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A Escola ensina um mundo
como ele não é
Andrea Rodrigues Barbosa Marinho
Pedagoga, formada pela Universidade Braz Cubas
Professora da Rede Municipal de Ensino de Mogi das Cruzes
Não nos demoremos a planejar o futuro das práticas educacionais
em plena evolução tecnológica e genética, pois é antes
necessário entender a história e identificar quais concepções
tanto nos aprisionam.
Olhar
para trás e perceber os manejos ideológicos intrínsecos é mais
que ousadia; é um desafio. Mas, para tanto, há uma verdade que
aqui podemos constatar: “A
educação só pode ser entendida no contexto histórico em que foi
produzida” (GUERRA,
2000). Afinal, “(...) se
consultarmos os livros de histórias, veremos que a educação das
crianças e dos jovens tem atendido às expectativas dos grupos
que detém o poder em cada sociedade(...)”
(ARANHA, 1996:120). Compreendendo, então, o contexto
histórico desde a época medieval, veremos que o pensamento
pedagógico e o conhecimento científico mantiveram-se submetidos
a um grande crivo ideológico: A Igreja Cristã.
Universalizando o Cristianismo, Clemente de Alexandria (por
volta de 211 a 215 d.C.), tornou-se um dos “Pais da Igreja” e
defendia Cristo como um grande pedagogo. O homem verdadeiro
deveria ter um corpo santo e celeste, devoto às palavras de
Jesus e com eternos “votos” de obediência. Neste envolto, a
educação para o povo era catequética e dogmática. Já, para o
clérigo, era esta humanista e filosófico-teológica, daí o
sucesso de Cristo como grande educador: dominava a linguagem
erudita e sabia comunicar-se com o povo mais humilde.
A partir
destes pensamentos pedagógicos, o sistema de ensino compreendia
na “(...) finalidade dessas
escolas que não era instruir, mas doutrinar as massas
camponesas, mantendo-as ao mesmo tempo dóceis e conformadas(...)
“(GADOTTI, 1999:52). Assim, Santo Agostinho (334-430 d.C.),
também considerado um dos “Pais da Igreja”, contemplava que só
Cristo tinha a explicação e bastávamos ver nas Escrituras,
poderíamos obter uma sobrevivência plena mediante juramentos de
fidelidade à fé cristã, “votos” de obediência, castidade e
pobreza. Tudo era feito em nome de Deus, pois Ele justificava
tudo, com isso o alto clero tinha o pleno respaldo para agir e
deter o poder.
Nesta
ideologia cravada
“assegura-se a coesão entre os homens e a aceitação sem críticas
das tarefas mais penosas e pouco recompensadoras, em nome da
“Vontade de Deus” e do “dever moral”. ” (ARANHA,
1996:32), podemos então, afirmar que desta maneira o primeiro
milênio segui na “Santa Paz de Deus”.
Com as
navegações e as expansões ultramarinas, a Igreja, ao tomar
conhecimentos dos outros povos (até então desconhecidos) definiu
com clareza e eficiência uma política de catequese. Logo, não se
procurava nenhuma razão observável empiricamente para que se
pudesse explicar, por exemple, os contágios, a proliferação de
doenças em escravos, nas cidades e, aliás, não se buscavam
argumentos racionais para explicar as relações entre os fatos
ocorridos. O destino era imutável; era tudo como Deus queria. A
ciência, portanto, não tinha força e a fé imperava em absoluto.
Neta
época, Lutero (1483-1546 d.C.) foi o líder da Reforma
Protestante, possibilitando a todos a leitura e a interpretação
da Bíbila, mas quando percebeu que as massas iam mais longe do
que isto, ele pôs-se a unir com os príncipes alemães, foi onde
novos precursores lutavam para uma educação realmente, para
tanto o povo como Munzer e outros.
Inicia-se o Movimento Humanista; um desacato à Igreja Católica.
Juntamente com a Reforma, impunham-se à estrutura econômica do
feudalismo./ Enquanto o Protestantismo pretendia educar a
burguesia abandonada e não abandonar as classes desfavorecidas,
os jesuítas se esforçavam para controlar a educação dos nobrs e
dos burgueses abandonados e usavam os recursos pedagógicos como
um instrumento de domínio. Ninguém, porém,
“(...) se atreveu a disputar à
Companhia de Jesus a hegemonia pedagógica que a Igreja havia
reconquistado”. (PONCE, 1987: 121) . Essa época, no
entanto, corresponde aos tempos áureos da monarquia absoluta.
