplatio - os deleites do conhecimento
que têm um fim em si -, contemplação que é formalmente fim da
educação proposta por Tomás. Mas o reconhecimento do Logos
Ludens traz consigo também o sentido do mistério: mistério,
que se dá não por falta mas por excesso de luz. A criação é
excesso de luz e nunca pode ser plenamente compreendida pelo
homem: daí que a busca da verdade - da que Tomás em famosa
questão de Quodlibet afirma ser a mais veemente força no homem
- conviva com a despretensão de compreender cabalmente sequer
a essência de uma mosca (como o Aquinate afirma no começo do
Comentário ao Credo)
[60] .
Isto é, o brincar
do homem que busca o conhecimento deve significar também o
reconhecimento desta nota essencial na visão-de-mundo de
Tomás: o mistério.

Nesse sentido,
Adélia Prado - que melhor do que ninguém sabe de Criação -
reafirma, em diversas de suas poesias, a ligação do lúdico com
o mistério:
Cartonagem
A prima hábil,
com tesoura e papel, pariu a mágica:
emendadas,
brincando de roda, 'as neguinhas da Guiné'.
Minha alma, do
sortilégio do brinquedo, garimpou:
eu podia viver
sem nenhum susto.
A vida se
confirmava em seu mistério.
(Poesia Reunida,
São Paulo, Siciliano, 1991,p. 111)
[61]
A partir da
estrutura dual de um Logos Ludens, compreende-se a dualidade
fundamental do conhecimento humano: conhecemos, mas no claro
escuro do mistério, particularmente no que se refere ao
alcance do pensamento humano em relação aos arcanos de Deus:
nEle não há uma liberdade compatível com a contradição de um
Ockham, - personagem referencial de frei Guilherme de
Baskerville, o herói de O Nome da Rosa – nem tampouco as
férreas "rationes necessariae" de um Anselmo de Canterbury
[62]
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}
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.
À rosa da qual
nada resta a não ser o nome “stat rosa pristina nomine...” e a
um Deus - “Gott ist ein lautes Nichts” - que é um sonoro nada,
sentenças com que se fecha o romance de Eco, contrapõem-se a
rosa de Tomás e a de Julieta, que, também ela, fala do nome da
rosa:
What’s in a name?
That which we call a rose
By any other name
would smell as sweet.
(Romeo and
Juliet, Act II)
Se a rosa tivesse
outro nome, deixaria de ser aquilo que é? Deixaria de ser luz
e fonte de luz, do Verbum Ludens de Deus (Jo 1,4)?
[1]
. Texto da prova
pública de erudição para o concurso de Professor Titular -
História da Educação, Depto. de Filosofia e Ciências da
Educação - Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo,
dezembro de 2000. De acordo com a tradição do Departamento,
desde sua fundação, os estudos de História de Educação são
integrados aos de Filosofia. Assim, após uma breve exposição e
discussão da prática do lúdico na pedagogia medieval,
examinamos o pensamento de Tomás de Aquino, que explicita e
articula fundamentos filosóficos dessa prática. Naturalmente,
o pensamento de Tomás, como aliás é típico do pensamento
medieval, não é puramente filosófico, mas sim - em profunda e
espontânea interpenetração - filosófico-teológico. Só muito
tardiamente surgirá a pretensão de uma filosofia alheia à
Teologia. O afã de Voraussetzungslosigkeit, de uma asséptica
independência da Teologia, é impensável para pensadores como
Tomás. Para o tema da “filosofia cristã”, remetemos a Josef
Pieper "O caráter problemático de uma filosofia não-cristã"
(in Oriente & Ocidente: Filosofia e Arte, São Paulo,
DLOFFLCHUSP, 1994, trad. de Gabriele Greggersen e L. Jean
Lauand).
[2]
. Passe a
generalização, afinal “época” é sempre Žpov–, uma suspensão,
um subtrair à diferença.
