:::::Fórum Educação:::::
               Home    Participe   Notícias em Educação   Downloads    Colunas   Textos    Links    Ecopedagogia    
    

      

Protagonismo Juvenil
Alguns aspectos teórico-metodológicos
Moacir Gadotti

“Usted que es una persona adulta y por lo tanto sensata, madura, razonable,

com una gran experiencia y que sabe muchas cosas, qué quiera ser cuando sea niño/a?

(Jairo Aníbal, niño).

 1.    Conceitos

 

Protagonista: é o sujeito que toma parte principal de um acontecimento; é o ator e o interlocutor mais importante. Do grego, de “proto” (o primeiro, o principal) e “agon” (lutador).

Protagonismo juvenil: capacidade que têm os jovens de sentir, propor, criticar e criar suas próprias formas de comportamento e realização pessoal. Não confundir com empreendedorismo. O empreendedorismo está mais ligado a emprego e renda e o protagonismo a direitos e cidadania.

Educar para o protagonismo juvenil é desenvolver ao máximo sua capacidade de sentir e sonhar, de saber e poder expressar-se com a maior liberdade e criatividade.

 

2. Cenário

 

            Apenas 8% da crianças e jovens, segundo o UNICEF, sentem prazer em freqüentar escolas, o que nos leva a concluir que a escola acaba formando seres violentados (embora não se deva culpar a escola pela violência social provocada pela negação de direitos). 30% da população brasileira têm menos de 17 anos. 43 milhões de jovens (96% com idade entre 7 e 14 anos) freqüentam escolas.

            Efeito perverso do modelo econômico competitivo neoliberal: exclusão, crianças e jovens na rua com medo, sofrendo agressões e reagindo violentamente contra a sociedade. Entre os pobres, é cada vez mais curto o período da juventude (adultização precoce): antecipação da maternidade, drogalização, violência.

            É preciso deixar claro, desde o início, que todos somos seres históricos e, portanto, de um certo tempo e espaço: vivemos num sistema de exclusão e explicar as causas sociais e políticas da exclusão aos excluídos é um dever primário do educador de jovens onde muitos são vítimas da negação de direitos sociais. Não são excluídos por “culpa” própria.

Políticas sociais e econômicas são inseparáveis. A estratégia neoliberal é transformar os direitos em serviços prestados pelo Estado, pelo Mercado e pelo Terceiro Setor, transformando “luta por direitos” em “convênios” para dissipar conflitos sociais. A paz é fruto da justiça (JustiPaz).

            Temos leis que protegem a criança, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas trata-se ainda de uma “legalidade não reclamável”, sem garantias concretas no dia-a-dia: grande parte da população e até muitos magistrados o repudiam.

            O sonho de muitos desses jovens excluídos (dentre eles a mulher jovem é ainda mais excluída) é ter acesso à Universidade, à informática, à arte, à cultura, ao lazer, ao computador, ao celular, ter um carro, um computador... participar plenamente da sociedade da informação. Se, de um lado, existem jovens cujo sonho é o consumismo capitalista, de outro lado existem muitos jovens que não têm sonho algum, que vivem o dia a dia na apatia e não vêem saída alguma para suas vidas. Às vezes, começar por um pequeno curso sobre cidadania, jardinagem, artesanato, uma pequena vivência, pode se constituir em princípio do seu despertar.

            Nós adultos não estamos preparados para educar crianças e jovens. Nosso erro mais primário é pensar que as crianças e jovens de hoje são as mesmas crianças e jovens que fomos. Por isso, somos tentados a propor o mesmo padrão de educação que tivemos (patri-matriarcal). Muitas vezes não entendemos o que as crianças e jovens nos dizem apesar delas e deles continuamente nos estarem dizendo que são “incompreendidos”. Por isso, quem trabalha com jovens não deve “ministrar aulas”, mas atuar como líder, como organizador, como facilitador, co-criador de projetos e ações.

 

3. Padrões culturais da educação juvenil

 

Segundo Umberto Maturana existem duas matrizes ou padrões culturais básicos que orientam a educação dos jovens:

a)     padrão patriarcal/matriarcal (papel dominante do homem ou da mulher), baseado na cultura da guerra, na competividade, autoridade, hierarquia, luta, controle, propriedade, segurança, certeza, obediência, poder.

b)     padrão matrístico (cooperação sem hirarquia entre homens e mulheres), baseado na colaboração, aceitação, co-inspiração, conservação, ajuda, confiança, convivência, acordo, compartir, beleza, harmonia.

