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Trabalho e Educação: dois discursos sobre um mesmo assunto. Da Teoria do Capital Humano à construção de mecanismos de desenvolvimento da humanidade
Flávio Boleiz Júnior, Juliana Montóia de Lima & Raquel Souza dos Santos
Universidade de São Paulo - Alunos de Pedagogia



“Em primeiro lugar devem vir as pessoas e não a produção”
Eric Hobsbawn

I. Apresentação:

No primeiro semestre de 2001, durante as aulas de Economia da Educação, nos debruçamos sobre algumas teorias acerca de temas como Economia, trabalho, liberdade, produção material, valor de uso, valor de troca, mais valia, opressão, alienação. Discutimos também como se insere o papel da educação em uma sociedade dominada por interesses particulares de capitalistas – os donos do capital e dos meios de produção -, em que a importância da educação está centrada na contribuição que ela poderá trazer à seus negócios, e por outro lado, a concepção mais humanística, da qual compartilhamos, de que a educação é, antes de mais nada, um direito universal de desenvolvimento de potencialidades e apropriação do saber social produzido historicamente (habilidades, cultura, valores que são produzidos pela humanidade).

Tendo como base reflexões e leituras realizadas durante o andamento das aulas da disciplina Fundamentos Econômicos da Educação e, em particular, a leitura do livro Educação e a Crise do Capitalismo Real, do professor Gaudêncio Frigotto, nos propusemos a buscar respostas para nossas inquietações e dúvidas acerca da teoria do capital humano, amplamente difundida à partir de 1962, pelo economista e Prêmio Nobel Theodore Schultz.

Mais do que concordar com este ou aquele autor lido ao longo do curso, queríamos constatar a presença do discurso humanista da educação e, por outro lado, o da teoria do capital humano, defendido e difundido pelos “homens de negócio”(nome dado pelo professor Frigotto, àqueles que vêm construindo as atuais políticas educacionais do Brasil e a quem elas também tem privilegiado e servido) no sistema educacional brasileiro.

Este trabalho consiste, portanto, em uma reflexão do grupo sobre a presença das diferentes maneiras de compreender educação nos projetos políticos levados à cabo pelos nossos governantes. Para isso, consultamos os Parâmetros Curriculares do Ensino Médio do Ministério da Educação (MEC) para verificarmos suas diretrizes básicas, buscando perceber se, explicitamente ou não, o projeto educativo oferecido pela atual gestão estaria atrelando a educação à geração de mão-de-obra. Buscamos também em jornais e revistas informações que legitimassem essas políticas e corroborassem para a formação de um imaginário coletivo que enxerga a centralidade da escola para o término da crise do desemprego e para a ascensão econômica dos milhares de excluídos; em outras palavras: ascensão e mobilidade social.

II. Educação para o trabalho: teoria que engana e não se concretiza

De maneira geral, as discussões acerca da educação têm sido freqüentemente atreladas à formação de mão-de-obra para o mercado de trabalho como forma de se abastecer o mercado de trabalho e dar condições aos escolares de competir bem formados nesse mercado; não só na educação escolar, como também nos projetos de formação e reciclagem da massa trabalhadora, tais como programas do cidadão solidário, programas de voluntariado, etc.

Essas discussões sugerem que caberia à escola, tendo o professor como mediador, dar competências e habilitar os indivíduos para as técnicas, os mecanismos sociais e ideológicos cobrados pelo trabalho na sociedade capitalista. Não raro, nos deparamos com discursos, massivamente veiculados pela mídia, que criticam a escola, seu atraso de conteúdo, seu distanciamento das habilidades necessárias (flexibilidade, habilidade múltiplas, dinamismo, conhecimentos generalizados) para o mundo em desenvolvimento; despejando a culpa pelo insucesso escolar sobre a classe do professorado, sugerindo sempre a necessidade de sua reciclagem e formação como formas de se melhorar o nível da educação pública.

Essa idéia acaba gerando uma suposição no seio da sociedade, que gostaríamos de questionar, a saber: primeiro, de que o caos em que se encontra o ensino público brasileiro é culpa de indivíduos – especialmente professores e alunos – que, no primeiro caso são incompetentes para administrar o seu trabalho na transmissão dos saberes necessários ao êxito do processo de escolarização; e no segundo caso – o dos alunos – são inábeis e sem vocação, não possuem talento individual para galgarem os níveis mais altos do conhecimento e habilidades oferecidas pela escola para sua formação, de modo que acabam por reproduzir na sociedade o insucesso como fruto de sua incompetência traduzido em baixos níveis de conhecimento e inabilidade para inserção no mercado de trabalho.