[3]
. Antecipando pontos
que desenvolveremos depois, consideremos que o homem medieval
recebe do cristianismo um vivo sentido de mistério, uma
humildade anti-racionalista (não anti-racional,
anti-racionalista!) que está na própria base do senso de
humor. Pois o riso pressupõe o reconhecimento e aceitação da
condição de criatura, de que o homem não é Deus, do mistério
do ser, da não-pretensão de ter o mundo absoluta e ferreamente
compreendido e dominado pela razão humana. O racionalismo,
pelo contrário, é sério; leva-se demasiadamente a sério e, por
isto mesmo, é tenso e não sabe sorrir. O homem medieval brinca
porque acredita vivamente naquela maravilhosa concepção
bíblica – que discutiremos detalhadamente - que associa a
Sabedoria divina à obra da Criação: quando Deus criou o mundo
e fez brotar as águas das fontes, assentou os montes, fez a
terra e os campos, traçou o horizonte, firmou as nuvens no
alto, impôs regras ao mar e assentou os fundamentos da terra
"ali estava eu (a Sabedoria divina) com Ele, brincando
(ludens) diante dEle o tempo todo, brincando (ludens) no orbe
da terra e as minhas delícias são estar com os filhos dos
homens " (Prov. 8, 30-31).
[4]
. Ele mesmo, aliás,
um profundo conhecedor de Tomás: sua laurea em Filosofia foi
com a tese: Il problema estetico in Tommaso d'Aquino, Milano,
Bompiani, 1970 - English Translation: The Aesthetics of Thomas
Aquinas, Cambridge: Harvard U.P., 1988. E em seu mais recente
livro, chega a afirmar: “Quando me vejo assim tão perdido
diante de questões de doutrina, recorro à única pessoa em quem
confio, que é Tomás de Aquino” Eco, Umberto – Martini, Carlo
Maria Em que crêem os que não crêem, Rio de Janeiro, Record,
2000, p. 50.
[5]
. Eco, Umberto O
Nome da Rosa, São Paulo, Nova Fronteira, 1983. O livro, como
se sabe, teve um destino curioso: foi comprado por todos, lido
por alguns, compreendido por muito poucos...
[6]
. Naturalmente, a
preocupação de Eco, não é tanto com a teologia medieval, mas
com a cultura e a política contemporâneas.
[7]
. Para o relativo
caráter secundário do lúdico em Aristóteles, veja-se o cap.
II.2 “Las indicaciones de Aristóteles” de Yepes, Ricardo La
región de lo lúdico - reflexión sobre el fin y la forma del
juego; Pamplona, Cuadernos de Anuario Filosófico, 1996.
[8]
. Limitar-me-ei a
citar publicações de obras por mim traduzidas e que discuto em
cursos na FEUSP.
[9]
. Cfr. Nunes, Ruy A.
C. História da Educação na Idade Média, São Paulo, EPU-Edusp,
pp. 10 e ss. e Pernoud, R. Idade Média - o que não nos
ensinaram, Rio de Janeiro, Agir, 1979, pp. 17 e ss.
[10]
. "Tanto os artesãos
como os tocadores de música são pessoas ignaras, operários
mecânicos, que não sabem A nem B, e que jamais foram
instruídos e, além disto, não têm língua fecunda, nem
linguagem própria, nem sequer os acentos da pronúncia
decentes... estas pessoas não letradas, de condição infame,
como um marceneiro, um sargento, um tapeceiro, um vendedor de
peixes, estão a representar os Atos dos Apóstolos..." cit. por
Pernoud Idade Média - o que não nos ensinaram, Rio de Janeiro,
Agir, 1979, pp. 46-47.
[11]
. Cit. por Pieper,
Scholastik, München, DTV, 1981, p. 20.
[12]
. Trato desse
projeto pedagógico de Boécio, nos capítulos dedicados a esse
educador em meus livros: Cultura e Educação na Idade Média
(seleção, trad. e estudos introd.), S. Paulo, Martins Fontes,
Coleção Clássicos-Educação, 1998; e Educação, Teatro e
Matemática Medievais, S. Paulo, Perspectiva, 2a. ed., 1990,
ampliada com novos textos e estudos.
