|
|
Boniteza de um sonho - Aprender e
ensinar com sentido
Moacir Gadotti
A beleza existe em todo lugar. Depende do nosso olhar, da nossa
sensibilidade; depende da nossa consciência, do nosso trabalho e
do nosso cuidado. A beleza existe porque o ser humano é capaz de
sonhar.
Inspirei-me em Paulo Freire para
escrever esse livro. Paulo Freire nos fala em sua Pedagogia da
autonomia da “boniteza de ser gente”[1],
da boniteza de ser professor. Coloquei um título que fala de
sonho e de sentido que querem dizer a mesma coisa. “Sentido”
quer dizer caminho não percorrido mas que se deseja percorrer,
portanto, significa projeto, sonho, utopia. Aprender e ensinar
com sentido é aprender e ensinar com um sonho na mente. A
pedagogia serve de guia para realizar esse sonho.
Paulo Freire, em 1980, logo após voltar de 16
anos de exílio, reuniu-se com um grande número de professores em
Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Falou-lhes de esperança,
de “sonho possível”, temendo por aqueles e aquelas que “pararem
com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de
denunciar e de anunciar”, aqueles e aquelas que, “em lugar de
visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo
engajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, que em lugar
desta viagem constante ao amanhã, se atrelem a um passado de
exploração e de rotina”[2].
Dezessete anos depois, em 1997, em
seu último livro, lançado duas semanas antes de falecer, ele se
mantinha fiel à mesma linha de pensamento, reafirmando o sonho e
a utopia diante da “malvadez neoliberal”, diante do “cinismo de
sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à
utopia”[3].
Denúncia de um lado, anúncio de outro: a sua “pedagogia da
autonomia” frente à pedagogia neoliberal.
Lembrando os cinco anos da morte de
Freire, nesse pequeno livro[4],
quero retomar o que ele disse e entender o seu significado no
contexto de hoje. Paulo Freire nos falava da “boniteza” do sonho
de ser professor de tantos jovens desse planeta. Se o sonho
puder ser sonhado por muitos[5]
deixará de ser um sonho e se tornará realidade.
A realidade, contudo, é muitas vezes
bem diferente do sonho. Muitos de meus alunos e alunas, seja na
Pedagogia, seja na Licenciatura, não pensam em se dedicar às
salas de aula. Muito revelam desinteresse em seguir a carreira
do magistério, mesmo estando num curso de formação de
professores. Pesam muito nesse decisão as condições concretas do
exercício da profissão. Preparam-se para ser professor e irão
exercer outra profissão.
O brasileiro desvaloriza o professor. É o que
se poderia deduzir de um dito que se tornou popular nas últimas
décadas não Brasil: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. É
sinistro. Essa destruição da imagem do professor irá custar
muito caro, dizia já em 1989, o jornalista Leonardo Trevisan[6]:
“Todos dizem que gostam muito dos professores, mas não chegam a
incomodar-se muito com o fato de que há tempos eles recebem um
salário de fome. O salário é a parte mais visível de uma
condição – da qual decorre um papel social que se
descaracterizou por completo... Só quem não quer ver não percebe
o sentimento de cansaço, de esgotamento de expectativas de quem
encarava com dignidade o seu desempenho profissional”.
A situação vem se arrastando há anos. Tenho 41
anos de magistério e não tenho visto grandes melhorias. Ao
contrário, tenho ouvido muitas promessas. As melhorias existem
aqui e acolá, mas são pontuais e localizadas – servem apenas de
exemplo – são conjunturais e não estruturais, são provisórias,
passageiras e não permanentes. Correspondem a uma política de
governo e não a uma política pública de estado.
Por isso continuo me perguntando:
“Por que sou professor?” É uma pergunta que ouço com freqüência
também entre meus pares.
A resposta talvez possa ser
encontrada numa mensagem deixada por um prisioneiro de campo de
concentração nazista na qual, depois de viver todos os horrores
da Guerra[7]
– “crianças envenenadas por médicos diplomados; recém-nascidos
mortos por enfermeiras treinadas; mulheres e bebês fuzilados e
queimados por graduados de colégios e universidades” – ele pede
aos professores que “ajudem seus alunos a tornarem-se humanos”,
simplesmente humanos. E termina: “ler, escrever e aritmética só
são importantes para fazer nossas crianças mais humanas”.
Talvez esteja aí a chave para entender a crise
que vivemos: perdemos o sentido do que fazemos, lutamos por
salário e melhores condições de trabalho sem esclarecer a
sociedade sobre a finalidade de nossa profissão, sem justificar
porque estamos lutando.
O que me leva agora a escrever esse
pequeno livro é justamente esse imperativo histórico e
existencial que me obriga a colocar a questão do sentido do que
estou fazendo. Qual é o papel do educador, da escola, da
educação? O que um professor pode fazer, o que ele deve fazer, o
que é possível fazer?
Em inúmeras conferências que tenho
feito a professores, professoras, por este país e fora dele,
além de constatar um grande mal-estar entre os docentes,
misturado a decepções, irritação, impaciência, ceticismo,
perplexidade, paradoxalmente, existe ainda muita esperança. A
esperança ainda alimenta essa difícil profissão. Há uma ânsia
por entender melhor porque está tão difícil educar hoje, fazer
aprender, ensinar, ânsia para saber o que fazer quando todas as
receitas governamentais já não conseguem responder. A maioria
dessas professoras - elas são a quase totalidade - com a
diminuição drástica dos salários, com a desvalorização da
profissão e a progressiva deterioração das escolas – muitas
delas têm hoje cara de presídio - procuram cada vez mais cursos
e conferências, para buscar na formação continuada uma resposta
que não encontraram na formação inicial.
Poucas são as vezes em que encontram
resposta nesses cursos. Na sua maioria, ou encontram receitas
tecnocráticas que causam ainda maior frustração, ou encontram
profissionais da “pedagogia da ajuda” que encantam com suas
belas e sedutoras palavras, fazer rir enormes platéias numa
catarse coletiva. E voltam vazios como entraram depois de
assistirem ao show desses falsos pregadores da palavra. Voltam
com a mesma pergunta: “O que estou fazendo aqui?” – “Por que não
procuro outro trabalho?” – “Para que sofrer tanto?” – “Por que,
para que ser professor?”.
Se, de um lado, a mudança nas condições
objetivas das nossas escolas não depende apenas da nossa atuação
como profissionais da educação, de outro lado, não creio que sem
uma mudança na própria concepção da nossa profissão essas
mudanças não ocorrerão tão cedo. Enquanto não construirmos um
novo sentido para a nossa missão, sentido esse que está ligado à
missão da escola na sociedade aprendente, esse vazio, essa
perplexidade, essa crise, deverão continuar.
Em sua essência, ser professor hoje,
não é nem mais difícil nem mais fácil do que era há algumas
décadas atrás. É diferente. Diante da velocidade com que a
informação se desloca, envelhece e morre, diante de um mundo em
constante mudança, seu papel vem mudando, senão na essencial
tarefa de educar, pelo menos na tarefa de ensinar, de conduzir a
aprendizagem e na sua própria formação que se tornou
permanentemente necessária.
As novas tecnologias criaram novos espaços do
conhecimento. Agora, além da escola, também a empresa, o espaço
domiciliar e o espaço social, tornaram-se educativos. Cada dia
mais pessoas estudam em casa pois podem, de casa, acessar o
ciberespaço da formação e da aprendizagem a distância, buscar
“fora” – a informação disponível nas redes de computadores
interligados – serviços que respondem às suas demandas de
conhecimento. Por outro lado, a sociedade civil (ONGs,
associações, sindicatos, igrejas...) está se fortalecendo, não
apenas como espaço de trabalho, mas também como espaço de
difusão de conhecimentos.
