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O Nó:
Avaliação e Aprendizagem Significativa
Thereza Bordoni
Mestre em Políticas
Educacionais. Pesquisadora Educacional. Consultora em Projetos
Políticos Pedagógicos. Vice-Diretora do Colégio Marista de Patos
de Minas. Contato (34) 99990914
Os educadores envolvidos no processo
ensino – aprendizagem vêm constantemente se deparando com um dos
mais complexos problemas que enfrentam em sala de aula:
avaliação. Sabemos que em todas as instâncias nas quais
educadores reúnem-se para discutir sobre educação, parece haver
um consenso de que a educação básica deveria visar
fundamentalmente à preparação para o exercício da cidadania,
cabendo à escola formar o aluno em conhecimentos, habilidades,
valores, atitudes, formas de pensar e atuar na sociedade através
de uma aprendizagem que seja significativa. Isto implica em uma
analise dos instrumentos e processos presentes nas instituições
educacionais. Neste texto tentarei fazer um gancho entre as
reflexões sobre a aprendizagem significativa e a “problemática”
da avaliação.
Algumas questões intrigam a mente de muitos educadores e sempre
são pontos de discussão nas reuniões educacionais. O que ensinar
e com qual objetivo ? Como favorecer a aprendizagem
significativa e o que é isto? Por que e para que avaliar ? Que
instrumentos utilizar ? Prova ? nota ou conceito?
A meu ver, discutir avaliação e aprendizagem, envolve muito mais
de que discutir "formas de avaliação" ou “metodologias”. Envolve
questões fundamentais de ordem ética: Por que sou professor/
supervisor/diretor? Qual o sentido, para mim mesmo, daquilo que
ensino? Qual a utilidade para a sociedade? Que tipo de
aluno/cidadão quero ajudar a formar? Será que toda boa avaliação
não deve começar por uma auto-avaliação do educador? O que
estamos avaliando, afinal? O nosso aluno ou o nosso trabalho
(que é também do aluno)?
Nas diversas instituições escolares, que estudei, trabalhei ou
assessorei, encontrei currículos escolares organizados em torno
de conjuntos de disciplinas nitidamente diferenciadas e isoladas
de um contexto, dominadas por uma ritualização de procedimentos
escolares muitas vezes obsoletos, cujos conteúdos se apoiam numa
organização rigidamente estabelecida, desconectada das
experiências dos próprios alunos e na qual uma etapa é
preparação para a seguinte ( lógica dos pré-requisitos). A
despeito de todo avanço das pesquisas em educação, da ciência e
da tecnologia, nossas aulas mais se assemelham a modelos do
início do século, tendo como perspectiva metodológica dominante
a exposição, a exercitação e a comprovação. A escola, organizada
sob tal enfoque, carece de significados aos alunos, gera
abandono, desmotivação e mesmo rebeldia que se manifesta, entre
outras coisas, na agressividade dos alunos e em sua
indisciplina.
A resposta que a escola dá a isso é, por vezes, acentuar
procedimentos repressivos, impor recursos disciplinares ou
atribuir os problemas a fatores externos tais como desequilíbrio
familiar, imaturidade do aluno, ou os incontáveis problemas de
aprendizagem. Isto ocorre muitas vezes por falta de conhecimento
pedagógico dos diretores das instituições escolares que estão
mais preocupados com a empresa do que com o processo, ou pela
falta de atualização dos profissionais da escola ( professores
acomodados no saber específico e fragmentado, supervisores
ritualistas, voltados para procedimentos, falta de equipe ) e
também porque sendo muito dinâmico, o ambiente escolar acaba
sendo levado pelo urgente, esquecendo o importante ( apagar o
incêndio em vez de descobrir o foco do fogo). A teoria é
conhecida por muitos, colocá-la em prática é o mais difícil. Vou
retomar alguns pontos que talvez possam facilitar esta
interseção.
Para que uma aprendizagem ocorra ela deve ser significativa, o
que exige que seja vista como a compreensão de significados,
relacionando-se às experiências anteriores e vivências pessoais
dos alunos, permitindo a formulação de problemas de algum modo
desafiantes que incentivem o aprender mais, o estabelecimento de
diferentes tipos de relações entre fatos, objetos,
acontecimentos, noções e conceitos, desencadeando modificações
de comportamentos e contribuindo para a utilização do que é
aprendido em diferentes situações.