[13]
. Naturalmente, a
escolástica, no sentido fundacional boeciano, deve ser
entendida como aprendizagem pouco original dos rudimentos de
saberes, que só séculos depois terão condições de florescer. É
a chama-piloto que, só no séc. XII, receberá combustível para
dar lugar a um renascimento: da escola monástica passar-se-á à
universidade; dos livros de Sentenças, às Sumas.
[14]
. Scholastik, cap.
V.
[15]
. Huizinga, J. Homo
Ludens, São Paulo, Perspectiva- Edusp, 1971, p. 85.
14. Epístola 101,
in PL 100, 314, C.
15. Os dois
próximos textos citados encontram-se em Lauand (org.)
Educação, Teatro e Matemática Medievais, S. Paulo,
Perspectiva, 2a. ed., 1990.
16. Ao próprio
Alcuíno é atribuída uma coletânea de divertidos problemas
"para aguçar a inteligência dos jovens".
17. Cito pela
tradução das anedotas da Disciplina Clericalis que se encontra
em Lauand, L. J. (org.) Cultura e Educação na Idade Média, São
Paulo, Martins Fontes, 1998.
18. O senhor de
Maimundo ordenou-lhe, certa noite, que fosse fechar a porta.
Maimundo - que, oprimido pela preguiça, nem podia se levantar
- respondeu que a porta já estava fechada.
Ao alvorecer,
disse-lhe o senhor:
- Maimundo, vai
abrir a porta.
- Como eu sabia
que o senhor havia de querê-la aberta hoje, nem cheguei a
fechá-la ontem.
O senhor,
percebendo que, por preguiça, não a tinha fechado, disse-lhe:
- Levanta-te e
faz o que tens de fazer, pois é dia e o sol já está a pino.
- Se o sol já
está a pino, então dá-me de comer - respondeu Maimundo.
- Servo mau, nem
amanheceu e já queres comer?
- Bom, se não
amanheceu, então deixa-me continuar dormindo. (ed. cit. p.
247)
[21]
. Cito pela tradução
que está em Lauand, L. J. “O xadrez na Idade Média”, São
Paulo, Perspectiva-Edusp, 1988.
20. São Paulo,
referindo-se à fé, diz: "Presentemente vemos de modo confuso
como por um espelho em enigmas (in aenigmate); mas então
veremos face a face" (I Cor 13, 12). E na Hierarquia
Eclesiástica do Pseudo-Dionísio Areopagita reencontramos a
metáfora do enigma: nos mistérios da revelação e da Liturgia -
Hierarquia Eclesiástica. 2, 3, 1; 3, 3, 3 e 5, 1, 2.
[23]
. S. Sticca
"Hrotswitha's 'Dulcitius' and Christian Symbolism" Mediaeval
Studies 32 (1970), pp. 108-127, cit. por Ferruccio Bertini Il
teatro di Rosvita, Genova, Tilgher, 1979, p.62.
[24]
. Cfr. Lauand (org.)
Idade Média: Cultura Popular, São Paulo, FFLCH-Edix, 1995.
[25]
. “G.K. Chesterton
once observed that when a typesetter substitutes 'comic' for
'cosmic' he is not really too much in error” (cit. por
Jonathan Williams
http://www. jargonbooks.com/ broughton.html”.
[26]
. Citarei Tomás pelo
texto latino da edição eletrônica de Roberto Busa Thomae
Aquinatis Opera Omnia cum hypertextibus in CD-ROM. Milano,
Editoria Elettronica Editel, 1992.
[27]
. Nesse sentido, já
no marco inicial da cultura da Idade Média - o ano 529 -
coincidem dois fatos emblemáticos: o fechamento da Academia de
Atenas por decreto imperial (desde então não haverá lugar para
a cultura pagã) e a fundação, por Bento de Núrsia, do mosteiro
de Monte Cassino (e o período que vai do século VI ao século
XI será conhecido como era beneditina).
[28]
. Cfr. a já citada
Scholastik, caps. VII a IX.
