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Paulo Freire, 5 anos depois
Um legado de esperança
Moacir Gadotti
(*)
Muitos educadores, reunidos em
“Círculos de Cultura”, em Porto Alegre, de 25 a 30 de janeiro de
2001, durante o Fórum Social Mundial I, com razão,
referiam-se a Freire como o educador mais coerente do século XX,
cujas lições deverão continuar válidas por muito tempo. Eles
lançaram um “Manifesto” onde reconhecem a atualidade do
pensamento de Freire: “No século que findou, dois projetos de
sociedade fracassaram relativamente ao processo
civilizatório: um porque privilegiou o eu, eliminando o nós;
o outro porque privilegiou o nós, desconsiderando o eu. Neste
novo século, confrontam-se dois projetos antagônicos de
sociedade: um subordina o social ao econômico e ao império do
mercado; outro prioriza o social. Faz-se necessário construir um
projeto de sociedade onde o ser humano seja resgatado na sua
plenitude de eu e nós, com base na prioridade do social sobre o
econômico. Para que este novo mundo seja possível, é necessário
que toda a humanidade entenda e aceite a educação transformadora
como pré-condição. Essa educação tem como pressupostos o
princípio de que ninguém ensina nada a ninguém e que todos
aprendem em comunhão, a partir da leitura coletiva do mundo”.
Não se pode entender o
pensamento pedagógico de Paulo Freire descolado de um
projeto social e político. Por isso, não se pode “ser freireano”
apenas cultivando suas idéias. Isso exige, sobretudo,
comprometer-se com a construção de um “outro mundo possível”.
Como dizia ele, “mundo não é; o mundo está sendo”.
Sua “pedagogia sem fronteiras” é um convite para transformá-lo.
As idéias de Paulo
Freire poderão ter despertado controvérsias, mas não a sua
pessoa. Muitas das mensagens recebidas no Instituto Paulo
Freire, em São Paulo, logo depois de sua morte, dia 2 de maio de
1997, dizem textualmente: “minha vida não seria a mesma se eu
não tivesse lido a obra de Paulo Freire. O que ele escreveu
ficará no meu coração e na minha mente”. Essa relação entre o
cognitivo e o afetivo é muito forte na práxis de
Paulo Freire e também naqueles que foram influenciados por ele.
Essa relação era muito forte também na sua obra. Ele não
envolvia as pessoas emocionalmente só através de suas tão
encantadoras falas, mas também através de seus escritos.
As mensagens
recebidas logo depois de sua morte revelavam o impacto teórico e
afetivo sobre a vida de tantos seres humanos de todas as partes
do mundo. Essas manifestações terminavam sempre com o desejo de
unir-se a outras pessoas e instituições para dar continuidade
ao seu legado, ao seu compromisso, não o compromisso com os
oprimidos deste ou daquele lugar, mas com os oprimidos de
todo o mundo.
Paulo Freire
confessou no último grande Congresso Internacional sobre o seu
pensamento, realizado em setembro de 1996, em Vitória (Espírito
Santo, Brasil), que se considerava, desde sempre, como um “menino
conectivo”.
Essa característica não era apenas pessoal. Era também
epistemológica. Ele conseguia, melhor do que qualquer outro
intelectual que conheço, criar laços, interligar as categorias
da história, da política, da economia, de classe, gênero,
etnia, pobres e não-pobres.
Sua pedagogia não é apenas uma pedagogia para os pobres. Ele,
como ser conectivo, queria ver também os não-pobres e as classes
médias se engajando na transformação do mundo.
Em todos os
escritos de Freire, dos mais antigos aos mais atuais, ele nos
falava das virtudes como exigências ou virtudes
necessárias à prática educativa transformadora. Mas ele também
nos deu exemplo de algumas virtudes, entre elas, a coerência
e a simplicidade. Ele não foi coerente por teimosia. Para
ele a coerência era uma virtude que tomava a forma da esperança
permanente. Paulo praticava sobretudo a virtude do exemplo:
dava testemunho do que pensava. Nessa coerência entre teoria
e prática eu destacaria o valor da solidariedade.
Outra virtude que
conquistou foi a simplicidade. O simples não é o fácil. É
difícil ser simples. Ele conseguia estranhar o saber cotidiano
sem ser pernóstico, arrogante. Paulo detestava o intelectual
arrogante, sobretudo o intelectual arrogante de esquerda. Para
ele o intelectual de direita já era por convicção arrogante, mas
o de esquerda era por deformação. É assim que termina o seu
último livro: “Nem a arrogância é sinal de competência nem a
competência é causa de arrogância. Não nego a competência, por
outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência
de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria
gente melhor. Gente mais gente”.
O simples não se opõe ao concreto e ao complexo. Opõe-se ao
prolixo. A simplicidade de Paulo Freire era densa, concreta e
complexa.
Paulo Freire era
também um ser humano esperançoso. Não por teimosia, mas por
“imperativo histórico e existencial”, afirma no seu livro
Pedagogia da esperança.
Além da esperança cultivou a autonomia. Autonomia
é a capacidade de decidir-se, de tomar o próprio destino nas
suas mãos. Diante de uma economia de mercado que invade todas as
esferas de nossa vida, precisamos lutar - também através da
educação - para criar na sociedade civil a capacidade de
governar-se e de governar através de uma “esfera pública
cidadã”, como dizia Jürgen Habermas, um autor muito apreciado
por Paulo Freire,
para criar mecanismos de gestão pública não-estatal (alternativa
ao socialismo autoritário). Paulo Freire tinha um verdadeiro
gosto pela democracia. Ele sempre a tratava com carinho.
O que mais o
preocupava nos últimos anos era o avanço da globalização
capitalista neoliberal. Por que Paulo Freire atacava tanto o
pensamento e a prática neoliberal? Porque o neoliberalismo é
visceralmente contrário ao núcleo central do pensamento de Paulo
Freire que é a utopia. Enquanto o pensamento freireano é
utópico o pensamento neoliberal abomina o sonho. Para Paulo
Freire o futuro é possibilidade. Para o neoliberalismo o
futuro é fatalidade. O neoliberalismo apresenta-se como
única resposta à realidade atual, desqualificando qualquer outra
proposta. Desqualifica principalmente o Estado, os Sindicatos e
os Partidos Políticos. Denuncia a política fazendo política
disfarsadamente.