Na formação continuada necessita-se de maior
integração entre os espaços sociais (domiciliar, escolar,
empresarial...) visando a equipar o aluno para viver melhor na
sociedade do conhecimento. Como previa Herbert McLuhan, na
década de 60[8],
o planeta tornou-se a nossa sala de aula e o nosso endereço. O
ciberespaço rompeu com a idéia de tempo próprio para a
aprendizagem. O espaço da aprendizagem é aqui, em qualquer
lugar; o tempo de aprender é hoje e sempre.
Hoje vale tudo
para aprender. Isso vai além da “reciclagem” e da atualização de
conhecimentos e muito mais além da “assimilação” de
conhecimentos. A sociedade do conhecimento é uma sociedade de
múltiplas oportunidades de aprendizagem. As conseqüências para a
escola, para o professor e para a educação em geral são enormes:
ensinar a pensar; saber comunicar-se; saber pesquisar; ter
raciocínio lógico; fazer sínteses e elaborações teóricas; saber
organizar o seu próprio trabalho; ter disciplina para o
trabalho; ser independente e autônomo; saber articular o
conhecimento com a prática; ser aprendiz autônomo e a distância.
Nesse contexto, o
professor é muito mais um mediador do conhecimento, diante do
aluno que é o sujeito do sua própria formação. O aluno precisa
construir conhecimento a partir do que faz. Para isso o
professor também precisa ser curioso, buscar sentido para o que
faz e apontar novos sentidos para o quefazer dos seus alunos.
Ele deixará de ser um “lecionador”[9]
para ser um organizador do conhecimento e da aprendizagem.
Em resumo, poderíamos dizer que ele se tornou
um aprendiz permanente, um construtor de sentidos, um
cooperador, e, sobretudo, um organizador da aprendizagem. Se
falamos do professor de adultos e do professor de cursos a
distância, esses papéis são ainda mais relevantes. De nada
adiantaria ensinar se os alunos não conseguirem organizar o seu
trabalho, serem sujeitos ativos da aprendizagem,
auto-disciplinados, motivados.
“Ser professor”, não será “um ofício em risco
de extinção”, pergunta-se Luiza Cortesão[10].
Um certo professor está em risco de extinção. O funcionário da
eficácia e da competitividade pode existir mas terá se demitido
da sua função de professor. Diz ela que há hoje uma evidente
contradição entre o professor em branco e preto, o professor
“monocultural”, bem formado, seguro, claro, paciente,
trabalhador e distribuidor de saberes, eficiente, exigente e o
professor “intermulticultural” que não é um “daltônico
cultural”, que dá-se conta da heterogeneidade, capaz de
investigar, de ser flexível e de recriar conteúdos e métodos,
capaz de identificar e analisar problemas de aprendizagem e de
elaborar respostas às diferentes situações educativas. Um não se
pergunta porque ser professor. Simplesmente cumpre ordens,
currículos, programas, pedagogias. Outro questiona-se sobre seu
papel. Um está centrado nos conteúdos curriculares e outro no
sentido do seu ofício. Sim, um certo professor está em risco de
extinção.
- O que é ser professor hoje?
- Ser professor hoje é viver intensamente o
seu tempo com consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar
um futuro para a humanidade sem educadores. Os educadores, numa
visão emancipadora, não só transformam a informação em
conhecimento e em consciência crítica, mas também formam
pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra, dos
marqueteiros, eles são os verdadeiros “amantes da sabedoria”, os
filósofos de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber -
não o dado, a informação, o puro conhecimento - porque constróem
sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam,
juntos, um mundo mais justo, mas produtivo e mais saudável para
todos. Por isso eles são imprescindíveis.
1 - Crise de identidade, crise de sentido
Tenho lido que o professor é “um profissional
em extinção”.
Dependendo do que isso significa até posso
concordar: um velho professor está realmente desaparecendo e
espero que nesse velho professor esteja nascendo um novo
professor. Não é a profissão que está morrendo. É uma profissão
que está renascendo. O professor não está morrendo, sua função
não está desaparecendo, mas ela está se transformando
profundamente, adquirindo uma nova identidade. E isso não é nada
novo, pois cada geração de professores constitui sua própria
identidade docente no contexto em que vive. Hoje o contexto é o
próprio mundo globalizado. O professor precisa hoje adequar sua
função, ensinar, educar no mundo globalizado[11].
Cícero traduziu “paidéia” (formação
integral do homem) por “humanitas” (formação da/para a
humanidade). Não há civilização sem professores. Não haverá uma
nova civilização sem uma nova formação dos professores. Não há
nação sem professores.
Escolher a profissão de professor não é
escolher uma profissão qualquer. Na maioria das vezes essa
escolha se dá por intuição. Muitas professoras, quando
perguntadas porque escolheram essa profissão respondem: “porque
gosto de criança”. É uma resposta correta e significativa, mas
ela não é levada em conta no seu processo de formação. Em geral,
a sua formação limita-se a aspectos técnico-pedagógicos e não
ético-políticos, que seriam mais afinados com os motivos da sua
escolha.
A
docência, como aprendizagem da relação, está ligada a um
profissional especial, um profissional do sentido, numa era em
que aprender é conviver com a incerteza. Daí a necessidade de se
refletir hoje sobre o novo papel do professor, as novas
exigências da profissão docente, principalmente da formação
continuada do professor, da professora.
Antes de mais nada, para entender a
crise de identidade dessa profissão é preciso colocar em
evidência as características atuais da profissão docente.
Estamos diante de uma profissão massificada, o que realça o
grande alcance dessa profissão e sua importância estratégica.
Como o conhecimento da humanidade duplica em curto espaço de
tempo, ele obsolece rapidamente, não é mais imutável. Por isso,
hoje não tem mais sentido a existência de um profissional que se
limita a reproduzir o conhecimento e a cultura que outros
desenvolveram. O professor hoje precisa ser um profissional
capaz de criar conhecimento.
Estamos também diante de uma profissão
“genérica” (política). Não é um ofício específico pois o
professor precisa lutar contra a exclusão social, ser animador
de grupos, organizar o trabalho e a aprendizagem dele e dos
alunos; sua profissão tem relação com as estruturas sociais, com
a comunidade... enfim, ele é um profissional que precisa ter
muita autonomia e exercer muita liderança. Existem
características comuns a qualquer docente independentemente da
matéria que leciona, o que torna essa profissão muito homogênea,
não importando o grau de ensino on
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
de esteja trabalhando. A
competência genérica da profissão está sobretudo em seu saber
político-pedagógico.
Por isso, é preciso ter cuidado especial
quando se fala em “especialista” na educação. É claro que
existem saberes e competências específicas, mas separá-las
burocraticamente é um equívoco que tem custado caro aos sistemas
educacionais, tornando-os inflexíveis, apesar das declarações em
contrário. Como diz Mário Osório Marques[12]
“a especificidade da formação do pedagogo da identidade da
escola exige não se confunda ela com a formação de um
especialista a mais, como se a questão fosse simplesmente a da
divisão do trabalho e não, muito mais, a da articulação da ação
comunitativa/coletiva. Mas, por outra parte, não se requer um
generalista ou superpedagogo a ser colocado num pedestal de
autoridade, ou em posição de mando, nem mesmo na situação de
simples assessoria técnica. Não se trata de alguém detentor de
um saber hierárquico”.
Uma terceira característica marcante dessa
profissão: ela é constituída predominantemente de mulheres. Uma
grande força numa época em que a mulher está exercendo um papel
cada vez mais protagonista, inserido-se cada vez mais na vida
social, política e econômica das sociedades mais avançadas. A
participação da mulher na sociedade é indicador de avanço social
e de desenvolvimento humano.
Finalmente, não há como negar: somos
profissionais de baixa renda. Não há nada de positivo nisso.
Mas, pensando numa “civilização do oprimido”, como costuma nos
dizer José Eustáquio Romão, esse profissional pode ter, por essa
característica, um potencial revolucionário que outras
profissões não têm, já que é uma profissão voltada para a
emancipação das pessoas. A mudança vem “dos debaixo”, como
sustentava Florestan Fernandes.