[29]
. Em latim, a
palabra iocus tende a ser mais empregada para brincadeiras
verbais: piadas, enigmas etc. Ioca monachorum, por exemplo, é
o título que designa as coleções de charadas, enigmas e
brincadeiras verbais dos monges nos mosteiros medievais. A
forma inglesa joke, conserva essa ênfase no verbal. Já ludus -
da qual se originaram as nossas: aludir, deludir, desiludir,
eludir, iludir, ineludível, interlúdio, ludâmbulo, ludibriar,
lúdico, prelúdio etc.- refere-se mais ao brincar não verbal:
por ação. No entanto, no século XIII iocus e ludus empregam-se
freqüentemente como sinônimas. Assim, por exemplo, diz Tomás:
"As palavras ou ações - nas quais se busca só a diversão
chamam-se lúdicas ou jocosas", "A diversão acontece por
brincadeiras (ludicra) de palavra e de ação (verba et facta)"
(II-II, 168, 2, c).
[30]
. Cfr. p. ex. o
Prólogo da parte II da Suma Teológica.
[31]
. É o que significa
por exemplo a caracterização, tantas vezes por ele repetida,
da virtude como ultimum potentiae.
[32]
. É interessante
observar que assim como a palavra refeição indica um
"re-fazer-se" das forças físicas, assim também pelo recreio,
há uma "re-criação" das forças da alma.
[33]
. Suma Teológica,
prólogo.
[34]
. Diz Tomás: “A
largura é uma dimensão da magnitude dos corpos e só
metaforicamente se aplica às disposições da alma. ‘Dilatação’
indica uma extensão, uma ampliação de capacidade, e se aplica
à ‘deleitação’ (Tomás joga com as palavras
dilatatio-delectatio) com relação a dois aspectos. Um provém
da capacidade de apreender que se volta para um bem que lhe
convém e por tal apreensão o homem percebe que adquiriu uma
certa perfeição que é grandeza espiritual: e por isso se diz
que pela deleitação sua inteligência cresceu, houve uma
dilatação. O segundo aspecto diz respeito à capacidade
apetitiva que assente ao objeto desejado e repousa nele como
que abrindo-se a ele para captá-lo mais intimamente. E assim
se dilata o afeto humano pela deleitação, como que
entregando-se para acolher interiormente o que é agradável"
(I-II, 33, 1).
[35]
. ibidem, I-II, 37,
2, ad 2.
[36]
. Non posset vivere
homo in societate… sine delectatione, quia sicut Philosophus
dicit, in VIII Ethic.: “Nullus potest per diem morari cum
tristi, neque cum non delectabili”. Et ideo homo tenetur ex
quodam debito naturali honestatis ut homo aliis delectabiliter
convivat... ibidem, II-II, 114, 2 ad 1.
[37]
. "Aristóteles
mostra o que é o termo médio da virtude no brincar. E diz que
aqueles que se portam convenientemente no que diz respeito ao
brincar são chamados eutrapeli, que significa "os que bem
convertem", porque convertem em riso, de modo conveniente e
versátil, as coisas que se dizem ou fazem" (854). Cito pela
minha tradução em Cultura e Educação na Idade Média, S. Paulo,
Martins Fontes, Coleção Clássicos-Educação, 1998, p. 292.
Outra passagem
ilustrativa da desorientação de Tomás, suscitada pelas
deficiências de tradução é aquela em que Aristóteles para
ilustrar a diferença entre a atitude viciosa e a virtuosa
contrapõe as antigas às novas comédias. Diz o original
aristotélico: "Para os antigos autores cômicos era a
obscenidade o que provocava o riso; para os novos, é antes a
insinuação, o que constitui um progresso". Já na tradução de
que Tomás se vale não há tal contraposição e o Aquinate
entende "suspeita" onde o original diz "insinuação". Daí sua
afirmação, interessante, mas que nada tem que ver com o texto
aristotélico: "E (Aristóteles) diz que tal critério é
especialmente manifesto quando consideramos os diálogos tanto
nas antigas como nas novas comédias. Porque se em algum lugar
nessas narrações ocorria alguma fala torpe, isso gerava em
alguns a irrisão enquanto tais torpezas se convertiam em riso.