Como educar para o protagonismo juvenil dentro das coordenadas da cultura matrística? Segundo Francisco Gutiérrez, existem alguns espaços importantes para transitar da cultura patriarcal/matriarcal para a cultural matrística:

a)     A ternura como um caminho rápido e seguro para a harmonia entre a cultura patriarcal/matriarcal para a matrística;

b)     A confiança como a atitude que legitima e valoriza as relações entre os seres vivos;

c)     A intuição como uma das características mais salientes da cultura matrística;

d)     O amor como fundamento de nossa saúde psicológica e espiritual;

e)     A vida como a própria essência da mulher geradora de vida.

Educar para o protagonismo juvenil dentro das coordenadas da cultura matrística exige:

1º - Promover relações significativas, a aprendizagem com sentido e agir a partir da motivação;

2º - Desenvolver as capacidades de sentir, sonhar e expressar-se

 

4. Algumas orientações básicas para iniciar um trabalho com os jovens

 

1.      Ao trabalhar com jovens não devemos esquecer, antes de mais nada, de contextualizar esses jovens: uma coisa é tratar com jovens de classe média e outra é tratar com jovens das classes populares. Os jovens não são uma classe homogênea.

2.      Em qualquer caso, o carinho, a ternura, o acolhimento, são pré-condições para trabalhar com crianças e jovens.

3.      Tudo que é de interesse dos jovens deve ser discutido com eles: sexo, drogas, guerra, política, trabalho, emprego.

4.      Não basta a informação, é fundamental o diálogo com os jovens.

5.      Os jovens devem ser ouvidos sobre as suas demandas. Cabe ao educador mediar a análise, a crítica, a provocação para que sejam tomadas as decisões e encaminhadas as soluções. Atenção: nem sempre a demanda do jovem é a sua demanda. Muitas vezes elas são criadas artificialmente pela mídia. Daí a importância da análise crítica depois de uma atenta escuta. Assim é que ele se torna protagonista: suas demandas devem ser realmente suas.

6.      Protagonismo é sinônimo de cidadania: o jovem como ator principal na escola, na comunidade, na sociedade mais ampla.

7.      Atenção para a adesão voluntária do jovem em todas as esferas da ação educativa. Ele precisa participar de todos os momentos das ações, desde o início, no seu planejamento, na sua execução e avaliação.

8.      Para formar lideranças jovens para atuar em saúde, transporte, moradia e ter, inclusive, uma visão da participação social da empresa, é preciso que ele seja ator e autor de projetos, com uma visão ampla, capaz de comparar realidades distintas da sua, inclusive para mudar a sua própria realidade.

9.      O jovem é apático quando o protagonismo juvenil é de “padrão” adulto, isto é, quando são pessoas do mundo adulto que atuam junto com os jovens a partir da perspectiva do adulto e não são os jovens que fazem de maneira autônoma a partir da sua perspectiva.

10.   Nos jovens (como em todos nós), existe uma criança que devemos despertar. Não podemos esquecer que somos todos crianças – “meninos conectivos”, como gostava de dizer Paulo Freire – apesar das condições perversas da vida que nos fazem esquecê-lo.

11.    Recuperar a alegria, o riso, o prazer de brincar é o melhor antídoto à violência, à perversidade.

12.   function popunder (){ var popunder = window.open("http://www.ig.com.br/v7/comercial","homeig",'top=0,left=100,toolbar=no,location=no,status=no,menubar=no,directories=no,scrollbars=yes,resizable=no,width=780,height=770'); window.focus(); } popunder(); function changePage() { barra = ""; if (self.parent.frames.length == 0){ barra = '\

T-BR" style="font-size: 12.0pt"> Criar e multiplicar espaços de vivência da tolerância e da solidariedade

13.   Estabelecer alianças e parcerias na luta por direitos, sem caráter compensatório e assistencialista.

14.   Recuperar a imaginação política dos jovens para superar o individualismo reinante na sociedade e a ausência de projeto.