Pode-se provar isto com um trecho da Constituição Jesuítica:
“(...) seria uma obra de caridade ensinar os ignorantes a
ler e a escrever...Nenhuma das pessoas empregadas em serviços
domésticos pela Companhia deverá saber ler e escrever, e elas
não deverão ser instruídas nesses assuntos, a não ser com o
consentimento do Geral da Ordem, porque para servir a Jesus
basta simplicidade e a humildade. “ (PONCE; 1987: 122-123)
Neste enveredar das lutas de classes, Montaigne diz que
“não basta fortalecer a alma, e
preciso também desenvolver os músculos” e completa:
“quem quiser fazer do menino
um homem, não deve poupar da juventude nem deixar de infligir
amiúde os preceitos dos médicos: que viva ao ar livre e no meio
do perigo.” (GADOTTI, 1999: 67) .
Ele defendia ainda, a idéia de que a alma e o corpo devem
se desenvolver juntos, pois queria que a delicadeza, a
civilidade, as boas maneiras se modelassem ao mesmo tempo que o
espírito, pois não é uma alma somente que se educa, nem um
corpo, é um homem. Acreditava ele que Platão tinha razão ao
declarar que “é preciso não
educar uma sem a outra e sim conduzi-las de par.”
(GADOTTI, 1999:67). Michel Montaigne (1953-1592), visava a
educação como um sinal de protesto ao Estado e à Igreja,
dizendo: “vislumbrar-se a educação como sinal de protesto, o
que contém em germe a educação moderna e leiga.” (GADOTTI, 1997:
69). Fundador da Pedagogia da Idade Moderna, dizia que os
professores deveriam ter a cabeça antes melhor que provida de
ciências. Era, portanto, contrário ao pensamento teocrático da
Idade Média.
Viajar para Montaigne era preciso, mais
“( ...) para observar os
costumes e o espírito dessas nações e para limar e polir nosso
cérebro ao contato dos outros (...) “
do que apenas nos informar
dos fidalgos. Nota-se, então, a necessidade da troca de cultura
e conhecimentos, daí vem a força do Humanismo,
“(...) assim, buscava-se a igualdade entre Deus e o homem”
(THEODORO, 1996:58).
No
século XVII, Comênio (1592-1690), maior percursor da Educação
Popular, pregava que o ideal era uma educação democrática, a que
todos deveriam ter acesso, fossem homens ou mulheres, ricos ou
pobres, inteligentes ou ineptos. É nesse sentido
que se dirige
o esforço de Comênio, quando afirmava que o ponto de partida da
aprendizagem deveria ser sempre o conhecido. Partir das próprias
coisas, valorizar a experiência. Educar os sentidos são passos
de uma educação que se faz pela ação e voltada para
ação, “(...) portanto, também
nas escolas, deve aprender-se a escrever escrevendo, a falar
falando, a cantar cantando, a raciocinar raciocinando.”
², concluímos ainda com o seu maior lema:
“Só
fazendo aprendemos a fazer.”
(ARANHA, 1996: 159).
No Século das Luzes (séc. XVIII), torna-se preeminente
solicitação à religião, como
(¹)
Michel de Montaigne, Ensaios I , in Col. Os
pensadores, pg.: 71,77,78.
acontece nas escolas
confessionais, nem ao interesse de uma classe, como quer a
aristocracia . Aliás, o Iluminismo exaltava justamente o poder
da razão humana de traçar os seus próprios caminhos, longe da
tirania dos reis e das superstições religiosas. Nesse sentido, a
escola deveria ser leiga (não- religiosa), livre (independente
de privilégios de classes) e universal (acessível a todos).
Portanto, levando em
consideração todo o contexto histórico envolvendo os pensamentos
pedagógicos desde a época medieval ao início da época moderna,
vê-se no decorrer da Educação Popular que sempre houve um educar
para a submissão, mantendo o quadro senhores
X
servos, nobre
X
clero, burguesia
X
proletário, dominantes
X
dominados, até os nossos tempos de Pós- Modernidade, com a
opulência
X
excluídos.
Apesar da máscara de
uma educação igual para todos e da iniciativa de uma “educação
popular”, ela é na realidade, uma base pedagógica, cuja escola
pode ensinar um mundo como ele não é.
Concluímos, pois, que
só a partir de um estudo histórico e contextualizado sobre as
ideologias dominantes que tanto trava os progressos
educacionais. Se, assim pensarmos, poderemos com rigoroso
critério definir a reconstrução (senão a construção) de uma
educação realmente humana, libertadora e completa para este
nosso futuro tão incerto.
(²
) Comênio- citação da Avaliação de História da Educação B,
Prof.º Nestor José Guerra. Pedagogia. 3 º T N.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARANHA,
Maria Lúcia de Arruda. Filosofia d a Educação.
Ed. 2ª . – São Paulo:
Moderna; 1996
GADOTTI,
Moacir. Histórias das Idéias Pedagógicas.
Ed. 7ª . - São Paulo: Ática:
1999
PONCE,
Anibal. Educação e Lutas de Classes. Ed.11ª
.Tradução de José Severo de
Camargo
Pereira .- São Paulo; Cortex: 1987
THEODORO,
Janice. Descobrimentos e Renascimentos. Ed.
4ª . Col. Repensando
a História.- São Paulo;
Contexto: 1996
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