Uma pesquisa de Eurize Caldas
Pessanha[13]
mostra que a professora primária era uma categoria profissional
“filiada” às “camadas médias” da população. Ela foi um “nicho
ideal para as mulheres dos estratos mais altos das camadas
medias urbanas por ser uma profissão situada do lado do trabalho
não-manual na divisão social do trabalho. No entanto, atualmente
esses estratos parecem ter outras aspirações, e são o estrados
mais baixos que desejam ter professores primários na família”,
diz a professora da Marli André, na apresentação desse livro.
Para Eurize Caldas Pessanha[14],
“o trabalho de professor, na forma em que se apresenta hoje, é
um trabalho não-manual, assalariado, num setor não-produtivo,
embora socialmente útil, da atividade humana. Sendo necessário
também lembrar o fato de ser assalariado, funcionário do Estado
ou de um serviço que, embora mantido por empresas privadas, é
considerado um serviço ‘público’”. É esse serviço público que
coloca o professor em pé de igualdade, esteja ele no ensino
superior ou no fundamental, no setor público ou no setor
privado.
Parece que todos hoje estão de acordo
quando se trata da necessidade de mudança. A maioria afirma que
a profissão docente deve mudar - sobretudo em função da
complexidade da nova sociedade - mas não se diz como, nem porque
e para onde devemos mudar. Daí, como diz Francisco Imbernón[15],
“não é de admirar que nos últimos tempos não apenas o professor,
mas também as instituições educacionais passem uma sensação de
desorientação que faz parte da confusão que envolve o futuro da
escola e o grupo profissional”. Onde há desorientação há falta
de sentido. As respostas à crise são sempre na direção da
mudança, ou melhor, da formação para a mudança. Mas esse não é
um discurso novo[16].
Há consenso quando se afirma que nossa
profissão deve abandonar a concepção predominante no século XIX
de mera transmissão do saber escolar. O professor não pode ser
um mero executor do currículo oficial e a educação já não é mais
propriedade da escola, mas de toda a comunidade. O professor, a
professora precisam assumir uma postura mais relacional,
dialógica, cultural, contextual e comunitária. Durante muito
tempo a formação do professor era baseada em “conteúdos
objetivos”. Hoje o domínio dos conteúdos de um saber específico
(científico e pedagógico) é considerado tão importante quanto as
atitudes (conteúdos atitudinais).
A educação do futuro deverá se aproximar mais
dos “aspectos éticos, coletivos, comunicativos, comportamentais,
emocionais... todos eles necessários para se alcançar uma
educação democrática dos futuros cidadãos”[17].
Isso implica novos saberes[18],
entre eles, saber planejar, saber organizar o currículo, saber
pesquisa, estabelecer estratégias para formar grupos, para
resolver problemas, relacionar-se com a comunidade, exercer
atividades sócio-antropológicas, etc.
Como a mudança nas pessoas é muito lenta, o
novo profissional que recebeu uma formação “atrasada”, centrada
no saber escolar, é tentado a desistir. Antes, a transmissão do
conhecimento era facilmente medida. Agora, como o professor não
foi preparado para trabalhar com conteúdos atitudinais, ele
desiste.
Essas mudanças essenciais para a formação
inicial e continuada da professora, supõem uma nova cultura
profissional. O maior desafio desta profissão está na mudança de
mentalidade que precisa ocorrer tanto no profissional da
educação quanto na sociedade e, principalmente, nos sistemas de
ensino. A noção de qualidade precisa mudar profundamente: a
competência profissional deve ser medida muito mais pela
capacidade do docente estabelecer relações com seus alunos e
seus pares, pelo exercício da liderança profissional e pela
atuação comunitária, do que na sua capacidade de “passar
conteúdos”.
E uma nova cultura profissional implica uma
redefinição dos sistemas de ensino e das instituições escolares.
Mas essa redefinição não virá de cima, do próprio sistema. Ele
é, por essência, conservador. A mudança do sistema deve partir
do professor e de uma nova concepção do seu papel. Daí a
importância estratégica de discutir hoje o novo papel do
professor. Daí a importância de uma redefinição da profissão
docente, de uma nova concepção do papel do professor.
Nesse sentido, no contexto atual, podemos
identificar e confrontar duas concepções opostas da profissão
docente: a concepção neoliberal e a concepção emancipadora. A
primeira, amplamente dominante hoje, concebe o professor como um
profissional lecionador, avaliado individualmente e isolado na
profissão (visão individualista); a segunda considera o docente
como um profissional do sentido, um líder, um organizador da
aprendizagem (visão social).
- Por que falamos de uma concepção
“emancipadora”?
- Porque o papel da educação, na concepção que
defendemos, é emancipar as pessoas, ou, como diz Francisco
Imbernón, “o objetivo da educação é ajudar a tornar as pessoas
mais livres, menos dependentes do poder econômico, político e
social. A profissão de ensinar tem essa obrigação intrínseca”[19].
Numa concepção emancipadora da educação, a
profissão docente tem um componente ético essencial. Sua
especificidade está no compromisso ético com a emancipação das
pessoas. Não é uma profissão meramente técnica. A competência do
professor não se mede pela sua capacidade de ensinar – muito
menos “lecionar” – mas pelas possibilidades que controi para que
as pessoas possam aprender, conviver e viverem melhor.
2 -
Formação continuada do professor
A formação do profissional da educação está
diretamente relacionada com o enfoque, a perspectiva, a
concepção mesma que se tem da sua formação e de suas funções
atuais. Para nós, a formação continuada do professor deve ser
concebida como descoberta, organização, fundamentação, revisão e
construção teórica e não como mera aprendizagem de novas
técnicas, atualização em novas receitas pedagógicas ou
aprendizagem das últimas inovações tecnológicas.
A nova formação permanente, segundo essa
concepção, inicia-se pela reflexão crítica sobre a prática.
Examinar as teorias implícitas, estilos cognitivos, preconceitos
(hierarquia, sexismo, machismo, individualismo, intolerância,
exclusão...). Como diz Paulo Freire “na formação permanente dos
professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre
a prática”[20].
E essa reflexão crítica não se limita ao seu cotidiano na sala
de aula pois, como diz Francisco Imbernón a sua reflexão
“atravessa as paredes da instituição para analisar todo tipo de
interesses subjacentes à educação, à realidade social, com o
objetivo concreto de obter a emancipação das pessoas”[21].
Nesse sentido, deve-se realçar a importância
da troca de experiências entre pares, através de relatos de
experiências, oficinas, grupos de trabalho: “Quando os
professores aprendem juntos, cada um pode aprender com o outro.
Isso os leva a compartilhar evidências, informação e a buscar
soluções. A partir daqui os problemas importantes das escolas
começam a ser enfrentados com a colaboração entre todos”[22].
Na formação continuada do professor outro eixo
importante é o da discussão do projeto político-pedagógico da
escola[23],
a elaboração de projetos comuns de trabalho de cada área de
interesse do professor, frente a desafios, problemas e
necessidades de sua prática. É preciso formar-se para a
cooperação. Como diz Francisco Imbernon[24]
“a colaboração, mais que uma estratégia de gestão, é uma
filosofia de trabalho”. Os sistemas de ensino investem na
formação individual (individualista?) do professor quando o mais
importante é a formação para um projeto comum de trabalho, a
formação política do professor. Mais do que uma formação
técnica, a função do professor necessita de uma formação
política para exercer com competência a sua profissão.
Em síntese, a nova formação do professor deve
estar centrada na escola sem ser unicamente escolar, sobre as
práticas escolares dos professores, desenvolver na prática um
paradigma colaborativo entre os profissionais da educação. A
nova formação do professor deve basear-se no diálogo e visar à
redefinição de suas funções e papéis, à redefinição do sistema
de ensino e à construção continuada do projeto
político-pedagógica da escola.