Paulo Freire atacava a
ética do mercado sustentada pelo neoliberalismo, porque ela
se baseia na lógica do controle e afirmava uma ética integral
do ser humano. No seu livro Pedagogia da autonomia ele
destaca: “Daí a crítica permanentemente presente em mim à
malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a
sua recusa inflexível ao sonho e à utopia. Daí a minha raiva,
legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às
injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o
meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de
observador imparcial, objetivo, seguro, dos fatos e dos
acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador
‘acinzentadamente’ imparcial, o que, porém, jamais me afastou de
uma posição rigorosamente ética”.
Para ele, a
educação não deveria orientar-se pelo paradigma da empresa que
dá ênfase apenas à eficiência. O paradigma da empresa ignora o
ser humano. Para este paradigma, o ser humano funciona apenas
como puro agente econômico, um “fator humano”. O ato
pedagógico é democrático por natureza, o ato empresarial
orienta-se pela “lógica do mercado”. O neoliberalismo consegue
naturalizar a desigualdade: “É assim mesmo”, “Não há
outra coisa a fazer”, ouve-se dizer. Por isso, Paulo Freire
chama nossa atenção para a necessidade de observarmos o processo
de construção da subjetividade democrática, mostrando, ao
contrário, que a desigualdade não é natural. Insistia que era
preciso aguçar nossa capacidade de estranhamento e ter cuidado
com a anestesia da ideologia neoliberal: ela é fatalista. O
neoliberalismo age como se a globalização fosse uma
realidade definitiva e não uma categoria histórica.
A sua concepção de
mundo e a sua teoria sócio-político-educativa nos ajudam não
apenas a entender melhor como funciona o modelo neoliberal, mas
nos ajudam a construir a resposta necessária ao neoliberalismo.
Ele defende uma nova modernidade cuja racionalidade deve
estar “molhada de afetividade”. Contra o iluminismo pedagógico e
cultural que acentua apenas a aquisição de conteúdos
curriculares, ele realça a importância da dimensão cultural nos
processos de transformação social. A educação é muito mais do
que a instrução. Para ser transformadora - transformar as
condições de opressão - ela deve enraizar-se na cultura dos
povos. A pós-modernidade se caracteriza pelo simulacro e
pelo consumo imediato. Ora, a educação é um processo a longo
prazo e precisa combater o imediatismo e o consumismo, se quiser
contribuir para a construção de uma pós-modernidade
progressista. A educação, para ser libertadora, precisa
construir entre educador e educando uma verdadeira consciência
histórica. E isso demanda tempo.
2. O construtivismo crítico freiriano
Paulo Freire era
uma pessoa feliz. Ele tinha verdadeiro prazer em aprender e
ensinar e transmitia esse prazer para os que convivam com ele,
seja na sala de aula, seja em outros lugares. Aprende-se quando
se quer aprender e só se aprende o que é significativo,
dizem os construtivistas. Paulo Freire também foi um dos
criadores do construtivismo, mas do construtivismo crítico.
Desde suas primeiras experiências no nordeste brasileiro, no
início dos anos 60, ele buscava fundamentar o
ensino-aprendizagem em ambientes interativos, através do
uso de recursos audiovisuais. Mais tarde reforçou a necessidade
do uso de novas tecnologias, principalmente o vídeo, a televisão
e a informática. Mas não aceitava a sua utilização de forma
acrítica.
O construtivismo
freireano vai além da pesquisa e da tematização.
Implica uma outra etapa: a da problematização, supõe a
ação transformadora. O conhecimento não é libertador por si
mesmo. Ele precisa estar associado a uma causa. O conhecimento é
um bem imprescindível à produção de nossa existência. Por isso
ele não pode ser objeto de compra e venda, cuja posse fique
restrita a poucos. Paulo Freire tinha um verdadeiro amor pelo
conhecimento e amor pelo estudo, mas dizia: conhecemos para
entender o mundo (palavra e mundo), para averiguar
(certo ou errado, busca da verdade e não apenas trocar idéias) e
para interpretar e transformar o mundo. O conhecimento
deve constituir-se numa ferramenta essencial para intervir no
mundo.
Para Paulo Freire,
o conhecimento é construído de forma integradora e interativa.
Não é algo pronto a ser apenas “apropriado” ou
“socializado”, como sustenta a “pedagogia dos conteúdos”, que
insiste na memorização (de conteúdos). Conhecer é descobrir e
construir e não copiar. No processo de busca do
conhecimento, Paulo Freire aproxima o estético, o epistemológico
e o social. Para ele é preciso reinventar um conhecimento que
tenha “feições de beleza”.
A escola
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não distribui poder, mas constrói saber que é poder. Não mudamos
a história sem conhecimentos, mas temos que educar o
conhecimento para que possamos interferir no mercado como
sujeitos. O papel da escola consiste em colocar o
conhecimento nas mãos dos excluídos de forma crítica, porque, a
pobreza política produz pobreza econômica.
“Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo”, dizia Freire. Ninguém
é ignorante de tudo. O “analfabeto político” não consegue
entender as causas da sua pobreza econômica. Por isso Paulo
Freire associava alfabetização e politização. A pedagogia
neoliberal é uma pedagogia da exclusão justamente porque
reduz o pedagógico ao estritamente pedagógico, buscando retirar
da pedagogia a sua essência política. A pedagogia da
esperança é o oposto da pedagogia da exclusão. Ensinar é
inserir-se na história: não é só estar na sala de aula, mas num
imaginário político mais amplo.
Paulo Freire
valorizava, além do saber científico elaborado, também o saber
primeiro, o saber cotidiano. Sustentava que o aluno não
registra em separado as significações instrutivas das
significações educativas e cotidianas. Ao incorporar
conhecimento, ele incorpora outras significações, tais como:
como se conhece, como se produz e como a sociedade utiliza o
conhecimento... enfim, o saber cotidiano do grupo social.