Falar em aprendizagem significativa é assumir que aprender
possui um caráter dinâmico que exige ações de ensino
direcionadas para que os alunos aprofundem e ampliem os
significados elaborados mediante suas participações nas
atividades de ensino e aprendizagem. Nessa concepção o ensino é
um conjunto de atividades sistemáticas, cuidadosamente
planejadas, em torno das quais conteúdo e forma articulam-se
inevitavelmente e nas quais o professor e o aluno compartilham
parcelas cada vez maiores de significados com relação aos
conteúdos do currículo escolar, ou seja, o professor guia suas
ações para que o aluno participe de tarefas e atividades que o
façam se aproximar cada vez mais dos conteúdos que a escola tem
para lhe ensinar. Uma aprendizagem significativa está
relacionada à possibilidade dos alunos aprenderem por múltiplos
caminhos e formas de inteligência, permitindo aos estudantes
usar diversos meios e modos de expressão. De fato, se
analisarmos os princípios da aprendizagem significativa já não
parece ter lugar a concepção dominante de inteligência única,
que possa ser quantificada e que sirva como padrão de comparação
entre pessoas diferentes, para apontar suas desigualdades.
Uma visão pluralista da mente reconhece muitas facetas diversas
da cognição, reconhece também que as pessoas têm forças
cognitivas diferenciadas e estilos de aprendizagem
contrastantes.
Por isso, a aula deve tornar-se um fórum de debate e negociação
de concepções e representações da realidade, um espaço de
conhecimento compartilhado no qual os alunos sejam vistos como
indivíduos capazes de construir, modificar e integrar idéias,
tendo a oportunidade de interagir com outras pessoas, com
objetos e situações que exijam envolvimento, dispondo de tempo
para pensar e refletir acerca de seus procedimentos, de suas
aprendizagens, dos problemas que têm que superar. É inegável a
importância da intervenção e mediação do professor e a troca com
os pares para que cada um vá realizando tarefas e resolvendo
problemas, que criem condições para desenvolverem competências e
conhecimentos.
Será que nesta lógica a avaliação pode ter com objetivos
averiguar o rendimento do aluno, certificar-se de que o conteúdo
foi apreendido, corrigir possíveis distorções ou deficiências no
processo de ensino – aprendizagem, já que estas têm sido as
justificativas, comumente apresentadas, para a aplicação de
testes e provas nas diversas instituições de ensino.
Dificilmente nos deparamos com uma reflexão profunda acerca dos
objetivos da avaliação, todavia a incerteza dos instrumentos
adequados que reflitam com clareza o desenvolvimento do aluno é
um nó difícil de desatar no laço que amarra a avaliação ao
processo de aprendizagem.
Através de constantes observações, tenho claro também que ao
aluno, o que realmente acaba interessando é a nota, com isto ele
acaba estudando para "ser promovido". Procura já de início saber
quais os mecanismos da nota par tentar obtê-la mais facilmente e
se enquadra nos padrões de sucesso de ser um "bom aluno".
Segundo Luckesi, (1994: 23), "as notas são operadas como se nada
tivessem a ver com a aprendizagem".
Como reduzir conhecimentos transmitidos de meses em uma simples
folha de papel?
A prova em si não mostra o quanto o aluno aprendeu. Não mostra
se o aluno tem condições de fazer relações do que ele aprendeu
com outras matérias ou até com a própria vida.
A prova não possibilita ao professor um conhecimento mais
individual do seu aluno. Não permite ao professor "respeitá-lo"
de maneira "correta". Respeitá-lo no sentido de lembrar que
embora esteja lidando com uma turma, essa turma não é homogênea
. A heterogeneidade dos alunos não pode ser negada. Conforme já
disse, cada um tem um modo de aprender. Uns mais lentos, outros
mais rápidos. Esse é o ponto chave da questão que estou
colocando. Entender de que maneira o aluno construiu o
conhecimento. Analisar como foi esse caminho percorrido por ele,
quais as suas dificuldades, suas vitórias. Compreender o
processo.
A avaliação por mais bem formulada que seja não garante a
qualidade do pensamento, uma vez que o pensar bem, só faz
sentido na ação e reflexão. Estabelecer a dialética entre ação e
reflexão, entre meios e fins é um dos desafios de uma educação
comprometida com uma aprendizagem significativa.
Entendo que o primeiro passo consiste em estarmos atentos ao
desenvolvimento das habilidades. Se meus alunos têm dificuldades
na interpretação de textos, não fazem boas inferências, não são
capazes de detectar similaridades e diferenças, por que não
centrarmos nossa ação educativa no desenvolvimento dessas
habilidades? Ao contemplarmos os conteúdos, nos diferentes
componentes curriculares, por que não direcionarmos nossa
prática numa metodologia voltada ao desenvolvimento das
habilidades cognitivas?
Em segundo lugar, é preciso resgatar o sentido do avaliar
enquanto processo, a avaliação nunca deveria ser referida a um
único instrumento, nem restrita a um só momento, ou a uma única
forma, pois somente um amplo espectro de múltiplos recursos de
avaliação pode possibilitar canais adequados para a manifestação
de múltiplas competências e de redes de significados, fornecendo
condições para que o professor, analise, provoque, acione,
raciocine, emocione-se e tome decisões e providências junto a
cada aluno.
Desta forma, a comunidade de investigação, a auto-correção e a
metacognição merecem atenção especial do professor. Cabe a ele
resgatar a importância do pensamento que caminha e reconhece os
caminhos por onde passou a fim de corrigi-lo e recria-lo.