Muito sofrimento da professora, do
professor, poderia ser evitado se a formação inicial e
continuada da professora fosse outra, se ela aprendesse menos
técnicas e mais atitudes, hábitos, valores. Antes de se
perguntar o que deve saber para ensinar, a professora deve se
perguntar porque ensinar e como devo ser para ensinar. Muita dor
poderia ser evitada se o professor, a professora, aprendessem
melhor a organizar o seu trabalho e o de seus alunos e alunas,
se tivessem aprendido a aprender de forma cooperativa: o
individualismo da profissão mata de ansiedade e angústia, leva
ao sofrimento e até ao martírio do professor compromissado e à
desistência daquele que perdeu a esperança.
Para evitar o martírio e a desistência é que
os sistemas escolares e as escolas necessitam de uma ajuda
externa, de uma assessoria pedagógica. Não para fazer o trabalho
delas. Minha experiência me mostrou que a assessoria deve apenas
ajudar a escola a inovar. Nós não devemos “implantar” inovações
de fora, por melhores e mais bem intencionados que sejam os
“amigos da escola”. A escola é que deve ser protagonista e não
os assessores. Toda inovação que vem de fora está fadada ao
fracasso. Vejam-se os numerosos exemplos de “implantação” de
inovações feitas pelos sistemas de ensino, mera determinação
exterior, artificial e separada dos contextos pessoais e
institucionais em que trabalham os profissionais da educação nas
escolas.
A experiência do Instituto Paulo Freire nos
mostrou, por exemplo, que o seu Projeto da Escola Cidadã,
iniciado pelo saudoso Paulo Freire logo depois de haver deixado
a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em 1991, não
pode ser “implantado” sob pena de fracassar. Todo professor é e
deve ser, necessariamente, um mau “implantador” de idéias dos
outros. E é ótimo que assim seja, porque ele deve ser autônomo,
ele precisa assumir, construir e conquistar sua autonomia
profissional. O que a assessoria externa pode fazer é propor uma
colaboração na identificação das necessidades e construir, com
eles, as respostas a essas necessidades. Para isso, precisamos
dispor de estratégias. Envolver a comunidade interna e externa
da escola é essencial para qualquer inovação.
O agente protagonista é o profissional da
escola. O assessor, como guia e mediador entre iguais, amigo
crítico, “deveria intervir a partir das demandas dos professores
ou das instituições educacionais com objetivo de auxiliar no
processo de resolver os problemas ou situações problemáticas
profissionais que lhes são próprios”[25].
Por isso, “a comunicação, o conhecimento da prática, a
capacidade de negociação, o conhecimento de técnicas de
diagnóstico, de análise de necessidades, o favorecimento da
tomada de decisões e o conhecimento da informação, são
temas-chave na assessoria”[26].
Pela legislação
brasileira hoje a formação continuada do professor em serviços é
um direito. Contudo, para que esse direito seja exercido na
prática, creio que são necessárias algumas pré-condições, entre
elas:
1ª direito a pelo menos 4 horas semanais de
estudo com os colegas, não com especialistas de fora, para
refletirem sobre a sua própria prática, dividirem dúvidas e
resultados obtidos;
2º possibilidade de freqüentar cursos
seqüenciais aprofundados em estudos regulares sobretudo sobre o
ensino das disciplinas ou campos do conhecimento de cada
professor;
3º acesso à bibliografia atualizada;
4º possibilidade de sistematizar sua
experiência e escrever sobre ela, publicando os resultados em
revistas e livros;
5º possibilidade de participar e expor sua
experiência em congressos educacionais.
A professora, o professor, podem ter um papel
mais decisivo na construção de um novo paradigma civilizatório
se entenderem de outra forma o seu papel na sociedade do
conhecimento e educarem para a humanidade. Eles e elas podem ter
um poder como nunca tiveram na sociedade. E como o poder nunca é
doado, mas é conquistado, as entidades de professores têm uma
enorme responsabilidade nesse processo de nova formação inicial
e continuada dos profissionais da educação.
O mundo hoje é favorável às mudanças sonhadas
por educadores como Antonio Gramsci, que entendia o educador
como um intelectual organizador da cultura, Paulo Freire, que
defendia o diálogo como essência da educação e Florestan
Fernandes, que sustentava que a emancipação só poderia vir a
partir da organização “dos debaixo”. A nova pedagogia para a
educação da humanidade não é apenas uma pedagogia da
resistência, mas, sobretudo, uma pedagogia da esperança e da
possibilidade.
3 - Ser professor na sociedade aprendente
Em 2001 fiz uma enquete com os meus alunos da
Licenciatura da Faculdade de Educação da USP perguntando quais
seriam os saberes necessários à profissão docente hoje. Eis o
que eles me responderam. Para ser professor é necessário: “ter
uma concepção de educação; ter uma formação política, ética,
isto é, ter compromisso; respeitar as diferenças; ter uma
formação continuada; ser tolerante diante de atitudes, posturas
e conhecimentos diferentes; preparar-se para o erro e a
incerteza; ter autonomia didático-pedagógica; ter domínio do
saber específico que leciona; ser reflexivo e crítico; saber
relacionar-se com os alunos; ter uma formação geral, polivalente
e transversal”. Enfim... fazer da profissão um projeto de vida.
Hoje fala-se muito mais de competências do que
de saberes. Virou moda falar de “novas competências”[27]
ou do “enfoque por competências”, que lembra um pouco o debate
da década de 80 entre “competência técnica” e “compromisso
político”.
Como em toda moda, em toda ideologia, ela tem
um fundamento. Por isso, é preciso buscar, nesse “senso comum”,
o “bom senso”, como queria Antonio Gramsci. É preciso reconhecer
que o contexto atual coloca novos desafios para a escola, para o
ensino, o professor, o aluno, etc[28].
O professor precisa saber organizar o seu trabalho e orientar o
do aluno a organizar o seu, saber trabalhar em equipe,
participar da gestão da escola, envolver os pais, utilizar novas
tecnologias, ser ético, continuar sua formação... mas esses
saberes não foram desde sempre os saberes necessários à prática
educativa?
Paulo Freire preferia falar de
“saberes” e não de competências, uma palavra associada à
tradição utilitarista, tecnocrática, ao mundo da empresa, à
economia, à competitividade (ao mundo do trabalho neoliberal), à
eficiência, à racionalização, à avaliação... Por isso ele fala
de “saberes necessários à prática educativa” em seu último livro[29].
As profissões que dependem
inteiramente da tecnologia (o torneiro mecânico, por exemplo)
estão vendo suas “competências e habilidades” se transformarem
rapidamente. O professor, para o exercício das suas funções não
depende exclusivamente da tecnologia. Nem tudo muda para ele
mudando a tecnologia que utilizar. No novo contexto de
impregnação da informação ele precisa continuar sua formação ao
longo de toda a vida e “saber ser, saber aprender, saber
conviver, saber fazer”, como diz a UNESCO[30].
Mas precisa continuar, como sempre, “saber porque” está
ensinando e o que está ensinando, precisa “saber pensar”[31],
necessita associar ensino, pesquisa e envolvimento comunitário.
Pesquisar faz parte da própria “natureza da prática docente”,
como diz Paulo Freire: “Fala-se hoje, com insistência”, diz ele,
“no professor pesquisador. No meu entender o que há de
pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser
ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da
natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O
de que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor
se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador”[32].
Alguns confundem competência com
habilidade, mas competência não é habilidade: o professor pode
ser competente, ter conhecimentos profundos de uma determinada
disciplina e não ter habilidades práticas para o ensino, não
saber ensinar. A educação não é só ciência, mas é também arte. O
ato de educar é complexo. O êxito do ensino não depende tanto do
conhecimento do professor, mas da sua capacidade em “fazer
aprender” e da sua disponibilidade, de seu projeto de vida de
continuar aprendendo.
Nesse contexto devemos destacar as
“competências de vida” ou os “saberes de experiência feitos”,
como costumava dizer Freire. As competências de vida que não se
enquadram nas competências dos campos profissionais específicos.