Outra noção que
ele desenvolveu em sua concepção construtivista e que a
distinguia de toda a conotação neoliberal, era a noção de
qualidade. Quando estava à frente da Secretaria Municipal de
Educação de São Paulo ele nos falava de uma “nova qualidade”.
A qualidade é todos (quantidade) terem acesso ao conhecimento e
a relações sociais e humanas renovadas. Qualidade é empenho
ético, alegria de aprender. Para o pensamento
neoliberal, a qualidade se confunde com a competitividade,
negando a necessidade da solidariedade. As pessoas não
são competentes porque são competitivas, mas porque sabem
enfrentar seus problemas cotidianos junto com os outros.
Uma outra
contribuição de Freire à história das idéias pedagógicas é a sua
concepção de currículo. Não se pode entender a pedagogia
de Freire sem entender os conceitos de transdisciplinaridade,
transcurricularidade e interculturalidade.
A inter e a transdisciplinaridade freireanas não são apenas um
método pedagógico ou uma atitude profissional.
Elas se constituem numa verdadeira exigência da própria
natureza do ato pedagógico. Paulo Freire, na prática, sabia
trabalhar com várias disciplinas ao mesmo tempo: a
etnografia, a teoria literária, a filosofia, a política, a
economia, a sociologia, etc. Trabalhava mais com teorias do que
com disciplinas ou currículos. Insistia que os alunos buscassem
fora de seu currículo escolar outros conhecimentos e saberes, em
outras disciplinas, na literatura, em outras linguagens e formas
de comunicação. Para o ato pedagógico concorrem muitas ciências.
Ele trabalhava ao mesmo tempo também com várias perspectivas
teóricas: a do militante político, do filósofo da libertação, do
cientista, do intelectual, do revolucionário, etc.
3. Cruzando fronteiras
As teorias de
Paulo Freire cruzaram as fronteiras das disciplinas, das
ciências, para além da América Latina. Ao mesmo tempo em que as
suas reflexões foram aprofundando o tema que ele perseguiu por
toda a vida – a educação como prática da liberdade – suas
abordagens transbordaram-se para outros campos do conhecimento,
criando raízes nos mais variados solos – desde os mocambos do
Recife às comunidades burakunins do Japão - fortalecendo teorias
e práticas educacionais, bem como auxiliando reflexões não só de
educadores, mas também de médicos, terapeutas, cientistas
sociais, filósofos, antropólogos e outros profissionais. Seu
pensamento é considerado um parâmetro de
transdisciplinaridade.
Não podemos ver a
Freire apenas como um educador de adultos ou como um acadêmico,
ou reduzir sua obra a uma técnica ou metodologia. Ela deve ser
lida dentro do contexto da “natureza profundamente radical de
sua teoria e prática anti-colonial e de seu discurso
pós-colonial”, como no diz Henry Giroux.
Isso nos vai mostrar que Freire assumiu o risco de cruzar
fronteiras para poder ler melhor o mundo e facilitar
novas posições sem sacrificar seus compromissos e princípios.
As barreiras e
fronteiras estão sempre à nossa volta. Os intelectuais e
educadores que ocupam fronteiras muito estreitas não percebem
que elas também tem a capacidade de aprisioná-los. Nesse
sentido, é preciso relevar a importância da obra de Paulo Freire
em termos mais globais. Seria ingênuo considerar a sua pedagogia
como uma pedagogia só aplicável no chamado “Terceiro Mundo”.
A obra de Paulo
Freire tem sido reconhecida mundialmente não apenas como uma
resposta a problemas brasileiros do passado ou do presente, mas
como uma contribuição original e destacada da América Latina ao
pensamento pedagógico universal. Não se pode dizer que seu
pensamento responda apenas à questão da educação de adultos ou à
problemática social dos países pobres.
Quais são as
contribuições mais destacadas de Paulo Freire e que lhe deram
tamanha notoriedade?
Creio que a
validade universal da teoria e da práxis de Paulo
Freire está ligada sobretudo a quatro intuições
originais, já destacadas sobretudo nos trabalhos de Carlos
Alberto Torres, especialmente em seu livro Pedagogia da luta:
da pedagogia do oprimido à escola pública popular:
1ª -
Ênfase nas condições gnosiológicas da
prática educativa. Toda obra de Paulo Freire está
permeada pela idéia de que educar é conhecer, é ler o mundo,
para poder transformá-lo. Ele destacou, desde o início, a
importância das metodologias, o que é muito atual. Foi acusado
de não dar valor aos conteúdos e, por isso, de ser espontaneista
e não-diretivo. Na verdade ele não foi nada disso: seu
pensamento estava fortemente orientado por um projeto
político-pedagógico cujo conteúdo era a libertação. As críticas
de espontaneísmo e de não-diretividade não procedem.
2ª
Defesa da educação como ato dialógico
e, ao mesmo tempo, rigoroso, intuitivo, imaginativo, afetivo.
Paulo destaca a necessidade de uma razão dialógica comunicativa.
A teoria do conhecimento de Paulo Freire reconhece que o ato de
conhecer e de pensar estão diretamente ligados à relação com o
outro. O conhecimento precisa de expressão e de comunicação. Não
é um ato solitário. Além de ser um ato histórico, gnosiológico e
lógico ele contém um quarto elemento que é a sua dimensão
dialógica.
3ª A
noção de ciência aberta às necessidades
populares ligada, portanto, ao trabalho, ao emprego, à
pobreza, à fome, à doença etc. Seu método, por isso, não parte
de categorias abstratas, mas das necessidades das pessoas,
capturadas nas suas próprias expressões (valor da oralidade) e
analisadas por ambos, educador e educando. Nos últimos anos
Paulo Freire destacou também as necessidades
planetárias trazidas ao debate pela ecologia, como
necessidades humanas fundamentais, ligadas, por exemplo, ao
saneamento básico, ao lixo, à água, à poluição do ar. Dia 17 de
abril de 1997, poucos dias antes de falecer, ele falava de
ecopedagogia, afirmando que amava a Terra, os bichos, as
plantas. Dizia ele numa entrevista dada no Instituto Paulo
Freire naquele dia: “Quero sem lembrado como alguém que amou a
vida, os homens, as mulheres, as plantas, os animais, a Terra”.
