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Consumo cotidiano e a prática
afinada com a Ecopedagogia.
Flávio Boleiz Júnior
GRUTEUSP - Grupo de Trabalho de Ecopedagogia
Faculdade de Educação - USP
Vivemos escutando há muitos anos que “vivemos numa aldeia global”. A mídia
veicula essa idéia de que o mundo já se realiza como uma grande comunidade. A
informação percorre quase todos os pontos do planeta e o que acontece do outro
lado da Terra pode ser visto, muitas vezes, “ao vivo”, colocando todos os
membros dessa grande comunidade em contato com os acontecimentos como que
instantaneamente.
Entretanto, sabemos que o Capitalismo Real que rege as relações sociais nessa
grande aldeia tem se mostrado como grande modelo de exclusão e discriminação de
muitas pessoas em todos os continentes.
Se pensarmos nas condições de vida de povos inteiros na África, na Ásia, na
América Latina – principalmente – verificaremos que a “grande aldeia global” não
leva em conta a grande maioria dos habitantes que formam essas populações
enormes.
Guiados e imersos nessa visão “liberal e neo-liberal” de mundo, pautamos nosso
dia-a-dia numa cotidianidade que também não se preocupa com essas levas imensas
de excluídos. E muitas dessas pessoas que vivem à margem dessa “Grande Aldeia”
convivem conosco, estão bem pertinho de nós todos os dias.
Quantas e quantas crianças conhecemos, vemos, nas ruas vivendo em condições
indignas e subumanas. Pedintes, viciados, marginalizados da “equilibrada ordem
social” que imaginamos estar estabelecida em nossa sociedade.
O grande desafio com que nos deparamos, é o seguinte: como viver solidariamente
com todos os excluídos que nos cercam e com aqueles que se encontram distantes
fisicamente de nós?
Sabemos por meio da própria mídia que muitos produtos que consumimos a preços
exorbitantes são manufaturados às custas de mão de obra escrava e semi-escrava.
Muitas vezes trata-se de produtos do trabalho de crianças em condições absurdas
de vida e de segurança do trabalho. E mesmo sabendo disso, compramos esses
produtos e ostentamos a marca e o logotipo das empresas responsáveis por eles.
Outro tipo de consumo a que nos entregamos sem o menor drama de consciência, é o
de produtos que ameaçam a sustentabilidade ecológica de nosso planeta – essa tal
“Grande Aldeia”, sem sequer percebermos o risco que nós mesmos corremos com
isso.
Um exemplo simples disso, é o consumo de atum em lata. Muitas empresas de pesca
utilizam-se de técnicas predatórias para pescar o atum. Lançam redes que prendem
mamíferos aquáticos que, presos nessas redes, ficam impedidos de emergirem para
respirar e acabam morrendo, como golfinhos, orças e cetáceos. Ocorre que já
existem técnicas não predatórias para pesca de atum e as empresas que se
utilizam dessas técnicas menos destrutivas exibem em suas embalagens de atum em
lata um selo explicando que não degradam a natureza. Mas quantos de nós nos
preocupamos com isso?
São muitos exemplos. Há marcas caríssimas de tênis, calçados em geral e
vestuários produzidos em países orientais que submetem os trabalhadores que os
produzem a condições insalubres constantes, longos períodos diários de trabalho
e salários indignos; e que gastam milhões e milhões de dólares no patrocínio de
atletas e outras personagens famosas como forma de propaganda de suas “grifes”.
Porque continuamos comprando esses produtos? Porque não conseguimos nos
conscientizar do absurdo que significa alimentar esse tipo de atividade
econômica degradante da própria condição humana?
Se desejamos viver de fato numa autêntica Aldeia Global, numa comunidade
mundial; precisamos começar a refletir sobre essas coisas e modificar nossas
consciências.
Diante de grandes empresas de cunho mundial podemos parecer muito pequenos. Mas
nossa atitude pode ser determinante na modificação da forma de tratamento que
essas empresas dispensam a seus empregados – nossos concidadãos na grande
Aldeia. É tão fácil agir diante desses fatos! Basta optarmos por consumirmos
produtos eticamente bem manufaturados. Deixarmos de comprar aquele tênis bonito
que o jogador da Seleção Brasileira de Futebol usa, para comprarmos um outro tão
útil quanto aquele, mas produzido dignamente do ponto de vista do tratamento do
trabalhador que o produz.
Optar por esse tipo de prática solidária é estar em consonância com o enunciado
no item quatro da Carta da Terra sob a Perspectiva da Educação, quando nos
alerta:
4. A ecopedagogia, fundada na consciência de que pertencemos a uma única
comunidade da vida, desenvolve a solidariedade e a cidadania planetárias. A
cidadania planetária supõe o reconhecimento e a prática da planetaridade, isto
é, tratar o planeta como um ser vivo e inteligente. A planetaridade deve
levar-nos a sentir e viver nossa cotidianidade em conexão com o universo e em
relação harmônica consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza,
considerando seus elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma
relação saudável e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com
o ambiente mais próximo e com os demais ambientes.
Na condições de professores, de educadores; não podemos agir de maneira
diferente se quisermos formar cidadãos com consciência planetária. E essa
formação só se pode oferecer por meio da conscientização que se realiza por meio
de nossa prática didático-pedagógica e enquanto cidadãos compromissados com a
sustentabilidade de nosso próprio meio ambiente.
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