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A Carta da Terra na Perspectiva
da Educação
Primeiro Encontro Internacional - São Paulo, 23 à 26 de agosto de 1999.
Organização: Instituto Paulo Freire
CARTA DA ECOPEDAGOGIA
Em defesa de uma Pedagogia da Terra
(Minuta de discussão do Movimento pela Ecopedagogia)
1. Nossa Mãe Terra é um organismo vivo e em evolução. O que for feito a ela
repercutirá em todos os seus filhos. Ela requer de nós uma consciência e uma
cidadania planetárias, isto é, o reconhecimento de que somos parte da Terra e de
que podemos perecer com a sua destruição ou podemos viver com ela em harmonia,
participando do seu devir.
2. A mudança do paradigma economicista é condição necessária para estabelecer um
desenvolvimento com justiça e eqüidade. Para ser sustentável, o desenvolvimento
precisa ser economicamente factível, ecologicamente apropriado, socialmente
justo, includente, culturalmente eqüitativo, respeitoso e sem discriminação. O
bem-estar não pode ser só social; deve ser também sócio-cósmico.
3. A sustentabilidade econômica e a preservação do meio ambiente dependem também
de uma consciência ecológica e esta da educação. A sustentatibilidade deve ser
um princípio interdisciplinar reorientador da educação, do planejamento escolar,
dos sistemas de ensino e dos projetos político-pedagógicos da escola. Os
objetivos e conteúdos curriculares devem ser significativos para o(a)
educando(a) e também para a saúde do planeta.
4. A ecopedagogia, fundada na consciência de que pertencemos a uma única
comunidade da vida, desenvolve a solidariedade e a cidadania planetárias. A
cidadania planetária supõe o reconhecimento e a prática da planetaridade, isto
é, tratar o planeta como um ser vivo e inteligente. A planetaridade deve
levar-nos a sentir e viver nossa cotidianidade em conexão com o universo e em
relação harmônica consigo, com os outros seres do planeta e com a natureza,
considerando seus elementos e dinâmica. Trata-se de uma opção de vida por uma
relação saudável e equilibrada com o contexto, consigo mesmo, com os outros, com
o ambiente mais próximo e com os demais ambientes.
5. A partir da problemática ambiental vivida cotidianamente pelas pessoas nos
grupos e espaços de convivência e na busca humana da felicidade, processa-se a
consciência ecológica e opera-se a mudança de mentalidade. A vida cotidiana é o
lugar do sentido da pedagogia pois a condição humana passa inexoravelmente por
ela. A ecopedagogia implica numa mudança radical de mentalidade em relação à
qualidade de vida e ao meio ambiente, que está diretamente ligada ao tipo de
convivência que mantemos com nós mesmos, com os outros e com a natureza.
6. A ecopedagogia não se dirige apenas aos educadores, mas a todos os cidadãos
do planeta. Ela está ligada ao projeto utópico de mudança nas relações humanas,
sociais e ambientais, promovendo a educação sustentável (ecoeducação) e
ambiental com base no pensamento crítico e inovador, em seus modos formal, não
formal e informal, tendo como propósito a formação de cidadãos com consciência
local e planetária que valorizem a autodeterminação dos povos e a soberania das
nações.
7. As exigências da sociedade planetária devem ser trabalhadas pedagogicamente a
partir da vida cotidiana, da subjetividade, isto é, a partir das necessidades e
interesses das pessoas. Educar para a cidadania planetária supõe o
desenvolvimento de novas capacidades, tais como: sentir, intuir, vibrar
emocionalmente; imaginar, inventar, criar e recriar; relacionar e
inter-conectar-se, auto-organizar-se; informar-se, comunicar-se, expressar-se;
localizar, processar e utilizar a imensa informação da aldeia global; buscar
causas e prever conseqüências; criticar, avaliar, sistematizar e tomar decisões.
Essas capacidades devem levar as pessoas a pensar e agir processualmente, em
totalidade e transdisciplinarmente.
8. A ecopedagogia tem por finalidade reeducar o olhar das pessoas, isto é,
desenvolver a atitude de observar e evitar a presença de agressões ao meio
ambiente e aos viventes e o desperdício, a poluição sonora, visual, a poluição
da água e do ar etc. para intervir no mundo no sentido de reeducar o habitante
do planeta e reverter a cultura do descartável. Experiências cotidianas
aparentemente insignificantes, como uma corrente de ar, um sopro de respiração,
a água da manhã na face, fundamentam as relações consigo mesmo e com o mundo. A
tomada de consciência dessa realidade é profundamente formadora. O meio ambiente
forma tanto quanto ele é formado ou deformado. Precisamos de uma ecoformação
para recuperarmos a consciência dessas experiências cotidianas. Na ânsia de
dominar o mundo, elas correm o risco de desaparecer do nosso campo de
consciência, se a relação que nos liga a ele for apenas uma relação de uso.
9. Uma educação para a cidadania planetária tem por finalidade a construção de
uma cultura da sustentabilidade, isto é, uma biocultura, uma cultura da vida, da
convivência harmônica entre os seres humanos e entre estes e a natureza. A
cultura da sustentabilidade deve nos levar a saber selecionar o que é realmente
sustentável em nossas vidas, em contato com a vida dos outros. Só assim seremos
cúmplices nos processos de promoção da vida e caminharemos com sentido. Caminhar
com sentido significa dar sentido ao que fazemos, compartilhar sentidos,
impregnar de sentido as práticas da vida cotidiana e compreender o sem sentido
de muitas outras práticas que aberta ou solapadamente tratam de impor-se e
sobrepor-se a nossas vidas cotidianamente.
10. A ecopedagogia propõe uma nova forma de governabilidade diante da
ingovernabilidade do gigantismo dos sistemas de ensino, propondo a
descentralização e uma racionalidade baseadas na ação comunicativa, na gestão
democrática, na autonomia, na participação, na ética e na diversidade cultural.
Entendida dessa forma, a ecopedagogia se apresenta como uma nova pedagogia dos
direitos que associa direitos humanos, econômicos, culturais, políticos e
ambientais - e direitos planetários, impulsionando o resgate da cultura e da
sabedoria popular. Ela desenvolve a capacidade de deslumbramento e de reverência
diante da complexidade do mundo e a vinculação amorosa com a Terra.
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