Um dos seus últimos livros foi À sombra desta mangueira
onde ele fala do prazer de respirar ar puro (uma das
necessidades humanas), de entrar num rio despoluído, de pisar na
grama, na areia da praia. E criticava a lógica capitalista que
não valoriza esses prazeres gratuitos oferecido pela natureza e
por substituí-los por prazeres vendidos e comprados, prazeres
que dão lucro. O capitalismo tem necessidade de substituir
“felicidades gratuitas” (necessidades humanas) por “felicidades
vendidas e compradas”, que são, acima de tudo, necessidades do
capital e, muitas vezes, não são necessidades humanas; são
necessidades impostas aos seres humanos, com a finalidade do
lucro.
4ª O
planejamento comunitário, participativo, a
gestão democrática, a pesquisa participante. Sob influência do
pensamento de Paulo Freire hoje no Brasil estão se realizando
muitas experiências educacionais de enorme impacto, relacionadas
com a chamada “Constituinte Escolar”, que utiliza os princípios
metodológicos freireanos e com o emblemático “Orçamento
Participativo” no quadro do movimento pela Escola
Cidadã, outra expressão também utilizada por ele nos últimos
anos.
O reconhecimento
de Paulo Freire fora do campo da pedagogia, demonstra que o seu
pensamento é também transdisciplinar e transversal.
A pedagogia é essencialmente uma ciência transversal. Desde seus
primeiros escritos considerou a escola muito mais do que as
quatro paredes da sala de aula. Criou o “Círculo de Cultura”,
como expressão dessa nova pedagogia que não se reduzia à noção
simplista de “aula”. Na sociedade do conhecimento de hoje isso é
ainda muito mais verdadeiro, já que o “espaço escolar” é muito
maior do que a escola. Os novos espaços da
formação (mídia, rádio, TV, vídeo, igrejas, sindicatos,
empresas, ONGs, espaço familiar, Internet...) alargaram a noção
de escola e de sala de aula. A educação tornou-se comunitária,
virtual, multicultural e ecológica e a escola estendeu-se para a
cidade e o planeta. Hoje se pensa em rede, se pesquisa em rede,
trabalha-se em rede, sem hierarquias. A noção de hierarquia
(saber-ignorância) é muito cara à escola capitalista. Ao
contrário, Paulo Freire insistia na conectividade, na
gestão coletiva do conhecimento social a ser socializado de
forma ascendente. Não se trata mais de ver apenas a “cidade
educativa”
(Edgar Faure) mas de enxergar o planeta como uma escola
permanente.
Abrir a escola para o mundo,
como queria Paulo Freire, é uma das condições para a sua
sobrevivência com dignidade, nessa travessia de milênio. O novo
espaço escolar é o planeta porque a Terra tornou-se nosso
endereço comum. O novo paradigma educativo funda-se na condição
planetária da existência humana. A planetaridade é uma
nova categoria que fundamenta o Paradigma Terra, isto é,
a visão utópica da Terra como um organismo vivo e em evolução,
onde os seres humanos se organizam como uma única comunidade,
compartilhando a mesma morada com outros seres e coisas.
4. Humanismo e dialética
Quais são as fontes
primárias do seu pensamento? Que autores o influenciaram ou
tiveram ressonância nele? Em que corrente ou tendência
pedagógica contemporânea poderia ele ser inserido?
Eis algumas perguntas que
muitos me fizeram depois de escrever alguns textos sobre Paulo
Freire, principalmente depois do livro Paulo Freire: uma
biobiliografia (1996).
Conversei várias vezes com ele
sobre isso. Ele sempre se esquivava. Dizia que isso não era
importante. De fato, ele não se interessava muito em saber quais
eram os autores ou as correntes filosóficas que o influenciaram.
Não é fácil inseri-lo dentro de alguma corrente pedagógica. Ele
não se interessava por exegese, nem da exegese dos seus textos.
Lia-os e relia-los muito para ver se continham equívocos e até
para entender-se melhor, aprofundar suas posições. Por isso,
cabe a nós, aos estudiosos do seu pensamento, buscar responder a
essas perguntas.
Creio que duas foram as fontes
mais importantes do seu pensamento: o humanismo e o
marxismo. Nesta ordem. Em outras palavras: humanismo e
dialética.
Paulo Freire foi um dos
últimos humanistas. Em seus primeiros escritos, principalmente
no seu primeiro livro (escrito em 1959 como tese doutoral e
publicado apenas em 2001 pelo Instituto Paulo Freire)
Educação e atualidade brasileira, ele cita com freqüência os
filósofos humanistas cristãos Gabriel Marcel e Jacques Maritain,
autores que eram muito discutidos nos anos 50. Como humanista
afirmou e difundiu a crença de que era possível mudar a ordem
das coisas e mostrou como fazê-lo. Para ele a utopia era o
verdadeiro realismo do educador.
Embora não se possa falar com
muita propriedade de fases do pensamento freireano, pode-se pelo
menos dizer que a influência do marxismo deu-se depois da
influência humanista cristã. São momentos distintos, mas não
contraditórios. Como afirma o filósofo alemão Woldietrich
Schmied-Kowarzik, em seu livro Pedagogia dialética, Paulo
Freire combina temas cristãos e marxistas na sua pedagogia
dialético-dialógica.
Paulo Freire é um dialético. A educação é uma prática
antropológica por natureza, portanto ético-política. Por essa
razão, pode tornar-se uma prática libertadora. O tema da
libertação é ao mesmo tempo cristão e marxista. O método
utilizado é que é diferente; a estratégia é diferente. O fim é o
mesmo. Encontramos Hegel como referência desde o início. A
relação opressor-oprimido lembra a relação senhor-escravo de
Hegel. Depois veio Marx, Gramsci, Habermas. Seu pensamento é
humanista e dialético.
