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Uma pedagogia para a globalização
Leonardo Boff
UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro
In:
Ecologia Grito da Terra, Grito dos Pobres, São
Paulo, Ática, 1995, 185-190.
Não basta termos uma nova cosmologia. Como socializa-la e
internaliza-lá nas pessoas de forma que inspirem novos
comportamentos, alimentem novos sonhos e reforcem uma nova
benevolência para com a Terra? Trata-se indiscutivelmente de um
desafio pedagógico.
Como o velho paradigma que atomizava, contrapunha e isolava
o ser humano do universo e da comunidade dos vivos, penetra por
todos os poros em nossa vida e criara uma subjetividade coletiva
adequada a suas intuições, assim o novo paradigma deve também
formar novas subjetividades e se introduzir em todas as
instâncias da existência, da sociedade, da família, dos meios de
comunicação e das instituições educativas para gestar um novo
homem e uma nova mulher planetários, solidários cosmicamente e
sintonizados com a direção global do processo evolucionário.
Em primeiro lugar, importa fazer a grande revolução da
perspectiva que funda a nova cosmologia: não podemos nos
entender como seres separados da Terra; nem podemos permanecer
na visão clássica que entende a Terá como um planeta inerte, um
amontoado de solo e de água penetrados pelos 100 elementos que
compõem todos os seres. Nós somos muito mais que isso. Somos
filhos e filhas da Terra, somos a própria Terra que se torna
autoconsciente, a Terra que caminha, como dizia o grande poeta
mestiço argentino Atahualpa Yupanqui, a Terra que pensa, a Terra
que ama e a Terra que celebra o mistério do universo.
Portanto, a Terra não é um planeta sobre o qual existe
vida. Como já consideramos no primeiro capítulo, a Terra se
apresenta com tal dosagem de elementos, de temperatura, de
composição química da atmosfera e do mar que somente um
organismo vivo pode fazer o que ela faz. A Terra não contém
vida. Ela é vida, um superorganismo vivente, Gaia.
A espécie humana representa a capacidade de Gaia ter um
pensamento reflexo, uma consciência sintetizadora e uma
subjetividade amorosa. Nós humanos, homens e mulheres,
possibilitamos à Terra apreciar a sua luxuriante beleza,
contemplar a sua intrincada complexidade e descobrir
espiritualmente o Mistério que a penetra.
O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em
relação ao cosmo por nós conhecido. O cosmos não é um objeto
sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é um sujeito vivente.
E se encontra num processo de gênese. Caminhou 15 bilhões de
anos, se enovelou sobre si mesmo e madurou de tal forma que num
canto dele, na Via Láctea, no sistema solar, no planeta Terra
emergiu a consciência reflexa de si mesmo, de onde veio, para
onde vai e de quem é símbolo e imagem. Quando um ecoagrônomo
estuda a composição química de um solo, é o próprio cosmo que
estuda a si mesmo. Quando um astrônomo dirige o telescópio para
as estrelas, é o próprio universo que olha para si mesmo.[1]
A mudança que esta leitura deve produzir nas mentalidades e
nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no
século XVI ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao
redor do Sol. Especialmente o fato da transformação, de que as
coisas ainda não estão prontas, que estão continuamente
nascendo, abertas a novas formas de auto-realização.
Conseqüentemente a verdade se dá numa refer6encia aberta e não
num código fechado e estabelecido. Só está na verdade quem
caminha com o processo de manifestação da verdade.
Em segundo lugar, importa realizar a globalização do tempo.
Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso
nascimento. Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há
quinze bilhões de anos quando principiaram a se organizar todas
aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso
corpo e de nossa psique. Quando isso madurou, então acabamos de
nascer e nascemos abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.
Se sintetizarmos o relógio cósmico de 15 bilhões de anos no
espaço de um ano solar, como o fez engenhosamente Carl Sagan
[2], e querendo apenas realçar
algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:
A primeiro de janeiro ocorreu o big-bang. A primeiro de
maio o surgimento da Via Láctea. A nove de setembro, a origem do
sistema solar. A 14 de setembro, a formação da Terra. A 25 de
setembro, a origem da vida. A 30 de dezembro, o aparecimento dos
primeiros hominídeos, avós ancestrais dos humanos. A 31 de
dezembro, irromperam os primeiros homens e mulheres. Os últimos
10 segundos de 31 de dezembro cobririam a história do homo
sapiens/demens do qual descendemos diretamente. O nascimento de
Cristo ter-se-ia dado precisamente às 23 horas, 59 minutos e 56
segundos do último dia do ano. O mundo moderno teria surgido no
58º segundo do último minuto do ano. E nós individualmente? Na
última fração de segundo antes de completar meia-noite.
Em outras palavras, somente há 24 horas que o universo e a
terra têm consciência reflexa de si mesmos. Se Deus dissesse a
um anjo: “procure no espaço e identifique no tempo Pedro, João
ou Maria”, certamente não o conseguiria porque eles são menos
que um pó de areia vagando no vácuo interestelar e começaram a
existir há menos de um segundo atrás. Mas Deus sim, porque Ele
escuta o coração de cada filho e filha Seus, porque neles o
universo converge em autoconsciência, em amorização e
celebração. Sem arrogância antropocêntrica, cada ser humano é
um milagre do universo.
Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria
introduzir nestas dimensões que nos evocam o sagrado do universo
e o maravilhoso de nossa própria existência.