A questão das competências está ligada ao tema como aprendemos.
Aprendemos atuando, empreendendo, agindo. A ação gera saber,
habilidade, conhecimento. Agindo, por exemplo, aprendemos
técnicas e métodos sobre “como fazer”. E, muitas vezes, por não
termos sido formados para reconhecer essas competências, não
sabemos ensinar como fazemos, como chegamos a ter êxito no que
fazemos.
Paulo Freire foi um mestre do
respeito desse saber, dessas competência de vida. Para ele
aprender era conhecer melhor o que já se sabe para poder ter
acesso a novos conhecimentos. Essa não era apenas uma técn
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
ica
pedagógica mas um ato pedagógico e uma concepção de vida que
parte do acolhimento, com respeito, de um ser que conhecer e
quer aprender mais.
Há um movimento, sobretudo na Europa,
para reconhecer (certificar) as competências das pessoas
(sobretudo adultas) que não passaram pela certificação da
escola. Qual o sentido do reconhecimento das competências de
vida das pessoas?
Creio que essa certificação só faz sentido se
não for burocrática, isto é, se valorizar a capacidade de
aprender das pessoas. Reconhecer uma competência ou habilidade
estimula e motiva as pessoas a continuar aprendendo, a “pensar a
sua prática para transformá-la”, como queria Freire.
O surgimento desse debate em torno da
certificação de todas as competências das pessoas não deve ser
encarado como algo negativo e a serviço do controle social.
Creio que é uma clara manifestação do surgimento de uma nova
sociedade, de uma sociedade essencialmente aprendente.
A sociedade contemporânea está
marcada pela questão do conhecimento. E não é por acaso. O
conhecimento tornou-se peça chave para entender a própria
evolução das estruturas sociais, políticas e econômicas de hoje.
Fala-se muito hoje em sociedade do conhecimento, às vezes com
impropriedade. Mais do que a era do conhecimento, devemos dizer
que vivemos a era da informação, pois percebemos com mais
facilidade a disseminação da informação e de dados, muito mais
do que de conhecimentos. O acesso ao conhecimento é ainda muito
precário, sobretudo em sociedades com grande atraso educacional.
Como ser professor na sociedade
aprendente?
Hoje as teorias do conhecimento na
educação estão centradas na aprendizagem, no ato de aprender, de
conhecer.
- O que é conhecer?
Conhecer é construir categorias de pensamento,
é “ler o mundo e transformá-lo”, dizia Freire. Não é possível
construir categorias de pensamento como se elas existissem a
priori, independentemente do sujeito que conhece. Ao conhecer, o
sujeito do conhecimento reconstrói o que conhece.
- Como conhecer?
Só é possível conhecer quando se deseja,
quando se quer, quando nos envolvemos profundamente no que
apreendemos. No aprendizado, gostar é mais importante do que
criar hábitos de estudo, por exemplo. Hoje se dá mais
importância às metodologias da aprendizagem, às linguagens e às
línguas, do que aos conteúdos. A transversalidade e a
transdisciplinaridade do conhecimento é mais valorizada do que
os conteúdos longitudinais do currículo clássico.
Frente à disseminação e à generalização do
conhecimento, é necessário que a escola e o professor, a
professora, façam uma seleção crítica da informação, pois há
muito lixo e propaganda enganosa sendo veiculados. Não faltam,
também na era da informação, encantadores da palavra para tirar
algum proveito, seja econômico, seja religioso, seja ideológico.
Conhecer é importante porque a educação se
funda no conhecimento e o conhecimento na atividade humana. Para
inovar é preciso conhecer. A atividade humana é intencional, não
está separada de um projeto. Conhecer não é só adaptar-se ao
mundo. É condição de sobrevivência do ser humano e da espécie.
Antes de conhecer o sujeito se interessa
por... é “curioso”, é “esperançoso” (Freire). Daí a importância
do trabalho de sedução do professor, da professora, frente ao
aluno, à aluna. Daí a necessidade da motivação, do encantamento.
É preciso mostrar que “aprender é gostoso, mas exige esforço”,
como dizia Paulo Freire no primeiro documento que encaminhou aos
professores quando assumiu a Secretaria de Educação do Município
de São Paulo.
Certamente, para o professor ter êxito nessa
sociedade aprendente, o professor, a professora precisam ter
clareza sobre o que é conhecer, como se conhece, o que conhecer,
porque conhecer, mas um dos segredos do chamado “bom professor”
é trabalhar com prazer, gostando do que se faz. A gente faz
sempre bem o que gosta de fazer. Só é bem sucedido aquele ou
aquele que faz o que gosta.
4 - Aprender com emoção, ensinar com alegria
A educação é necessária para a
sobrevivência do ser humano. Para que ele não precise inventar
tudo de novo, ele precisa apropriar-se da cultura, do que a
humanidade já produziu. Educar é também aproximar o ser humano
do que a humanidade produziu. Se isso era importante no passado,
hoje é ainda mais decisivo numa sociedade baseada no
conhecimento.
O professor precisa saber, contudo,
que é difícil para o aluno perceber essa relação entre o que ele
está aprendendo e o legado da humanidade. O aluno que não
perceber essa relação não verá sentido naquilo que está
aprendendo e não aprenderá, resistirá à aprendizagem, será
indiferente ao que o professor estiver ensiando. Ele só aprende
quando quer aprender e só quer aprender quando vê na
aprendizagem algum sentido. Ele não aprende porque é “burrinho”.
Ao contrário, às vezes, a maior prova de inteligência
encontra-se na recusa em aprender.
Aprender vem de “ad” (junto de alguém ou algo)
e “praehendere” (tentar prender, agarrar, pegar). Aprendemos
porque somos seres incompletos: as tartarugas nascem “sabendo” o
que precisam. Nascem na praia sem a presença da mãe. Mesmo
assim, elas “sabem” que devem ir logo para o mar, caso contrário
podem acabar na boca de algum predador. Os seres humanos,
contudo, se abandonados, mesmo com alguns meses de vida, eles
morreriam. Nascem frágeis. Se os pais não os alimentam, morrem.
O que acontece conosco é que se o que
aprendemos não tem sentido, não atender alguma necessidade, não
“apreendemos”. O que aprendemos tem que “significar” para nós.
Alguma coisa ou pessoa é significativa quando ela deixa de ser
indiferente. Esquecemos o que aprendemos sem sentido, o que não
pode ser usado. Guardar coisa inútil é burrice. “O corpo aprende
para viver. É isso que dá sentido ao conhecimento. O que se
aprende são ferramentas, possibilidades de poder. O corpo não
aprende por aprender. Aprender por aprender é estupidez. Somente
os idiotas aprendem coisas para as quais eles não têm uso. É o
desafio vital que excita o pensamento”[33].
Todo ser vivo aprende na interação com o seu
contexto: aprendizagem é relação com o contexto. Quem dá
significado ao que aprendemos é o contexto. Por isso, para o
educador ensinar com qualidade, ele precisa dominar, além do
texto, o com-texto, além de um conteúdo, o significado do
conteúdo que é dado pelo contexto social, político, econômico...
enfim, histórico do que ensina. Nesse sentido, todo educador é
também um historiador.
Nós, educadores, precisamos ter
clareza do que é aprender, do que é “aprender a aprender”, para
entendermos melhor o ato de ensinar. Para nós, educadores, não
basta saber como se constrói o conhecimento. Nós precisamos
dominar outros saberes da nossa difícil tarefa de ensinar.
Precisamos saber o que é ensinar, o que é aprender e, sobretudo,
como aprender.
- O que é aprender?
Aprender não é acumular conhecimentos.
Aprendemos história não para acumular conhecimentos, datas,
informações, mas para saber como os seres humanos fizeram a
história para fazermos história. O importante é aprender a
pensar (a realidade, não pensamentos), aprender a aprender.