A afirmação da utopia como
práxis docente e discente lembra o paradigma humanista, cristão
e socialista. O que há de original em Freire, com relação ao
marxismo ortodoxo é que ele afirma a subjetividade como
condição da revolução, da transformação social. Daí o papel da
educação como conscientização. Ele afirma o papel do sujeito na
história e a história como possibilidade. A história é
possibilidade. Não através de um movimento mecanismo de luta de
classes, pura e simplesmente, mas pela ação consciente de
sujeitos históricos organizados. Paulo Freire sustentava que o
socialismo é uma utopia que precisa ser renovada pela educação.
Isso havia escapado a Marx e a Lênin e aos marxistas em geral
que pouca importância deram à educação. Por isso Paulo Freire
foi criticado pela ortodoxia marxista.
5. Paulo Freire e as
perspectivas atuais da educação
As perspectivas
atuais da educação estão marcadas hoje pela
questão do conhecimento. E não é por acaso. O
conhecimento tornou-se peça chave para entender a própria
sociedade atual. Fala-se em sociedade do conhecimento, às vezes
com impropriedade. Mais do que a era do conhecimento devemos
dizer que vivemos a era da informação, pois percebemos com mais
facilidade a disseminação da informação e de dados, muito mais
do que de conhecimentos. O acesso ao conhecimento é ainda muito
precário, sobretudo em sociedades com grande atraso educacional.
Hoje as teorias do
conhecimento na educação estão centradas na aprendizagem.
Partindo do seu pensamento, podemos colocar algumas questões
muito atuais e que preocupavam Paulo Freire.
1ª -
O que é conhecer? É construir categorias de pensamento,
dizia Piaget. É ler o mundo e transformá-lo, dizia Freire.
Conhecer é tudo isso – construção de categorias de pensamento,
ler o mundo, transformar o mundo – mesmo porque não é possível
construir categorias de pensamento como se elas existissem a
priori, independentemente do sujeito que, ao conhecer,
reconstrói o que conhece.
2ª - Como se
conhecer? Só é possível conhecer quando se deseja, quando se
quer, quando nos envolvemos profundamente no que apreendemos. No
aprendizado, gostar é mais importante do que criar hábitos de
estudo, por exemplo. Hoje se dá mais importância às metodologias
da aprendizagem, às linguagens e às línguas, do que aos
conteúdos. A transversalidade e a transdisciplinaridade do
conhecimento é mais valorizada do que os conteúdos longitudinais
do currículo clássico.
3ª O que
conhecer? Frente à disseminação e à generalização do
conhecimento é necessário que a escola e o professor, a
professora, façam uma seleção crítica, pois há muito lixo e
propaganda enganosa sendo veiculados como conhecimento
científico. Não faltam, também na era da informação,
encantadores da palavra para tirar algum proveito, seja
econômico, seja religioso, seja ideológico.
4ª - Por que
conhecer? Conhecer é importante porque a educação se funda
no conhecimento e o conhecimento na atividade humana. Para
inovar é preciso conhecer. A atividade humana é intencional, não
está separada de um projeto. Conhecer não é só adaptar-se ao
mundo. É condição de sobrevivência do ser humano e da espécie.
Para nós
educadores, educadoras, não basta saber como se constrói o
conhecimento. Nós precisamos dominar outros saberes da nossa
difícil tarefa de ensinar. Precisamos saber o que é e,
sobretudo, como aprender. As teses a seguir foram
tiradas de múltiplas vivências, seja da minha prática, seja de
teóricos que estudei, mas sobretudo da convivência de 23 anos
com Paulo Freire. Aprendi dele muitas lições. Tivemos
oportunidade, com freqüência, de trocar idéias sobre isso.
Paulo, como educador, estava preocupado constantemente com o ato
de aprender, de estudar, de ensinar.
1ª -
Aprendemos a vida toda. Não há tempo próprio para aprender.
Todos podem aprender.
2ª - Aprender
não é acumular conhecimentos. Aprendemos história não para
acumular conhecimentos, datas, informações, mas para saber como
os seres humanos fizeram a história para fazermos história.
3ª - O
importante é aprender a pensar (a realidade, não
pensamentos), aprender a aprender.
4ª - É o sujeito
que aprende através da sua experiência. Não é um coletivo
que aprende.
5º - Aprende-se
o que é significativo para o projeto de vida da pessoa.
Aprende-se quando se tem um projeto de vida.
6ª - É preciso
tempo para aprender e para sedimentar informações. Não dá
para injetar dados e informações na cabeça de ninguém. Exige-se
também dis
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ciplina e dedicação.
7ª - Aprendemos
também ao ensinar: “Quem ensina aprende ao ensinar e quem
aprende ensina ao aprender".
Para Paulo Freire o
conhecimento não estava descolado de um projeto de vida e de
sociedade, de um projeto de mundo. A relação entre educação
e utopia está na base do pensamento freireano. Ela
pode ser resumida em quatro pontos:
1º -
Para construir o futuro é preciso primeiro sonhá-lo,
imaginá-lo. No seu último livro, Pedagogia da autonomia,
ele critica o neoliberalismo exatamente por negar o sonho, por
ser fatalista, por negar a possibilidade de mudança. Para ele o
neoliberalismo se apresenta, arrogantemente, como a plenitude
dos tempos, não reconhece que a história continua se fazendo. O
neoliberalismo afirma o “fim da história” porque não lhe
interessa que a história mude. Interessa sim que ela continua
como está.
2º - A pedagogia
é um guia na construção do sonho. Não basta sonhar. É
preciso saber como construir o sonho. Paulo Freire apresentou os
seus “saberes necessários” para realizar o sonho. Ofereceu em
Pedagogia da autonomia, a mediação pedagógica necessária
para conquistá-lo. Todos os livros de Paulo Freire são livros de
pedagogia, isto é, são livros destinados à educação para
construir o sonho.