O mais recente material veiculado pelos jornais sobre a necessidade de uma educação destinada à atender as demandas do mercado de trabalho foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, maio de 2001, onde o economista Robert Samuelson defende a tese de que no Brasil, e no restante do mundo, a educação ofertada nas escolas públicas deveria ser medíocre e funcional[1].

Para Samuelson, a educação norte-americana é virtuosa graças ao seu vínculo estreito com os interesses empresariais, porque assim sendo, encontra financiamento na iniciativa privada e é flexível em seus conteúdos – caso se crie uma nova tecnologia para o mercado das telecomunicações, por exemplo, rapidamente a escola estará apta para fornecer mão-de-obra qualificada, uma vez que empresa e escola estão intimamente relacionadas. Esse economista compreende educação como ponte para o exercício de uma profissão.

Pouco tempo depois, o jornal Folha de S. Paulo, publicou um caderno especial sobre o analfabetismo cujo título é inspirador para análise: “Pesquisadores vinculam analfabetismo e economia”. A idéia mestra da reportagem era a de que o aumento da escolaridade resultaria em uma redução das desigualdades sociais e na melhoria da economia brasileira. Sem explicar a base de seu cálculo, por exemplo, o economista Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA), afirma que a escolarização da população resultaria em um aumento de 20% na renda individual do brasileiro e 2% a mais no Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Aliás, Barros tem uma visão bastante funcional da importância de levar educação à nossas crianças:

“Educação combate tudo. É usar melhor os recursos humanos. Se nasce uma criança inteligente e não se explora isso, deixamos de aproveitar um potencial. É como comprar uma máquina e não usar a melhor tecnologia” (FSP, 27 de maio de 2001)

Acreditamos, que educação nessa fala perde seu caráter de direito e passa a ser uma necessidade para continuar com o progresso do mercado. Oras! Compreende-se bem o argumento de defesa deste economista: o que ele diz é que devemos explorar as “boas cabeças”, igualando educação, a necessidade de investimento em maquinário.

Como nos lembra Frigotto, idéias como as do economista citado são denunciantes da compreensão dos “porquês” da educação segundo a classe dominante que subordinam a função social da educação de forma controlada para responder às demandas do capital.

Entretanto, apesar de pronunciados pelos “intelectuais da economia”, que prestam grande favor para a classe dominante, os discursos que fundamentam a teoria do capital humano reflete-se no projeto geral dos trabalhadores, dos profissionais da educação e estudantes, como nos relata Vitor Henrique Paro:

“Sempre que se procura saber, em pesquisas de campo, qual a função da escola, as respostas que se obtêm, tanto por parte de alunos e pais, quanto de professores e demais educadores escolares, sempre convergem para a questão do trabalho”. (Paro, 1999)

O também economista Márcio Pochman, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, realizou uma pesquisa que contraria a tese de que a falta de qualificação profissional é responsável pelos índices de desemprego no Brasil e, por conseqüência, das desigualdades sociais.

Como indicador Pochman utiliza o seguinte dado: nos últimos anos, houve um aumento de 620% do desemprego para pessoas com mais de oito anos de instrução, enquanto para pessoas com menos de um ano foi de 189%.

Refletindo sobre a tese defendida por Barros quedamo-nos pensando na contradição que a história recente nos oferece como argumento de contraposição a essa teoria. Hoje em dia, as empresas exigem uma escolarização cada vez maior para os cargos outrora ocupados e bem exercidos por cidadãos que simplesmente não possuíam escolarização, ou quando muito possuíam apenas três ou quatro anos de formação escolar. Como exemplo, podemos citar que na década de 1960 uma recepcionista de uma empresa de grande porte precisava apenas saber ler, escrever e realizar as quatro operações matemáticas básicas. Hoje as empresas exigem Ensino Médio completo, e, preferencialmente, formação superior; para o exercício da mesma função.

Percebemos que a escolarização passou a ser verdadeiramente importante para a aquisição de um emprego, mas não como veículo de formação de habilidades necessárias para o desempenho das funções dos cargos que se ocupa; e sim, como instrumento graduador de pontuação na competição por uma vaga, para a qual se assumiu o critério “escolarização” como mera condição para afunilamento dos processos de seleção de funcionários.