É o sujeito que aprende através da sua
experiência. Não é um coletivo que aprende. Aprende-se o que é
significativo para o projeto de vida da pessoa. Aprende-se
quando se tem um projeto de vida. Aprendemos a vida toda. Não há
tempo próprio para aprender.
E mais: é preciso tempo para aprender e para
sedimentar informações. Não dá para injetar dados e informações
na cabeça de ninguém. Exige-se também disciplina e dedicação.
Como diz Paulo Freire: “Quem ensina aprende ao ensinar e quem
aprende ensina ao aprender"[34].
Só aprendemos quando colocamos emoção
no que aprendemos. Por isso é necessário ensinar com alegria[35].
Nossas escolas continuam preocupadas em ensinar e não param para
pensar o que é ensinar, como se aprende, porque se aprende. “Dar
aulas” tem-se constituído na única preocupação da escola. Tudo
se resume na “aula”. Precisamos parar para pensar a escola,
pensar no que estamos fazendo. Pedro Demo acha inacreditável que
a escola prossiga meramente “dando aulas”, em vez de estar
cuidando da “aprendizagem de todos os estudantes”[36].
E assim, é cada vez mais difícil
manter-se na profissão, principalmente pelo desrespeito, pela
indisciplina, pelo desinteresse e pela violência que contamina
muitas de nossas escolas. Há muitos professores e professoras
que se sentem infelizes na escola e principalmente na sala de
aula. Falta interesse, falta disciplina, faltam objetivos
claros, enfim, falta sentido para o que ensinam. O aluno também
não vê sentido no que está aprendendo na escola. E vem a
pergunta desalentadora: “Para quê estou estudando isso,
professora?” - “Para que estudar?”.
Em muitas palestras que venho dando,
uma pergunta, dita de diversas maneira, me chega à mesa: “O que
devo fazer?” “O que o senhor faria no meu lugar?”.
O aluno quer saber, mas ele não quer
aprender, não quer aprender o que lhe é ensinado e nem como lhe
é ensinado. E o conflito, o desinteresse, a indisciplina, a
violência nas escolas está crescendo. A escola ensina num
paradigma e o aluno aprende num outro paradigma. O que fazer
diante do paradoxo: o aluno quer saber, mas não quer aprender?
A escola
precisa estar atenta às mudanças profundas que o contexto
midiático contemporâneo está provocando na cabeça de crianças e
jovens. Em média, no mundo, uma criança passa 4 horas diárias em
frente à televisão. No Brasil são 8 horas. Em média, no mundo, a
criança passa 8 horas diárias na escola. No Brasil são 4 horas.
E mais: os professores passam mais tempo com as crianças do que
os pais. Passamos muito tempo na escola, passamos muito tempo
diante da televisão.
A criança passa muito tempo sentada diante da
televisão porque sente prazer em ficar lá. O que o professor
fala não exerce o mesmo fascínio da TV. “Cada vez mais as
crianças chegam à escola transportando consigo a imagem de um
mundo – real ou fictício – que ultrapassa em muito os limites da
família e da comunidade de vizinhos. As mensagens mais variadas
– lúdicas, informativas, publicitárias – transmitidas pelos
meios de comunicação social entram em concorrência ou em
contradição com o que as crianças aprendem na escola. Estas
mensagens surgem sempre organizadas em rápidas seqüências o que,
em numerosas regiões do mundo, tem uma influência negativa sobre
a capacidade de manter a atenção, por parte dos alunos e,
portanto, sobre as relações na aula. Passando os alunos menos
tempo na escola do que diante da televisão, a seus olhos é
grande o contraste entre a gratificação instantânea oferecida
pelos meios de comunicação, que não lhes exige nenhum esforço, e
o que lhes é exigido para alcançarem sucesso na escola. Tendo
assim perdido, em grande parte, a preeminência que tinham na
educação, professores e escola encontram-se confrontados com
novas tarefas: fazer da escola um lugar mais atraente para os
alunos e fornecer-lhes as chaves de uma compreensão verdadeira
da sociedade da informação... O professor deve estabelecer uma
nova relação com quem está aprendendo, passar do papel de
‘solista’ ao de ‘acompanhante’, tornando-se não mais alguém que
transmite conhecimentos, mas aquele que ajuda os seus alunos a
encontrar, organizar e gerir o saber, guiando mas não modelando
os espíritos, e demonstrando grande firmeza quanto aos valores
fundamentais que devem orientar toda a vida”[37].
Essas considerações do Relatório para a UNESCO da Comissão
Internacional sobre Educação para o Século XXI me parecem muito
apropriadas para explicar as dificuldades enfrentadas hoje pelos
professores. São pistas para enfrentar a questão: “O que devo
fazer?” “O que o senhor faria no meu lugar?”. Mas, é claro, elas
não dão conta de toda a complexa questão do “saber ensinar”
Diante das dificuldades da prática
docente, do desencanto dos nossos alunos, muitos e muitas
professoras são vítimas da “síndrome da desistência”[38].
Ela é expressa na exaustão emocional provocada pelo aumento da
quantidade de trabalhos e pela despersonalização provocada pela
sua baixa valorização social e reduzida realização pessoal.
São essas dificuldades que nos levam à
pergunta de sempre: por que ser professor hoje? Qual é sentido
de ser professor hoje? Para que estou ensinando? Como deve ser o
novo professor?
Eis, em resumo, as respostas que tenho dado
com mais freqüência em minha falas, considerando o contexto da
globalização e da “nova globalização”[39]
emergente, que venho chamando de “planetarização”[40]
e a sociedade da informação que prefiro chamar de sociedade
aprendente.
1. O novo professor é um profissional
do sentido. Diante dos novos espaços de formação (diversas
mídias, ONGs, Internet, espaços públicos e privados,
associações, empresas, sindicatos, partidos, parlamento...), o
novo professor integra esses espaços e deixa de ser lecionador
para ser um gestor do conhecimento social (popular), o
profissional que seleciona a informação e dá/constrói sentido
para o conhecimento, um mediador do conhecimento[41].
O novo profissional da educação precisa
perguntar-se: por que aprender, para quê, contra quê, contra
quem. O processo de aprendizagem não é neutro. O importante é
aprender a pensar, a pensar a realidade e não pensar pensamentos
já pensados. Mas a função do educador não acaba aí: é preciso
pronunciar-se sobre essa realidade que deve ser não apenas
pensada, mas transformada.
Muitas vezes não vemos sentido no que
estamos ensinando. E nossos alunos também não vêem sentido no
que estão aprendendo. Numa época de incertezas, de
perplexidades, de transição, esse profissional deve construir
sentido com seus alunos. O processo ensino/aprendizagem deve ter
sentido para o projeto de vida de ambos para que seja um
processo verdadeiramente educativo. O grande mal-estar de muitos
de nossos professores e de nossas escolas está no “viver sem
sentido” do que estão fazendo. O ato educativo está
essencialmente ligado ao viver com sentido, à impregnação de
sentido para nossas vidas.
2. O novo professor é um profissional
que aprende em rede (ciberespaço da formação), sem hierarquias,
cooperativamente (saber organizar o seu próprio trabalho). É um
aprendiz permanente, um organizador do trabalho do aluno;
consciente, mas também sensível. Ele desperta o desejo de
aprender para que o aluno seja autônomo e se torne sujeito da
sua própria formação.
Por isso, o novo professor precisa desenvolver
habilidades de colaboração (trabalho em grupo,
interdisciplinaridade), de comunicação (saber falar, seduzir,
escrever bem, ler muito), de pesquisa (explorar novas hipóteses,
duvidar, criticar) e de pensamento (saber tomar decisões).
O enfoque da formação do novo professor deve
ser na autonomia e na participação, nas formas colaborativas de
aprendizagem. Diz Paulo Freire: “O bom professor é o que
consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do
movimento de seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não
uma ‘cantiga de ninar’. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam
porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento,
surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas”[42].