3º - A pedagogia
vê primeiro o futuro, um futuro melhor para todos, a utopia.
Depois é que ela se volta para o presente e para o passado.
4º - A pedagogia
freireana é dialógico-dialética. Não mecânica. A dialética
continua válida desde que não exclua a subjetividade. Caso
contrário ela se transforma numa mecânica sem sentido que lembra
a divina providência cristã. A dialética mecanicista é idealista
e idealizadora da realidade.
6. Educar para a paz, a
cidadania e a sutentabilidade
Na década de 90, inspirado na obra de Paulo Freire, nasceu no
Brasil um grande movimento em torno da tese da educação para
e pela cidadania, chamado pelo Instituto Paulo Freire de
“Projeto da Escola Cidadã”. O movimento pela “Escola Cidadã”,
nasceu no final da década de 80 na educação municipal para fazer
frente ao projeto político-pedagógico neoliberal. José Eustáquio
Romão defendeu esta tese em seu livro
Dialética da diferença,
em que confronta o pensamento neoliberal com o pensamento
freireano que inspirou o Projeto da Escola Cidadã.
A
Escola Cidadã está fortemente enraizada no movimento de educação
popular comunitária que, na década de 80, traduziu-se pela
expressão escola pública popular com uma concepção e uma
prática da educação realizada em diversas regiões do país. A
concepção de educação popular é certamente a contribuição mais
importante da América Latina ao pensamento pedagógico universal.
São inúmeras e profundas as
conseqüências dessa concepção da educação em termos não
apenas de gestão, mas em termos de atitudes e métodos e que
formam o novo professor, o novo aluno, o novo sistema, o novo
currículo, a nova pedagogia da educação
cidadã.
Nos últimos anos,
a concepção de Escola Cidadã foi marcada pela Ecopedagogia
entendendo o novo currículo com base na idéia de
sustentabilidade. A educação para e pela cidadania é também uma
educação para uma sociedade sustentável. A Escola
Cidadã e a Ecopedagogia sustentam-se no princípio de que todos,
desde crianças, temos um direito fundamental que é o de sonhar,
de fazer projetos, de inventar, como pensavam Marx e Freire;
todos temos o direito de decidir sobre nosso destino, também as
crianças, como sustentava o educador polonês Janusz Korczak.
Não se trata de reduzir a
escola e a pedagogia atuais a uma tabula rasa e construir
por cima de suas cinzas a Escola Cidadã ideal e a ecopedagogia.
Não se trata de uma escola e de uma pedagogia “alternativas”, no
sentido de que devem ser construídas separadamente da escola e
da pedagogia atuais. Trata-se de, no interior delas, a partir da
escola e da pedagogia que temos, dialeticamente, construir
outras possibilidades, sem aniquilar tudo o que existe. O futuro
não é o aniquilamento do passado, mas a sua superação.
Os problemas atuais, inclusive
os problemas ecológicos, são provocados pela nossa maneira de
viver e a nossa maneira de viver é inculcada pela escola, pelo
que ela seleciona ou não seleciona, pelos valores que transmite,
pelos currículos, pelos livros didáticos. Precisamos reorientar
a educação a partir do princípio da
sustentabilidade, isto é, retomar nossa educação em sua
totalidade. Isso implica uma revisão de currículos e programas,
sistemas educacionais, do papel da escola e dos professores e da
organização do trabalho escolar. A ecopedagogia, tal como vem
sendo desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire, implica uma
reorientação dos currículos para que incorporem certos
princípios da cultura da paz e da sustentabilidade.
Paulo Freire havia dito no
Instituto Paulo Freire que pretendia escrever um livro sobre
Ecopedagogia. Ele já havia estimulado Francisco Gutiérrez a
escrever sobre o tema.
Ele estava escrevendo quando veio a falecer em 1997, deixando
suas reflexões iniciais num pequeno texto que, depois de sua
morte, foi publicado num livro organizado pela viúva Ana Maria
Araujo Freire: Pedagogia da indignação. Nesse texto Paulo
Freire escreve: “Urge que assumamos o dever de lutar pelos
princípios éticos fundamentais como o respeito à vida dos seres
humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida
dos rios e das florestas. Não creio na amorosidade entre
mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornamos
capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importância
fundamental neste fim de século. Ela tem que estar presente em
qualquer prática educativa de caráter radical, crítico ou
libertador (...). Neste sentido me parece uma contradição
lamentável fazer um discurso progressista, revolucionário e ter
uma prática negadora da vida. Prática poluidora do mar, das
águas, dos campos, devastadora das matas. Destruidora das
árvores, ameaçadora dos animais e das aves... De violência
contra a vida das árvores, dos rios, dos peixes, das montanhas,
das cidades, das marcas físicas de memórias culturais e
históricas. De violência contra os fracos, os indefesos, contra
as minorias ofendidas...”.
As pedagogias clássicas eram antropocêntricas. A ecopedagogia
parte de uma consciência planetária (gêneros, espécies, reinos,
educação formal, informal e não-formal). Ampliamos o nosso ponto
de vista. Do homem para o planeta, acima de gêneros, espécies e
reinos. De uma visão antropocêntrica para uma consciência
planetária e para uma nova referência ética. A Escola Cidadã,
orientando-se por uma Ecopedagogia ou Pedagogia da
Terra,
deve, por isso, ser entendida também como uma alternativa para a
construção de uma sociedade sustentável.
7. Que legado nos deixou
Paulo Freire?
Em primeiro lugar,
ele nos deixou sua vida, uma rica biografia. Paulo nos
encantou com a sua ternura, sua doçura, seu carisma, sua
coerência, seu compromisso, sua seriedade. Suas palavras e suas
ações foram palavras e ações de luta por um mundo “menos feio,
menos malvado, menos desumano”. Ao lado do amor e da esperança,
ele também nos deixou um legado de indignação diante da
injustiça. Diante dela, dizia que não podemos “adocicar” nossas
palavras.