Há, portanto, uma inversão falseadora da realidade que tenta atribuir à educação, em geral, e à formação profissional, em particular, o papel definidor das relações de poder no plano econômico e político. Porém, o que ocorre é justamente o contrário: os investimentos educativos e sua melhoria estão condicionados pelas relações de poder político e econômico.

Exemplo prático da afirmação acima pode ser observada no atual governo federal. O aumento de 2% do PIB com gastos na área de educação previstos no Plano Nacional de Educação (PNE) foram vetados pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. A decisão, de âmbito educativo, foi tomada pela pasta do planejamento.

É falsa também a tese, transformada em senso comum pelo atual governo e pelas classes dominantes no Brasil, de que sistemas educacionais que desenvolvam competências exigidas pelo “mercado” definem o mecanismo fundamental que permite às pessoas “empregabilidade”. Isso significa o deslocamento da responsabilidade coletiva e pública diante do desemprego para o plano individual. Ou seja, de acordo com essa tese ideológica é o trabalhador o responsável pelo seu desemprego e não uma estrutura desigual e em colapso que não é capaz de organizar a distribuição de meios e condições materiais de subsistência. Enfim, pelo desastre econômico, culpa-se a vítima.

Como forma de legitimação dessa falsa tese, o próprio documento do MEC – Resolução CEB número 3, de 26 de junho de 1998 – que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais Para o Ensino Médio traça estreita relação entre educação e trabalho, ao afirmar em seu artigo primeiro:

“As Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio – DCNEN, estabelecidas nesta Resolução, se constituem num conjunto de definições doutrinárias sobre princípios, fundamentos e procedimentos a serem observados na organização pedagógica e curricular de cada unidade escolar integrante dos diversos sistemas de ensino, em atendimento ao que manda a lei tendo em vista vincular a educação com o mundo do trabalho e a prática social, consolidando a preparação para o exercício da cidadania e propiciando preparação básica para o trabalho.”

Esse discurso legitimado de forma legal por todo o texto dos “Parâmetros Curriculares do Ensino Médio” parece oferecer uma solução que “a tudo reduz a uma questão de melhor gestão e administração e de reforma de métodos de ensino e conteúdos curriculares inadequados para problemas técnicos, soluções técnicas, ou melhor, soluções políticas traduzidas como técnicas (tal como a privatização, por exemplo). É nesse raciocínio que se insere o discurso sobre a qualidade e sobre a gerência da qualidade total” (Gentili & Silva, 1994).

Da nossa prática e convivência acadêmica com colegas advindos diariamente do cotidiano escolar onde exercem funções de professores e educadores em geral, o que percebemos é que a escola, enquanto instituição, tem reproduzido fielmente a idéia que o capitalismo procurou disseminar nos meios sociais. É comum escutar-se por parte dos professores um discurso que incentiva os alunos a se esforçarem no percurso de sua escolarização em buscar uma formação que lhes capacite para a concorrência acirrada pelas vagas do mercado de trabalho, procurando estarem afinados com o que houver de mais atual em termos de novas tecnologias e conhecimentos desejados nos processos de seleção. Uma contradição que percebemos aqui é o fato de que a escola na verdade não oferece o contato com estes saberes que valoriza.

Voltando ao texto da Resolução CEB número 3, já citada acima, vemos uma aparente preocupação humanística por parte do legislador quando, ao definir os objetivos da base curricular para o Ensino Médio, no parágrafo terceiro, diz que:

“...os critérios de alocação de recursos, a organização do currículo e das situações de ensino, aprendizagem e os procedimentos de avaliação deverão ser coerentes com princípios estéticos, políticos e éticos, abrangendo:

I – a Estética da Sensibilidade que deverá substituir a da repetição e padronização, estimulando a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade pelo inusitado, e a afetividade, bem como facilitar a constituição de identidades capazes de suportar a inquietação, conviver com o incerto e o imprevisível, acolher e conviver com a diversidade, valorizar a qualidade, a delicadeza, a sutileza, as formas lúdicas e alegóricas de conhecer o mundo e fazer do lazer, da sexualidade e da imaginação um exercício de liberdade responsável”.



É interessante observar o quanto esse discurso não está desvinculado do interesse da classe dominante brasileira que atribui à escola o papel de instrumento de formação de capital humano, com o devido valor às necessidades do mercado na visão capitalista.