3. Ensinar é mobilizar o desejo de
aprender. Mais importante do que saber é nunca perder a
capacidade de aprender. “Saber é saborear”, diz Rubem Alves[43].
O novo profissional da educação deve romper o divórcio entre a
vida escolar e o prazer.
Para ensinar são necessárias principalmente
duas coisas:
a) gostar de aprender, ter prazer em
ensinar, como um jardineiro que cuida com emoção do seu jardim,
de sua roça;
b) amar o aprendente (criança,
adolescente, adulto). Só aprendemos quando aquilo que aprendemos
é “significativo” (Piaget) para nós e nos envolvemos
profundamente no que aprendemos.
O que aprendemos deve fazer parte do nosso
projeto de vida. É preciso gostar de ser professor (auto-estima)
para ensinar.
4. A ética é parte integrante da
competência do professor. Isso significa que um professor que
não é ético, não tem um sonho, uma utopia, não é comprometido...
não é competente. Não se pode educar sem um sonho. Aprende-se ao
longo de toda a vida, desde que tenhamos um projeto de vida.
Ética do “cuidado”[44],
da “amorosidade” (Freire).
A razão competente deve ser uma razão “molhada
de emoção” (Freire). O papel das emoções no processo de
aprendizagem é decisivo: razão e emoção não são instâncias
separadas no ser que aprende (Wallon). A emoção é parte do ato
de conhecer.
Em alemão educar significa cuidar,
acolher. Uma sociedade alucinada e ruidosa como a nossa não pode
educar porque não pode cuidar, não pode acolher. Nela não há
mais tempo para o cuidado, para o encontro, mas apenas para o
modo de vida trabalho ou exploração.
5. O novo professor é também um
profissional do encantamento. Num mundo de desencanto e de
agressividade crescentes, o novo professor tem um papel biófilo.
É um promotor da vida, do bem viver, educa para a paz e a
sustentabilidade. Não podemos abrir mão de uma antiga lição: a
educação é ao mesmo tempo ciência e arte. A arte é a “técnica da
emoção” (Vygotski). O novo profissional da educação é também um
profissional que domina a arte de reencantar, de despertar nas
pessoas a capacidade de engajar-se e mudar.
5 - Educar para uma vida sustentável
Três décadas de debates sobre “nosso futuro
comum” deixaram algumas pegadas ecológicas, tanto no campo da
economia, quanto no campo da ética, da política e da educação,
que podem nos indicar um caminho diante dos desafios do Século
XXI. A sustentabilidade tornou-se um tema gerador preponderante
neste início de milênio para pensar não só o planeta mas também
a educação; um tema portador de um projeto social global e capaz
de reeducar nosso olhar e todos os nossos sentidos, capaz de
reacender a esperança num futuro possível, com dignidade, para
todos.
O cenário não é otimista: podemos destruir
toda a vi
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
da no planeta neste milênio que se inicia. Uma ação
conjunta global é necessária, um movimento como grande obra
civilizatória de todos é indispensável para realizarmos essa
outra globalização, essa planetarização, fundamentada em outros
princípios éticos que não os baseados na exploração econômica,
na dominação política e na exclusão social. O modo pelo qual
vamos produzir nossa existência neste pequeno planeta, decidirá
sobre a sua vida ou a sua morte, e a de todos os seus filhos e
filhas.
Os paradigmas clássicos, fundados numa visão
industrialista predatória, antropocêntrica e
desenvolvimentista, estão se esgotando, não dando conta de
explicar o momento presente e de responder às necessidades
futuras. Necessitamos de um outro paradigma, fundado numa visão
sustentável do planeta Terra. O globalismo é essencialmente
insustentável. Ele atende primeiro às necessidades do capital e
depois às necessidades humanas. E muitas das necessidades
humanas a que ele atende, tornaram-se “humanas” apenas porque
foram produzidas como tais para servirem ao capital.
Precisamos de uma “Pedagogia da Terra”, uma
pedagogia apropriada para esse momento de reconstrução
paradigmática, apropriada à cultura da sustentabilidade e da
paz. Ela vem se constituindo gradativamente, beneficiando-se de
muitas reflexões que ocorreram nas últimas décadas,
principalmente no interior do movimento ecológico. Ela se
fundamenta num paradigma filosófico[45]
emergente na educação que propõe um conjunto de saberes/valores
interdependentes. Entre eles podemos destacar:
1º. Educar para pensar globalmente. Na era da
informação, diante da velocidade com que o conhecimento é
produzido e envelhece, não adianta acumular informações. É
preciso saber pensar. E pensar a realidade. Não pensar
pensamentos já pensados. Daí a necessidade de recolocarmos o
tema do conhecimento, do saber aprender, do saber conhecer, das
metodologias, da organização do trabalho na escola.
2º. Educar os sentimentos. O ser humano é o
único ser vivente que se pergunta sobre o sentido de sua vida.
Educar para sentir e ter sentido, para cuidar e cuidar-se, para
viver com sentido cada instante da nossa vida. Somos humanos
porque sentimos e não apenas porque pensamos. Somos parte de um
todo em construção.
3º. Ensinar a identidade terrena como condição
humana essencial. Nosso destino comum no planeta, compartilhar
com todos, sua vida no planeta. Nossa identidade é ao mesmo
tempo individual e cósmica. Educar para conquistar um vínculo
amoroso com a Terra, não para explorá-la, mas para amá-la.
4º. Formar para a consciência planetária.
Compreender que somos interdependentes. A Terra é uma só nação e
nós, os terráqueos, os seus cidadãos. Não precisaríamos de
passaportes. Em nenhum lugar na Terra deveríamos nos considerar
estrangeiros. Separar primeiro de terceiro mundo, significa
dividir o mundo para governá-lo a partir dos mais poderosos;
essa é a divisão globalista entre globalizadores e globalizados,
o contrário do processo de planetarização.
5º. Formar para a compreensão. Formar
para a ética do gênero humano, não para a ética instrumental e
utilitária do mercado. Educar para comunicar-se. Não comunicar
para explorar, para tirar proveito do outro, mas para
compreendê-lo melhor. A Pedagogia da Terra que defendemos
funda-se nesse novo paradigma ético e numa nova inteligência do
mundo. Inteligente não é aquele que sabe resolver problemas
(inteligência instrumental), mas aquele que tem um projeto de
vida solidário. Porque a solidariedade não é hoje apenas um
valor. É condição de sobrevivência de todos.
6º. Educar para a simplicidade e para
a quietude. Nossas vidas precisam ser guiadas por novos valores:
simplicidade, austeridade, quietude, paz, saber escutar, saber
viver juntos, compartir, descobrir e fazer juntos. Precisamos
escolher entre um mundo mais responsável frente à cultura
dominante que é uma cultura de guerra, do ruído, de
competitividade sem solidariedade, e passar de uma
responsabilidade diluída à uma ação concreta, praticando a
sustentabilidade na vida diária, na família, no trabalho, na
escola, na rua. A simplicidade não se confunde com a
simploriedade e a quietude não se confunde com a cultura do
silêncio. A simplicidade tem que ser voluntária como a mudança
de nossos hábitos de consumo, reduzindo nossas demandas. A
quietude é uma virtude, conquistada com a paz interior e não
pelo silêncio imposto.
É claro, tudo isso supõe justiça e
justiça supõe que todas e todos tenham acesso à qualidade de
vida. Seria cínico falar de redução de demandas de consumo,
atacar o consumismo, falar de consumismo aos que ainda não
tiveram acesso ao consumo básico. Não existe paz sem justiça.
Diante do possível extermínio do
planeta, surgem alternativas numa cultura da paz e uma cultura
da sustentabilidade. Sustentabilidade não tem a ver apenas com a
biologia, a economia e a ecologia. Sustentabilidade tem a ver
com a relação que mantemos conosco mesmos, com os outros e com a
natureza. A pedagogia deveria começar por ensinar sobretudo a
ler o mundo, como nos diz Paulo Freire, o mundo que é o próprio
universo, por que é ele nosso primeiro educador. Essa primeira
educação é uma educação emocional que nos coloca diante do
mistério do universo, na intimidade com ele, produzindo a emoção
de nos sentirmos parte desse sagrado ser vivo e em evolução
permanente.