Além do testemunho
de uma vida de compromisso com a causa dos oprimidos, ele nos
deixou uma imensa obra, estampada em muitas edições de
seus livros, em artigos e vídeos espalhados pelo mundo. Nela se
encontra uma pedagogia revolucionária. A pedagogia
conservadora humilha o aluno. A pedagogia freireana, a
“pedagogia do diálogo”, deu dignidade a ele, respeitando
o educando e colocando o professor ao lado dele como
companheiro, companheira, com a tarefa de orientar e dirigir o
processo educativo, como um ser que também busca e aprender ao
ensinar.
Como o aluno, o professor é
também um aprendiz... Esse é o legado de Freire. No
desenvolvimento da sua teoria da educação, Paulo Freire
conseguiu, de um lado, desmistificar os sonhos do pedagogismo
dos anos 60, que, pelo menos na América Latina, sustentava a
tese de que a escola tudo podia, e, de outro lado, conseguiu
superar o pessimismo dos anos 70, para o qual a escola
era meramente reprodutora do status quo. Fazendo isso -
superando o pedagogismo ingênuo e o pessimismo negativista -
conseguiu manter-se fiel à utopia, sonhando sonhos possíveis.
Fazer hoje o possível de hoje, para, amanhã, fazer o impossível
de hoje.
Em março de 1997,
um grupo de jovens de Brasília ateou fogo e matou um índio
pataxó. Paulo Freire ficou muito impressionado com este horror.
E se perguntava por que chegamos a tamanha barbárie. As causas
são múltiplas: há a mídia, a escola, a sociedade... todos somos
responsáveis. Mas há a impunidade que permite, sobretudo às
classes poderosas, fazer quase tudo o que quiserem sem ser
punidas. Raramente são punidas. Poucos são os ricos que estão
nas cadeias. Por isso precisamos dizer “não pode” sem ter medo
de sermos antidemocráticos. Há o que pode e o que não pode ser
feito. Diante da injustiça, da impunidade e da barbárie,
precisamos de uma pedagogia da indignação. Dizer “não”
provoca conhecimento. O “não” desacomoda, incomoda, desinstala.
Obriga-nos a pesquisar. Dizer “não” é afirmar-se como “eu”. É
buscar a ética, é valor, é postura. Paulo Freire nos falava com
freqüência de uma pedagogia da rebeldia.
Para finalizar,
gostaria de realçar o significado das muitas homenagens a
Paulo Freire que estão acontecendo no mundo. Para elas terem um
sentido transformador, elas não devem simplificar ou mitificar
Paulo Freire. No caso de uma obra tão complexa quanto a de Paulo
Freire, há sempre o perigo da simplificação. Ela pode consistir,
por exemplo, na escolha de uma frase, de uma passagem ou de um
pensamento dele que mais nos agrada e tomá-lo como uma verdade
absoluta sem contextualizá-la. Nada menos freireano do que isso.
Paulo Freire escreveu muito e é possível tomar certas passagens
sem contextualizá-las. Cada uma de suas passagens precisa não
apenas ser lida dentro do contexto no qual ele a escreveu, mas
no contexto mais amplo de toda a sua obra. Apropriar-se acrítica
e sectariamente de qualquer parte de sua obra é desfigurar
Freire.
Paulo Freire
confessou certa vez que “não tinha vergonha de ser professor”.
Como um plantador do futuro, ele sempre será lembrado porque nos
deixou raízes, asas e sonhos como herança. Paulo Freire
nos deixa um legado de esperança. Como criador de
espíritos, a melhor maneira de homenageá-lo é reinventá-lo. Não
copiá-lo. É levar adiante o esforço de uma educação com uma nova
qualidade para todos. Essa nova qualidade não será medida pela
quantidade absorvida de conteúdos técnico-científicos apenas,
mas, pela produção de um tipo novo de conhecimento, “molhado de
existência” e de história, um conhecimento que deve ser, acima
de tudo, uma ferramenta de mudança das condições de vida
daqueles que não têm acesso à existência plena. Ele nos deixou
teorias e exemplos que nos podem levar muito além de onde
estamos hoje. Como disse um professor logo que ouviu falar de
seu falecimento “ele nos deixou mais pobres porque partiu, mas
estamos mais ricos porque ele existiu”.
Trata-se agora de
dar continuidade a seu legado. Mas, o que significa dar
continuidade à obra de Freire?
Dar continuidade a
Freire, não significa tratá-lo como um “Totem”, ao qual não se
pode tocar mas se deve apenas adorar; não significa também
tratá-lo como um “guru”, que deve ser seguido por discípulos,
sem questioná-lo. Nada menos freireano do que esta idéia. Paulo
Freire foi, sobretudo, um criador de espíritos. Por isso deve
ser tratado como um grande educador popular. Adorar Freire como
um totem, significa destruir Freire como educador. Por isso não
devemos repetir Freire, mas “reinventá-lo”, como ele mesmo
dizia. Para esta tarefa, não designou esta ou aquela pessoa ou
instituição. Esta tarefa ele deixou a todos nós, tão claramente
expressa já no Pedagogia do oprimido, quando o
dedicou “aos esfarrapados do mundo, e aos que neles se descobrem
e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com
eles lutam”.
8. Por que devemos
continuar lendo Freire?
Linda Bimbi, no
belo prefácio da edição italiana da Pedagogia do Oprimido,
afirma, com razão, que Paulo Freire é “inclassificável”.
Passados mais de 30 anos, depois de tantos trabalhos publicados
por ele e sobre ele, a afirmação ainda continua válida. Estamos
diante de um autor que não se submeteu a correntes e tendências
pedagógicas e criou um pensamento vivo orientado apenas pelo
ponto de vista do oprimido. Essa é a ótica básica de sua obra, a
qual foi fiel a vida toda: a perspectiva do oprimido.
Pedagogia do
oprimido foi escrito no Chile em 1968. A pergunta que
podemos fazer hoje é a seguinte: esse ponto de vista é ainda
válido? Caso não seja válido, já não haveria mais porque
continuar lendo Paulo Freire. Ou melhor, Paulo Freire seria uma
autor já superado, porque sua luta pelo oprimido estaria
superada. Ele passaria para a história como um grande educador,
mas que não teria mais nada a dizer para o nosso tempo.