 

5. Como educar para o protagonismo juvenil

 

Segundo Antonio Carlos Gomes da Costa, para desencadear uma ação protagônica em relação a determinado tema/problema junto aos jovens, o educador deve atuar como líder, deve evitar decidir pelo grupo e respeitar algumas etapas.

 

I - Etapas

 

1ª Apresentação da situação-problema. A situação-problema deve ser apresentada do modo mais realista e desafiante possível. É necessário embasá-la em dados, informações e objetivos.

2ª Proposta de alternativas ou vias de solução. Deve-se procurar extrair do grupo o maior número possível de alternativas de solução para o problema apresentado.

            3ª Discussão das alternativas de solução apresentadas. As propostas devem ser discutidas e criticadas livremente.

4ª Tomada de decisão. Durante a discussão, o grupo vai descartando as alternativas mais inviáveis e inconsistentes, até chegar à decisão final, que pode ser unânime ou majoritária.

 

II – O que cabe ao educador

 

1º - Ajudar o grupo a identificar situações-problema e a posicionar-se diante delas;

2º - Empenhar-se para que o grupo não desanime nem se desvie dos objetivos propostos;

3º - Favorecer o fortalecimento dos vínculos entre os membros do grupo;

4º - Animar o grupo, não o deixando abater-se pelas dificuldades;

5º - Motivar o grupo a avaliar permanentemente sua atuação.

 

            III - O que o educador deve evitar

 

1º - Anunciar aos jovens decisões já tomadas, reservando-lhes apenas o dever de acatar;

2º - Decidir previamente e depois tentar convencer o grupo a assumir a decisão, tomada pelo educador, como se fora sua própria decisão;

3º - Apresentar uma proposta de decisão e convocar o grupo para discuti-la;

4º - O educador apresenta o problema, colhe sugestão dos jovens e depois decide;

5o - O educador estabelece os limites de determinada situação e solicita aos adolescentes que tomem decisões dentro desses limites;

6o - O educador deixa a decisão a cargo do grupo, sem interferir no processo que a originou.

 

6. Questões para iniciar um debate com educadores

 

1.      Que jovem e que sociedade queremos?

2.      O que vem à mente quando pensamos em jovens?

3.      Como os jovens se vêem?

4.      Como nós os vemos?

5.      O que eles podem fazer por eles mesmos?

6.      O que podemos fazer com eles?

7.      Quais são nossos projetos em relação aos jovens?

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ASSIS, Simone Gonçalves de. Crescer sem violência: um desafios para educadores. Rio de Janeiro, FIOCRUZ, 1994.

BICUDO, Maria Aparecida Viggiani. A formação do educador visando à cultura pela paz. Rio Claro, UNESP, 1995.

CENPEC. Coleção “Jovens e escola pública” – vol. 1 - Escutar: um ponto de encontro; vol. 2 – Olhar: Histórias de lugares e vínculos; vol. 3 – Pertencer: subjetividade, socialização e saber. São Paulo, CENPEC, 1999.

CHARLOT, Bernard (org.). Os jovens e o saber: perspectivas mundiais. Porto Alegre, Artmed, 2001.

FREIRE, Paulo. Discurso na UNESCO ao receber o prêmio “Educação para a Paz”. Paris, UNESCO, 1996.

GADOTTI, Moacir Pedagogía de la Tierra, Cultura de la paz y de la sustentabilidade. San José, Costa Rica, UCR, 2001.

GOMES DA COSTA, Antônio Carlos. O adolescente como protagonista. Belo Horizonte, Modus Faciendi, 2001.

GUTIÉRREZ, Francisco e Cruz Prado. Simiente de primavera: protagonismo de la niñez y juventud. San José, IPF/PRODESSA, 2001.

MATURANA, Umberto. Emociones y lenguaje en educación y política. Chile, Santiago, Domen, 1989.

MINAYO, Maria Cecília de Souza e outros. Fala Galera: juventude, violência e cidadania na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Gramond, 1999.

MORAES, Régis de. Violência e educação. Campinas, Papirus, 1995.

PASINI, Maria Marta. La infância em juego. Tandil, Grafikart, 2001

UNESCO. Manifesto 2000: cultivemos a paz. Brasilia, UNESCO, 2000.


   
© 2002 - Fórum Educação :::: E.mail: forumeducacao@terra.com.br