Frigotto relata que:

“Roberto Boclin, um dos mais destacados dirigentes do SENAI, que há mais de três décadas trabalha em sintonia fina na adequação da força de trabalho aos interesses dos empresários industriais e cuja a projeção no plano dos que fazem da educação um negócio o alçou a Presidente do Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, durante o governo Moreira Franco, após uma ampla avaliação da crise do modelo fordista, define o tipo de formação necessária atualmente. Ao faze-lo, explicita, ao nosso ver, como o conceito de polivalência e policognição, na perspectiva dos homens de negócio, ou de seus prepostos, expressam mistificação apologética, necessidades efetivas do capital, ambiguidades e contraposição clara com as perspectivas que situam o homem e suas necessidades como o eixo da produção e da formação:

Longe de se pensar na desqualificação da força de trabalho pelo advento da informatização, o que se considera é a formação integral do técnico, e de uma certa forma vem a ser a polivalência, distinta dos princípios marxistas e ajustada à realidade do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Vem a ser uma visão teórico-prática que ofereça um aprofundamento de conhecimento, que possibilite a assimilação dos processos de trabalho e que ofereça mutiplas condições de aceso à emprego. A polivalência na escola deve aproximar-se da polivalência do trabalho. (Boclin, 1992)



Essa delimitação como reiteramos ao longo deste trabalho, não se faz sem contradições e conflitos. As inúmeras receitas dos “consultores de Recursos Humanos”, que anunciam “o que se espera do profissional do ano 2000” convergem para as seguintes características: flexibilidade, versatilidade, liderança, princípios de moral, orientação global, hora de decisão, comunicação, habilidade de discernir, equilíbrio físico-emocional. (O Globo, 11.07.93). O gerente geral da Atlantic vai mais longe na caracterização do profissional do futuro: “Ter uma boa base de conhecimentos é fundamental. A cultura traz sensibilidade para gerir. É preciso conhecer expressões da cultura, história, artes, grandes filmes”. (Fernando Guimarães, O Globo, 11.07.93)”.



Entendemos que com esta extensa citação, apresenta-se de maneira muito clara a confluência entre o caráter humanista de nossa legislação e os anseios do capital com relação à escola.

III. Conclusão:

A partir da leitura da obra “Educação e a Crise do Capitalismo Real”, de Gaudêncio Frigotto, em consonância com aquilo que aprendemos e debatemos nas aulas de Fundamentos Econômicos da Educação; sentimo-nos incomodados com a constatação de que o nosso sistema de ensino está afinado com os objetivos da classe detentora dos meios de produção.

Vimos que nas entrelinhas de um discurso pretensamente humanizador e preocupado com a disseminação democrática de um saber universal historicamente construído, se esconde toda uma ideologia que visa perpetuar diferenças e garantir o status quo.

Enquanto não houver uma mudança do sistema econômico vigente, acreditamos que não será possível uma mudança significativa em nosso sistema educacional, de modo que ele possa vir a ser cada vez mais parecido com aquele defendido por Frigotto ao longo de seu livro em que a escola, unitária, universal, pública e laica, não é imediatamente atrelada ao desenvolvimento econômico e ao mercado de trabalho. A escola, segundo este autor, deve garantir a qualificação humana para todos, que promova a democracia econômica, social e cultural. É assim que pensamos também.



Bibliografia:

GENTILI, Pablo; SILVA, Tomaz Tadeu da Silva. A “nova” direita e as transformações na pedagogia da política e na política da pedagogia. In: __________; Neoliberalismo, qualidade total e Educação. ? , Vozes, 1994. p. 11-29.

Frigotto, Gaudêncio. Educação e a Crise do Capitalismo Real – São Paulo Cortez, 1995.

__________________. Educação, crise do trabalho assalariado e do desenvolvimento: teorias em conflito. In: _________; org. Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis, Vozes, 1998. p.25-54
.

MANDL, Carolina; VIANA, Diego. Pesquisadores vinculam analfabetismo à economia. In: Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, terça-feira, 27 de março de 2001.

PARO, Vitor Henrique. Parem de preparar para o trabalho! Reflexões acerca dos efeitos do neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica. In: FERRETTI, Celso João et alii; org. Trabalho, formação e currículo: para onde vai a escola. São Paulo, Xamã, 1999. p.101-120.

SANT’ANNA, Lourival. Economista defende ensino medíocre e funcional. In: O Estado de S. Paulo, Caderno de Economia, Domingo, 6 de maio de 2001.

BiblioWeb:

RESOLUÇÃO CEB Nº3, DE 26 DE JUNHO DE 1998.

http://www.fiep.org.br/dcn.htm#rceb199



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[1] O economista compreende por funcional a escola que se adapta às demandas do mercado de trabalho.
 


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