Pelo contrário, a sua
pedagogia continua válida não só porque ainda há opressão no
mundo, mas porque ela responde a necessidades fundamentais da
educação de hoje. A escola e os sistemas educacionais
encontram-se hoje frente a novos e grandes desafios diante da
generalização da informação na sociedade que é chamada por
muitos de sociedade do conhecimento, de sociedade da
aprendizagem. As cidades estão se tornando educadoras e
aprendentes, multiplicando seus espaços de formação. A escola,
nesse novo contexto de impregnação do conhecimento, não pode ser
mais um espaço, entre outros, de formação. Precisa ser um espaço
organizador dos múltiplos espaços de formação, exercendo uma
função mais formativa e menos informativa. Precisa tornar-se um
“círculo de cultura”, como dizia Paulo Freire, muito mais
gestora do conhecimento social do que lecionadora.
Nesse contexto, o pensamento
de Paulo Freire é mais atual do que nunca, pois, em toda a sua
obra ele insistiu nas metodologias, nas formas de aprender e
ensinar, nos métodos de ensino e pesquisa, nas relações
pessoais, enfim, no diálogo.
Devemos continuar
estudando a sua obra, não para venerá-lo, mas para ser lido como
um dos maiores educadores críticos do século XX. Honrar
um autor é sobretudo estudá-lo e revê-lo criticamente, retomar
seus temas, seus problemas, seus questionamentos.
Nisso ele mesmo nos deu um
belo exemplo. Paulo retomava com freqüência os mesmos temas. Há
algo que permanece constante no pensamento dele: a sua
preocupação ética, seu compromisso com os “condenados da Terra”
(Pedagogia do oprimido), com os “excluídos” (Pedagogia
da Autonomia). Seu ponto de vista foi sempre o mesmo. O que
há de diferente é a ênfase em certas problemáticas que, estas
sim, vão se diversificando e evoluindo.
Paulo Freire “retoma” certos
temas, como em Pedagogia da esperança, “retoma” a sua
Pedagogia do oprimido. Em sua Pedagogia da autonomia
ele afirma textualmente que retoma certos problemas, mas não
como “pura repetição do que já foi dito”. “No meu caso pessoal”,
diz ele, “retomar um assunto ou tema tem que ver principalmente
com a marca oral de minha escrita. Mas tem que ver também com a
relevância que o tema de que falo e a que volto tem no conjunto
de objetos a que direciono minha curiosidade. Tem a ver também
com a relação que certa matéria tem com outras que vêm emergindo
no desenvolvimento de minha reflexão”.
Há certamente na obra de Paulo
Freire um retorno e um desenvolvimento em espiral de uma grande
polifonia de temas geradores orientados pela escolha de
um ponto de vista emancipador da ciência, da cultura, da
educação, da comunicação etc. Por isso pode-se concluir que a
obra de Paulo Freire gira em torno de um único objeto de
pesquisa. Este objeto estaria já no seu primeiro livro
Educação e atualidade brasileira e que foi consagrado
definitivamente na sua Pedagogia do oprimido: a educação
como instrumento de libertação.
Por que devemos
continuar lendo Freire?
Alguns certamente
gostariam de deixá-lo para trás na história das idéias
pedagógicas e outros gostariam de esquecê-lo, por causa de suas
opções políticas. Ele não queria agradar a todos. Mas havia uma
unanimidade em todos os seus leitores e todos os que o
conhecerem de perto: o respeito à pessoa.
Paulo sempre foi uma pessoa cordial, generosa, muito respeitosa.
Podia discordar das idéias, mas respeitava a pessoa, mostrando
um elevado grau de civilização. E mais: sua prática do diálogo o
levava a respeitar também o pensamento daqueles e daquelas que
não concordavam com ele.
A pedagogia do diálogo que
praticava fundamenta-se numa filosofia pluralista. O pluralismo
não significa ecletismo ou posições “adocicadas”, como ele
costumava dizer. Significa ter um ponto de vista e, a partir
dele, dialogar com os demais. É o que mantinha a coerência da
sua prática e da sua teoria. Paulo era acima de tudo um
humanista. Seria a única forma de “classificá-lo” hoje. Não há
dúvida de que Paulo Freire foi um grande humanista.
A força da obra de Paulo
Freire não está na sua teoria do conhecimento mas em ter
insistido na idéia de que é possível, urgente e necessário mudar
a ordem das coisas. Ele não só convenceu tantas pessoas em
tantas partes do mundo pelas suas teorias e práticas, mas também
porque despertava nelas a capacidade de sonhar com uma realidade
mais humana, menos feia e mais justa. Ele foi uma espécie de
guardião da utopia. Deixou-a como legado. Seu legado é acima
de tudo um legado de esperança.
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Moacir Gadotti, Doutor em Ciências da Educação pela
Universidade de Genebra (Suíça), professor titular da
Universidade de São Paulo (Brasil) e diretor do Instituto Paulo
Freire (São Paulo). Escvreveu diversos livros, entre eles
Reading Paulo Freire: His Life and Work (Albany: State
University of New York Press, 1994), traduzido em Japonês,
espanhol, italiano e português; Pedagogy of Praxis: a
Dialectical Philosophy of Education, com um prefácio de
Paulo Freire (Albany: State University of New York Press, 1996)
também traduzido para o espanhol; History of Pedagogical
Ideas, traduzido para o espanhol e Paulo Freire: Uma
Biobibliografia (Sao Paulo: Instituto Paulo Freire and
Cortez Editora, 1996), traduzido para o espanhol (Ciudad de
Mexico: Siglo XXI, 1999). Com mais de 780 páginas é o trabalho
mais completo sobre Paulo Freire.
FÓRUM PAULO FREIRE - III Encontro
Internacional
Tema
Geral: Educação: o sonho possível.
Paulo Freire e o futuro da humanidade
Los Angeles, 18 a 21 de setembro de 2002
PAULO FREIRE E A CULTURA DA JUSTIPAZ

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