Trata-se de uma nova postura onde quem avalia não é unicamente o
professor, mas todos os envolvidos no processo, dispostos a
descobrir, percorrer os caminhos do conhecimento e refazer os
procedimentos do pensar.
Assim, a avaliação no contexto de uma aprendizagem significativa
ocorre no próprio processo de trabalho dos alunos, no dia-a-dia
da sala de aula, no momento das discussões coletivas, da
realização de tarefas em grupos ou individuais. É nesses
momentos que o professor pode perceber se os alunos estão ou não
se aproximando dos conceitos e habilidades que considera
importantes, localizar dificuldades e auxiliar para que elas
sejam superadas através de intervenções, questionamentos,
complementando informações, buscando novos caminhos que levem à
aprendizagem. Em razão disso, cabe a nós, educadores, avaliarmos
nossos procedimentos a fim de cumprirmos o fascinante trabalho
de ajudar a desvendar os signos da construção do homem, do
conhecimento e da cultura..
Mas o que há de novo nessa idéia? Não se servem todos os
professores da avaliação durante o ano para ajustar o ritmo e o
nível global de seu ensino? Não se conhecem muitos professores
que utilizam a avaliação de modo mais individualizado, para
melhor delimitar as dificuldades de certos alunos e tentar
remediá-las?
O diagnóstico é inútil se não der lugar a uma ação apropriada.
Uma verdadeira avaliação formativa é necessariamente acompanhada
de uma intervenção diferenciada, com o que isso supõe em termos
de meios de ensino, de organização dos horários, de organização
de grupos de monitores, até mesmo de transformações radicais das
estruturas escolares. É preciso desmistificar e resignificar
vários processos educacionais.
A idéia de processo não é fácil de ser assimilada. Porem, é o
seu entendimento que determina o quanto se pode compreender
sobre os vários aspectos e as várias dimensões que a Avaliação
possui. A Avaliação na Escola ainda precisa ganhar, realmente, a
preocupação dos coletivos constituídos. Sair do campo de
preocupação individual, da angústia de cada um e ganhar as
dimensões dos grupos de trabalho, de toda a escola. O enfoque
sobre os conteúdos, a maneira de professores e alunos se
relacionarem, os projetos de trabalho desenvolvidos, os
objetivos do projeto da escola, pensando este como resultado dos
desejos do coletivo, estão ligados à concepção de Avaliação que
se vai trabalhar. Ela é um dos componentes do sistema da Escola,
não está separada de outros elementos. Não deve ser discutida em
separado, não é mais importante que discutir regras de
convivência ou como criar maneiras mais eficazes de ensinar, ou
ainda como trabalhar a inter-relação das várias áreas do
conhecimento (interdisciplinaridade).
Avaliar não significa necessariamente medir e nem o referencial
quantitativo significa necessariamente objetividade. A prática
de uma educação positivista deixou-nos esse ranço. Aliás, quando
tentamos traduzir em números ou "conceitos" frios o que é
incomensurável, as aberrações são evidentes. Que tipo de
avaliação tem um aluno que "tirou" 5 ou C? Significa
"suficiente", mas suficiente para que? O que ele não sabe, não
vai fazer falta? Por que não sabe? A avaliação "medida" mais
esconde do que mostra. E não adianta transformar nota em
conceito, pois o que tem que mudar é o objeto da avaliação.
Ensino não é "adestramento" de habilidades. Como já mostrou
Paulo Freire, só há aprendizagem quando houver participação
consciente do aluno, como sujeito do processo. Se acreditamos
realmente nisso, temos de convir que caminhamos para processos
de auto-avaliação. Os instrumentos de avaliação que sempre
tivemos à nossa disposição são úteis e necessários. Precisamos é
de repensá-los quanto às suas funções avaliativas. A prova, por
exemplo, é, sim, algo importante, mas ela avalia apenas alguns
aspectos sobre a aquisição de conhecimentos. Não dá conta de
outras dimensões que precisam ser avaliadas na formação do
aluno. E mesmo nela podemos entender que o mais importante não é
a quantidade que o aluno demonstra saber mas a qualidade daquilo
que ele está sabendo. Só através da auto-avaliação o aluno
poderá conscientizar-se de que ele é o seu principal agente
avaliador. Precisamos favorecer estes momentos durante todo a
aprendizagem para que esta tenha um caráter significativo real
ao aluno.
Enfim, precisamos entender que nada é mais motivador do que
sentir-se capaz. Quando a aprendizagem é significativa e a
avaliação uma atividade formativa, ela estará sempre a serviço
do sucesso. Esta é uma mudança que considera a perspectiva de
que o aluno deseja aprender e está disposto a se mostrar e quer
fazer isto sem medo de ser discriminado. É hora de para de
questionar as mesmas coisas e começar a colocar em prática
nossas reflexões, analises e suposições em prol de um escola
inclusiva, significativa e formativa. Vamos a luta !
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