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A “tal” sustentabilidade
Flávio Boleiz Júnior
GRUTEUSP - Grupo de Trabalho de Ecopedagogia
Faculdade de Educação - USP
Ao pensar-se na Carta da Terra na Perspectiva da Educação, logo vem à nossa
mente a expressão “sustentabilidade”.
Palavra difícil de decifrar sob a influência da ideologia capitalista que nos
envolve e que permeia todos os campos de nossa intelectualidade. Sustentar
significa segurar por baixo, servir de escora; suportar, suster. E um dos
pilares da Ecopedagogia, um de seus sustentáculos é justamente esse: a
sustentabilidade.
Mas de quê sustentabilidade estamos falando?
Ao se buscar caminhos para a construção de uma nova ordem social que inclua, ao
invés de excluir; que some, ao invés de dividir; que respeite as diferenças,
enxergando nelas uma fonte de riqueza para o crescimento e engrandecimento de
todos; não podemos deixar de nos lembrar do enunciado de Edgar Morin, que afirma
que “a diversidade é uma pluralidade de possibilidades.”[1]
As diferentes culturas, línguas, etnias, religiões, filosofias, etcetera;
significam em sua própria diferença a possibilidade do sustentáculo que buscamos
ao caminhar.
Na busca da formulação de uma possibilidade de prática pedagógica para nosso
labor de educadores, precisamos encontrar maneiras de reaprendermos a relacionar
a parte com o todo; de modo que nossas relações mais locais não percam de vista
jamais sua importância na construção planetária de uma convivência harmoniosa
com o todo. E reaprender é muito mais difícil que aprender. “Reaprender é mudar
as estruturas do pensamento. Por isso é uma tarefa difícil.”[2] Implica em que o
educador consiga descobrir uma forma de também educar a sí mesmo, assumindo o
papel bipolar de educador-educando.
Em nossa relação cotidiana com o mundo que nos cerca, vamos nos transformando a
cada momento em novos homens, em outros seres humanos que já não são mais
aqueles que éramos momentos atrás. E é assim, “mediatizados pelo mundo que - nas
palavras de Paulo Freire - vamos nos educando uns aos outros.”[3]
A sustentabilidades que procuramos entender, então, ao pensarmos na Carta da
Terra, ao refletirmos no paradigma que desejamos construir a partir de uma nova
visão do mundo em que o cidadão local assuma também a identidade indispensável
de cidadão planetário, se traduz muito mais eficazmente na idéia de sustentáculo
ético para a formação de uma nova consciência humana. Uma consciência voltada
para o cuidado do próprio corpo, sem o esquecimento do espírito. Do cuidado da
própria casa, sem o esquecimento da comunidade. Enfim, o cuidado de si mesmo sem
o esquecimento do outro; seja o outro quem for, esteja onde estiver.
O educador, que é profissional com função de transmitir conhecimentos a seus
educandos, não pode deixar de assumir para si o conceito de conhecimento como
algo que não se expressa enquanto um espelho, uma fotografia da realidade; mas
como a tradução e reconstrução do mundo exterior que permite um ponto de vista
crítico do próprio conhecimento.
Morin lança à humanidade um grande desafio. E diz: “Não basta eliminar, digamos,
aqueles que têm o poder político, capitalista ou outro. O problema está em como
fazer uma nova sociedade.”[4]
Ao pensarmos nesse desafio, ao aceita-lo como desafio à nossa prática decente,
não podemos deixar de lado os princípios norteadores da Carta da Terra Na
Perspectiva da educação, quando nos provoca:
6. A ecopedagogia não se dirige apenas aos educadores, mas a todos os cidadãos
do planeta. Ela está ligada ao projeto utópico de mudança nas relações humanas,
sociais e ambientais, promovendo a educação sustentável (ecoeducação) e
ambiental com base no pensamento crítico e inovador, em seus modos formal, não
formal e informal, tendo como propósito a formação de cidadãos com consciência
local e planetária que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das
nações.
Somente por meio de uma prática diária sustentada por uma ética que nos conduza
a ações e reflexões críticas e inovadoras tendo como finalidade a formação de
novos cidadãos planetários, lograremos transformar local e globalmente o mundo e
os saberes que lhe garantem essa tão necessária sustentabilidade que respeite e
se harmonize com a autodeterminação de todos os povos e a soberania de cada uma
das nações com equidade. Convivendo com a pluralidade de possibilidades que as
suas diferenças nos possam oferecer. Essa prática docente deve
iniciar-se no lugar mais íntimo do exercício de nossa profissão: a sala de aula.
Seria hipocrisia e incoerência de nossa parte enquanto educadores, não tratarmos
com equidade e respeito ànos, de suas idéias, origens, crenças, etnias, gênero;
características peculiares que compõem o todo com que trabalhamos.
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[1] MORIN, E. Saberes Globais e Saberes Locais. O Olhar Transdisciplinar,
Garamond, Rio de Janeiro, 2000, p. 54.
[2] Idem – p.55
[3] FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido in A Pedagogia do oprimido: clandestina e
universal, Alípio Márcio Dias Casali, A Pedagogia da Libertação em Paulo Freire,
UNESP, 1999.
[4] MORIN, E. Idem, p.37.
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