Para outros, porém, gerava a suspeita, enquanto suspeitavam
que aqueles que falavam torpezas possuíam algum mal no
coração" (859), ed. cit., p. 294.
[38]
. Se Tomás
escrevesse hoje, seguiria a Nova Vulgata, de 1986, que oferece
as seguintes versões: "Cum eo eram ut artifex: delectatio eius
per singulos dies ludens coram eo omni tempore, ludens in orbe
terrarum et deliciae meae esse cum filiis hominum" (Prov. 8,
30-31). E "Praecurre autem prior in domum tuam, et illuc
advocare et illic lude, et age conceptiones tuas" (Eclo. 32,
15-16).
Já para este
último versículo, a Bíblia de Jerusalém apresenta a tradução:
“Corre para casa e não vagueies. Lá diverte-te, faze o que te
aprouver, mas não peques falando com insolência”.E para o
versículo de Provérbios: “Eu estava junto com ele como o
mestre-de-obras, eu era o seu encanto todos os dias, todo o
tempo brincava em sua presença: brincava na superfície da
terra, e me alegrava com os homens”.
[39]
.Et ipsa sapientia
loquitur, Prov. 8, 30: ‘Cum eo eram cuncta componens...’. Hoc
etiam spe-cialiter Filio attributum invenitur, inquantum est
imago Dei invisibilis, ad cujus formam omnia formata sunt:
unde Col. 1, 15: qui est imago Dei invisibilis, primogenitus
omnis creaturae, quoniam in ipso condita sunt universa; et
Joan. 1, 3: omnia per Ipsum facta sunt. (In I. Sent.)
[40]
. Em seu Comentário
ao Evangelho de João, Tomás até discute a conveniência de
traduzir Logos por Ratio e não por Verbum. Esta última forma
parece-lhe melhor, pois se ambas indicam pensamento, Verbum
enfatiza a "materialização" do pensamento (em
criação/palavra). Sua resposta é: "Ratio propriamente designa
o conceito da mente, enfatizando aquilo que está na mente
(mesmo que não venha a se materializar), enquanto verbum é o
pensamento que faz referência ao exterior. Por isso - como o
evangelista ao dizer Logos não só indicava a existência do
Filho no Pai, mas também a potência operativa do Filho pela
qual 'por Ele todas las coisas foram criadas'- os antigos
traduziram Logos por Verbum (que enfatiza a referência ao
exterior) e não por ratio, que só sugere o conceito na mente"
(Super Io. I,1,32).
[41]
. Não é por acaso
que Tomás considera que "inteligência" é intus-legere ("ler
dentro"): a ratio do conceito na mente é a ratio "lida" no
íntimo da realidade.
[42]
. O conceito, a
idéia.
[43]
. Sartre, Jean-Paul
O Existencialismo é um Humanismo, in Os Pensadores (vol. XLV
Sartre-Heidegger). São Paulo, Abril, 1973, p. 11.
[44]
. “Deus Pater
operatus est creaturam per suum Verbum”, "Deus Pai opera a
Criação pelo seu Verbo,...”(I, 45, 6).