Em terceiro lugar, faz-se mister globalizar o espaço dentro
do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, nos
descobrimos elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Estamos
numa galáxia dos 100 bilhões de galáxias, a Via Láctea. A 28 mil
anos-luz de seu centro, pertencemos ao sistema solar, que é um
entre bilhões e bilhões de outras estrelas, num planeta pequeno
mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução de
formas cada vez mais complexas e conscientizadas de vida, a
Terra. Na Terra nos encontramos num continente que se
independentizou há cerca de 210 milhões de anos quando a Pangéia
(o continente único da Terra) se fraturou e ganhou a
configuração atual a partir de 150 milhões de anos. Estamos
nesta cidade, nesta rua, nesta casa, neste quarto e nesta mesa a
partir donde me relaciono e me sinto ligado à totalidade de
todos os espaços do universo.
Em quarto lugar, é urgente cada um dar-se conta do
surpreendente que é sua própria existência. O universo, desde
seu início, foi criando interioridade e tecendo a intrincada
teia de relações que o constitui como realidade que se
auto-organiza e que avança direcionado. Assim como a noosfera é
fruto da biosfera, da mesma forma a biosfera é resultado da
atmosfera e a atmosfera da hidrosfera e a hidrosfera da geosfera
até alcançarmos o Sol, a galáxia, as supernovas, o gás
primordial, a grande explosão/inflação e por fim o núcleo
originário de energia inimaginavelmente condensada. Cada pessoa
humana está re-ligada a toda esta imensa cadeia. O universo
culmina em cada um na forma de consciência, capacidade de
compreensão, de solidariedade e de auto-entrega gratuita na
amizade e no amor. Desta consciência nasce o sentimento de
auto-estima e de descoberta do próprio sagrado como fascinante e
tremendo que nos produz intimidade e ao mesmo tempo estranheza.
Todas as energias e campos formogenéticos atuaram
sinergeticamente para que cada um nascesse e fosse aquela pessoa
singular e única que é: Ecce mulier, ecce homo!
Em quinto lugar, cada ser humano deve se descobrir como
membro da espécie homo sapiens/demens em comunhão e em
solidariedade com as demais espécies que formam a comunidade dos
viventes (biocenose). Descobre-se membro da família humana
distribuída por todos os quadrantes da Terra. Mas o sentimento
de família humana ainda não se formou completamente. Como
escreveu um dos maiores formuladores da consciência global do
planeta, Robert Muller, “quando se trata do cosmo humano, quase
tudo ainda está por ser feito. Nossa catedral planetária ainda
não está ocupada por uma família unida, reverente, agradecida e
plenamente desenvolvida, mas, sim, por grupos rebeldes de
crianças imaturas e contraditórias”[3].
Em sexto lugar, é necessário que tenhamos sempre presente
nossa singularidade como espécie. Somos seres condenados a ser
seres culturais. Explico-me: por não dispormos de nenhum órgão
especializado, somos compelidos a intervir na natureza, a
prolongarmos nossos braços, nossas mãos, nossos olhos, nossos
ouvidos pelos instrumentos técnicos e a criarmos cultura. O
desenvolvimento biológico de nosso cérebro, capacitando nosso
pensamento e nossa criatividade imaginária, produz num instante
aquilo que a evolução demoraria milhões e milhões de anos para
produzir. Junto com os princípios diretivos do universo
co-pilotamos a atual fase do processo evolucionário. Isso nos
confere uma imensa responsabilidade, pois podemos ser o anjo bom
que ausculta a mensagem da natureza e trabalha junto e em
consonância com ela, como podemos ser o satã devastador e
explorador que somente escuta seu desejo excludente e submete o
planeta Terra a uma dizimadora agressão.
Por fim, em sétimo lugar, é de fundamental importância que
o ser humano conscientize a sua funcionalidade dentro da
orientação global do universo que se formulou ao longo dos 15
bilhões de anos. Tudo caminhou de tal maneira e dentro de formas
tão complexas e altamente auto-organizadas que surgiu a
capacidade de sentir, de ver, de ouvir, de se comunicar, de
pensar reflexamente e de amar a alteridade. É o universo e a
própria Terra que através do ser humano se sente a si mesma, vê
a sua indizível beleza, escuta sua musicalidade, comunica seu
mistério, pensa reflexamente sua interioridade e ama
apaixonadamente a todos.
Para criar esta possibilidade é que emergiu o ser humano.
Até o presente não desempenhou bem esta sua funcionalidade. Isso
se deve menos ao fato de ser bom ou ruim, mas ao fato de ser
imaturo e ainda inconsciente de sua verdadeira missão cósmica.
Como bem disse Miriam Therese MacGillis num impressionante
videoteipe de 5 horas The Fate of the Earth: “Parece que a Terra
está saindo de sua fixação juvenil consigo mesma e com os seus
poderes na direção de um nível novo e mais complexo de
maturidade, rumo ao degrau a partir do qual eu e você fizemos o
salto de qualidade, quer dizer, a Terra por nós fez esse salto”.
Todo o processo pedagógico deve culminar nesta
conscientização que confere ao ser humano, homem e mulher, um
alto significado universal. A partir desta conscientização fica
claro que o valor supremo e global é salvaguardar o planeta
Terra e com ele o universo e garantir aquelas condições que o
cosmos construiu em 15 bilhões de anos de trabalho para que toda
a vida possa manter sua tendência interna que é se realizar, se
reproduzir e progredir, especialmente a vida humana.
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[1] Cf. as pertinentes reflexões de
Dowd, M., Esrthspirit, Twenty-Third Publ., Mystic, 1991, 17-22.
[2] Cf. The Dragons of Éden:
Speculations on the Evolution of Human Intelligence, New York,
Random House, 1977, 14-16.
[3] Cf. O nascimento de uma
civilização global, São Paulo, Aquariana, 1993, 7.

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