[45]
. “Na recapitulação
da obra divina, diz Gn 2,1: ‘Assim perfizeram-se os céus e a
terra com todos seus ornamentos’. Nessas palavras, podem-se
distinguir três obras: a obra da criação, que produziu os céus
e a terra, porém informes; a obra da distinção, que perfez os
céus e a terra (...) e a estas duas deve-se ajuntar a obra de
ornamento. Ornamento difere de perfazer, pois a perfeição do
céu e da terra parece referir-se à sua constituição
intrínseca, enquanto o ornamento refere-se a coisas que lhes
são distintas: tal como um homem, que se perfaz pelas suas
próprias partes e formas e é ornamentado pelas vestes ou
coisas do gênero. (...) Assim, é próprio da obra de ornamento
a produção de coisas que se movem tanto no céu como na terra”
(Summa Th. I, 70, 1). In recapitulatione divinorum operum,
Scriptura sic dicit, igitur perfecti sunt caeli et terra, et
omnis ornatus eorum. In quibus verbis triplex opus intelligi
potest, scilicet opus creationis, per quod caelum et terra
producta leguntur, sed informia. Et opus distinctionis, per
quod caelum et terra sunt perfecta, sive per formas
substantiales attributas materiae omnino informi, ut
Augustinus vult; sive quantum ad convenientem decorem et
ordinem, ut alii sancti dicunt. Et his duobus operibus additur
ornatus. Et differt ornatus a perfectione. nam perfectio caeli
et terrae ad ea pertinere videtur quae caelo et terrae sunt
intrinseca, ornatus vero ad ea quae sunt a caelo et terra
distincta. Sicut homo perficitur per proprias partes et
formas, ornatur autem per v
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}
}
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estimenta, vel aliquid huiusmodi.
Distinctio autem aliquorum maxime manifestatur per motum
localem, quo ab invicem separantur. Et ideo ad opus ornatus
pertinet productio illarum rerum quae habent motum in caelo et
in terra.
[46]
. Cfr. John F.
McCarthy “The First Four Days According To St. Thomas”, Living
Tradition, November 1993, No. 49, Ponce,
http://www.rtforum.org/lt/lt49.html.
[47]
. Considerandum est
de creatura corporali. In cuius productione tria opera
scriptura commemorat, scilicet opus creationis, cum dicitur:
“In principio creavit Deus caelum et terram, etc.”; opus
distinctionis, cum dicitur: “Divisit lucem a tenebris, et
aquas quae sunt supra firmamentum, ab aquis quae sunt sub
firmamento”; et opus ornatus, 10 cum dicit: “Fiant luminaria
in firmamento etc.” (I, 65, prol.)
[48]
. “A pessoa do Filho
é mencionada tanto na criação das coisas como em sua distinção
e ornamento, mas de modos diferentes. A distinção e o
ornamento perrtencem à formação das coisas. E tal como a
formação das obras de arte dá-se pela forma artística que está
na mente do artista, que podemos chamar de verbo inteligível,
assim tambéma formação das criaturas dá-se pelo Verbo de Deus.
E é por isso que as obras de distinção e de ornamento remetem
ao Verbo. Já na obra da criação o Filho é mencionado como
princípio, quando se diz (Gn 1, 1): ‘No Princípio, criou
Deus...’” (I, 74, 3 ad 1).
[49]
. No Comentario ao
Evangelho de João (cp 1, lc 2), Tomás explica que se trata de
ação do Pai pelo Verbum: "Quia enim evangelista dixerat ‘omnia
per Ipsum facta sunt’, posset intelligi Patrem excludi ab omni
causalitate; ideo consequenter addit ‘et sine ipso factum est
nihil’. Quasi dicat: sic per eum facta sunt omnia, ut tamen
Pater cum eo omnia fecerit. Nam tantum valet sine eo, ac si
dicatur non solus; ut sit sensus: non ipse solus est per quem
facta sunt omnia, sed ipse est alius, sine quo factum est
nihil. Quasi dicat sine ipso, cum alio operante, scilicet
Patre, factum est nihil; iuxta illud prov. viii: cum eo eram
cuncta componens".
[50]
. "Illud quo aliquid
cognoscitur quocumque modo, dicitur lux. Unumquodque autem
cognoscitur per suam formam, et secundum quod est actu. unde
quantum habet de forma et actu, tantum habet de luce (...)
est, inquantum habet de entitate et luce". Tomás diz no De
veritate (I,2): res naturalis inter duos intellectus
constituta est - a realidade natural está situada entre dois
cognoscentes: o intellectus divinus - mensurans e non
mensuratum - e o intellectus humanus: mensuratum, que recebe
sua “medida” das coisas que, por sua vez, receberam sua
“medida” do Verbo.
[51]
. Ave Palavra, 2a.
ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1978, pp. 94 e ss.
[52]
. Speculum, cp. 23.
Cito pela edição eletrônica da Brepols - Cetedoc Library of
Christian Latin Texts, Universitas Catholica Lovaniensis,
1994.
[53]
. O próprio Tomás só
o menciona no comentário a Boécio (exceção feita ao Super
Evangelium Matthei cp 13, lc 13, onde considera o fato de que
Cristo explica as parábolas reservadamente aos apóstolos e,
citando nosso versículo, comenta: “si velimus secreta
investigare, debemus in secretum intrare”).
[54]
. A esse respeito,
veja-se o tópico 3.2 “Contemplação” de minha tese de
doutoramento O que é uma Universidade, São Paulo,
Perspectiva-Edusp, 1987. Cfr. também Rosa, Antonio Donato
Paulo O papel da contemplação na educação segundo os escritos
filosóficos de Santo Tomás de Aquino; dissertação de mestrado,
FEUSP, São Paulo, 1993.
[55]
. Praecurre prior in
domum tuam, et illuc advocare et illic lude, et age
conceptiones tuas. (Eccli. 32, 15 - 16). Habet hoc privilegium
sapientiae studium, quod operi suo prosequendo magis ipsa sibi
sufficiat. In exterioribus enim operibus indiget homo
plurimorum auxilio; sed in contemplatione sapientiae tanto
aliquis efficacius operatur, quanto magis solitarius secum
commoratur. Et ideo sapiens in verbis propositis hominem ad
seipsum revocat, dicens: "Praecurre prior in domum tuam",
idest ad mentem tuam ab exterioribus sollicite redeas,
antequam ab alio occupetur, per cuius sollicitudinem
distrahatur: Unde dicitur Sap. 8: "Intrans in domum meam,
conquiescam cum illa", idest cum sapientia. Sicut autem
requiritur ad contemplationem sapientiae quod mentem
suamaliquis praeoccupet, ut totam domum suam contemplatione
sapientiae impleat, ita etiam requiritur quod ipse totus per
intentionem interius adsit, ne scilicet eius intentio ad
diversa trahatur: et ideo subdit: "et illuc advocare", idest
totam intentionem tuam ibi congrega. sic igitur interiore domo
totaliter evacuata, et homine totaliter per intentionem in ea
existente, quid agendum sit exponit subdens, "et illic lude".
Ubi considerandum est, quod sapientiae contemplatio
convenienter ludo comparatur, propter duo quae est in ludo
invenire. primo quidem, quia ludus delectabilis est, et
contemplatio sapientiae maximam delectationem habet: unde
Eccli. 36 xxiv, dicitur ex ore sapientiae: "Spiritus meus
super mel dulcis". Secundo, quia operationes ludi non
ordinantur ad aliud, sed propter se quaeruntur. Et hoc idem
competit in delectationibus sapientiae. contingit enim
quandoque quod aliquis apud seipsum delectatur in
consideratione eorum quae concupiscit, vel quae agere
proponit. Sed haec delectatio ordinatur ad aliquid exterius,
ad quod nititur pervenire; quod si deficiat vel tardetur,
delectationi huiusmodi adiungitur non minor afflictio,
secundum illud Prov. xiv: "risus dolore miscebitur". Sed
delectatio contemplationis sapientiae in seipsa habet
delectationis causam: unde nullam anxietatem patitur, quasi
expectans aliquid quod desit. propter quod dicitur Sap. viii:
"non habet amaritudinem conversatio illius, nec taedium
convictus illius", scilicet sapientiae. Et ideo divina
sapientia suam delectationem ludo comparat, Prov. viii:
"delectabar per singulos dies, ludens coram eo..." ut per
diversos dies, diversarum veritatum considerationes
intelligantur. Unde et hic subditur: "et illic age
conceptiones tuas", per quas scilicet homo cognitionem accipit
veritatis. (In Boet. de Hebd. Lc-).
[56]
.Por exemplo, em
II-II, 175, 4, diz que para conhecer as coisas altíssimas de
Deus é necessário que tota mentis intentio illuc advocetur.
[57]
. Certamente, diz
Tomás, alguém pode encontrar prazer em atividades que têm fim
fora de si mesmas, mas, neste caso, quando esta meta exterior
falha ou tarda, ajunta-se a aflição ao prazer, o que nunca
ocorre com a contemplação da sabedoria...
[58]
. Deus é feliz e
suas delícias são estar con os filhos dos homens. Isto impede
qualquer interpretação do brincar de Deus na Criação como uma
piada de mau gosto, no sentido de Macbeth (Ato V): "(Life) it
is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying
nothing". Aliás, num outro comentário importante a Prov. 8,
30-31, “as minhas delícias são estar com os filhos dos
homens”, Tomás diz que Deus ama as criaturas, especialmente o
homem, a quem comunica o ser e a graça, para fazê-lo partícipe
de Sua felicidade (Super Ev. Io. 15, 2).
[59]
. Domenico de Masi,
em entrevista a “Roda Viva”, janeiro de 1999, citado por
Gilberto de Mello Kujawski “A sociedade do lazer e seu
profeta” O Estado de S. Paulo, 25-2-99, p. 2. A citação vem a
propósito do conhecido caso dos prêmios Nobel da Escola de
Biologia de Cambridge, que descobriram o DNA. “Os cientistas
produziram diversos desenhos da possível estrutura do DNA, a
priori, sem base experimental. Na hora de testar aqueles
desenhos surgiu a questão: qual deles? A resposta foi: o mais
belo. Testou-se o desenho mais formoso e elegante. E não é que
deu certo? O esquema do DNA era aquele mesmo” art. cit. Cfr. o
cap. “A Escola de Biologia de Cambridge” D. de Masi A Emoção e
a Regra, Rio de Janeiro, José Olympio, 1997. Ainda a propósito
do Logos Ludens e da ciência, meu amigo (e colega de direção
editorial) Dr. Wilson Miguel Salvagnini - professor da
EPUSP-Química, que orientou a primeira tese sobre água de coco
na USP -, sabendo destas minhas pesquisas, comentou-me o
seguinte: “A água de coco como que manifesta uma inteligência
e um propósito: trata-se de um liqüído que - além de agradável
– é espantosamente isotônico, estéril e contém sais e
açúcares, tudo como que ‘sob medida’ para a necessidade
humana: a tal ponto que pode ser, por exemplo, até tomada por
lactentes e é perfeitamente injetável intravenosamente!” Cfr.
P. ex. Dupaigne, P. “Un jus de fruit peu ordinaire: l'eau de
coco”. Fruits, v. 26, n. 9, pp. 625 e ss. E poderíamos
acrescentar: não haverá algo de lúdico - lembremos do
cósmico/cômico de Chesterton - em esconder esse valioso
liqüído num coco, no alto de um coqueiro?!
[60]
. A esse aspecto do
pensamento de Tomás, Pieper dedicou sua obra - de tão
sugestivo título - Unaustrinkbares Licht. Um parágrafo, a
título de resumo: “Temos certamente a potência de conhecimento
das coisas, contudo não nos é possível conhecer formalmente a
sua verdade; conhecemos a imagem imitativa (Nachbild), mas não
a sua correspondência ao arquétipo (Urbild): a relação
existente entre o ser-pensado (Erdachtsein) e o seu projeto”
Pieper, J. “Luz Inabarcável - o Elemento Negativo na Filosofia
de Tomás de Aquino”, cito pela tradução de G. Greggersen em
Convenit 1, Salamanca, Ed. Arvo, 2000,
http://www.
hottopos.com/convenit/jp1.htm#(*). Para o tema do
mistério, veja-se o capítulo correspondente em Lauand O que é
uma Universidade, São Paulo, Perspectiva-Edusp, 1987.
[61]
. Veja-se também,
por exemplo,
“Rebrinco”:
“(...) Ia chamar
Letícia pra brincar.
Medo que eu tinha
era não ter mistério”. (p.115)
[62]
. Cfr. p. ex. Pieper
Scholastik, München, DTV, 1978, cap.
XI.
FONTE:
http://www.hottopos.com