Não entendemos o
universo como partes ou entidades separadas, mas como um todo
sagrado, misterioso, que nos desafia a cada momento de nossas
vidas, em evolução, em expansão, em interação. Razão, emoção e
intuição são partes desse processo, onde o próprio observador
está implicado. O Paradigma-Terra é um paradigma civilizatório.
E como a cultura da sustentabilidade oferece uma nova percepção
da Terra, considerando-a como uma única comunidade de humanos,
ela se torna básica para uma cultura de paz.
O universo não está lá fora. Está dentro de
nós. Está muito próximo de nós. Um pequeno jardim, uma horta, um
pedaço de terra, é um microcosmos de todo o mundo natural. Nele
encontramos formas de vida, recursos de vida, processos de vida.
A partir dele podemos reconceitualizar nosso currículo escolar.
Ao construí-lo e ao cultivá-lo podemos aprender muitas coisas.
As crianças o encaram como fonte de tantos mistérios! Ele nos
ensina os valores da emocionalidade com a Terra: a vida, a
morte, a sobrevivência, os valores da paciência, da
perseverança, da criatividade, da adaptação, da transformação,
da renovação. Todas as nossas escolas podem transformar-se em
jardins e professores-alunos, educadores-educandos, em
jardineiros. O jardim nos ensina ideais democráticos: conexão,
escolha, responsabilidade, decisão, iniciativa, igualdade,
biodiversidade, cores, classes, etnicidade, e gênero.
6 - Ser professor, ser educador
“Educadores, onde estarão?”,
pergunta Rubem Alves.
E ele mesmo responde: “Em que covas terão se
escondido? Professores, há aos milhares, mas professor é
profissão, não é algo que se define por dentro, por amor.
Educador, ao contrário, não é profissão, é vocação. E toda
vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança”[46].
E continua: “Com o advento da indústria como poderia o artesão
sobreviver? Foi transformado em operário de segunda classe, até
morrer de desgosto e saudade. O mesmo com os tropeiros, que
dependiam das trilhas estreitas e das solidões, que morreram
quando o asfalto e o automóvel chegaram. Destino igualmente
triste teve o boticário, sem recursos para sobreviver num mundo
de remédios prontos. Foi devorado no banquete antropofágico das
multinacionais”[47].
Rubem Alves é um emérito escritor,
psicanalista, educador respeitado, mas é sobretudo um semeador
de sonhos e de idéias que dão a pensar. Foi assim que introduziu
uma intrigante distinção entre ser professor e ser educador:
“Com o advento do utilitarismo a pessoa passou a ser definida
pela sua produção; a identidade é engolida pela função. E isto
se tornou tão arraigado que, quando alguém nos pergunta o que
somos, respondemos inevitavelmente dizendo o que fazemos. Com
essa revolução instaurou-se a possibilidade de se gerenciar e
administrar a personalidade, pois que aquilo que se faz e se
produz, a função, é passível de medição, controle,
racionalização. A pessoa praticamente desaparece, reduzindo-se a
um ponto imaginário em que várias funções são amarradas. É isto
que eu quero dizer ao afirmar que o nicho ecológico mudou. O
educador, pelo menos o ideal que minha imaginação constrói,
habita um mundo em que a interioridade faz uma diferença, em que
as pessoas se definem por suas visões, paixões, esperanças e
horizontes utópicos. O professor ao contrário, é funcionário de
um mundo dominado pelo Estado e pelas empresas. É uma entidade
gerenciada, administrada segundo a sua excelência funcional,
excelência esta que é sempre julgada a partir dos interesses do
sistema. Freqüentemente o educador é mau funcionário, porque o
ritmo do mundo do educador não segue o ritmo do mundo da
instituições. Não é de se estranhar que Rousseau tenha se
tornado obsoleto. Porque a educação que ele contempla ocorre
colada ao imprevisível de uma experiência de vida ainda não
gerenciada”[48].
E conclui mais a frente: “Talvez que um professor seja um
funcionário das instituições... O educador, ao contrário é um
fundador de mundos, mediador de esperanças, pastor de projetos.
Não sei como preparar o educador. Talvez que isto não seja nem
necessário nem possível... É necessário acordá-lo. E aí
aprenderemos que educadores não se extinguiram como tropeiros e
caixeiros”[49].
As reações às provocações de Rubem
Alves não se fizeram esperar. Suas teses geravam uma saudável
polêmica. O professor Jefferson Ildefonso da Silva sustenta que
existe um “falso dilema” entre educador e professor. Esse dilema
“se dilui e perde sua relevância ao se encarar a formação do
educador para além do âmbito pedagógico ou individualista, para
situá-lo na perspectiva de uma proposta e teoria pedagógica que
incorpore o caráter político da prática pedagógica e sua
dependência da práxis social global, onde se dá a luta
hegemônica das classes”[50].
Todo professor é, por função, educador. Para ele o educador é um
intelectual dirigente, orgânico. Numa sociedade dividida ele não
é neutro. Numa perspectiva emancipadora o educador é um
intelectual orgânico das classes populares, a favor dos
interesses das pessoas que necessitam de educação.
Com ele também concorda meu ex-aluno e amigo
Celso dos Santos Vasconcellos para o qual seria um contra-senso
pensar que a classe dominante se disponha a oferecer um ensino
popular de qualidade que desvende as relações de dominação
existentes na sociedade: “A escola para o povo só tem sentido
numa nova forma de organizar a sociedade. Não é possível fazer
uma escola para todos dentro de uma sociedade para alguns! Ou
seja, a democratização da escola precisa ser acompanhada de um
novo projeto social”[51].
Formar para e pela cidadania não pode limitar-se a uma formação
genérica para uma sociedade que não existe. Uma educação cidadã
precisa ser uma educação de classe.
Vasconcellos insiste na questão do
sentido da função docente. Ele sustenta que os educadores não
estão sabendo articular o “novo sentido” da sua profissão
sobretudo em função de seu desgaste profissional. Ele sustenta
que o que vai dar sentido à sua profissão é justamente “a
esperança de poder construir uma realidade diferente e de que a
escola pode contribuir para a concretização desta sociedade mais
humana. O mesmo movimento que recupera o sentido do trabalho do
professor é o que dá sentido ao estudo para o aluno. Estamos no
mesmo barco; daí a importância de ver no aluno – e na comunidade
– um aliado (e não um inimigo, como tem acontecido amiúde)”[52].
Vasconcellos insiste na necessidade do professor “ganhar” o
aluno para a “indispensável mudança que deve ocorrer: não se
trata mais de estudar simplesmente para poder garantir o seu
lugarzinho no bonde da história; trata-se, isto sim, de estudar
a fim de ganhar competência e ajudar a mudar o rumo deste bonde,
ou seja, ajudar a construir uma sociedade onde haja lugar para
todos!”[53]
e cita a seguir um artigo da Folha de S. Paulo, segundo o qual
“o Brasil logo terá dois tipos de pessoas: os que não comem,
porque não têm o que comer e os que não dormem, de medo dos que
não comem”.
Diante desse quadro o professor competente,
profissionalmente, não pode ficar indiferente. Porque ser
comprometido, engajar-se, ser ético, faz parte da sua
competência como professor. Como profissional do sentido, sua
profissão está ligado ao amor e à esperança. Ela não se
extinguirá enquanto houver espaço para a construção da
humanidade.
A esperança, para o professor, a
professora, não é algo vazio, de quem “espera” acontecer. Ao
contrário, a esperança para o professor encontra sentido na sua
própria missão, a de transformar pessoas, dar nova forma às
pessoas, e alimentar, por sua vez, a esperança delas para que
consigam construir uma realidade diferente, “mais humana, menos
feia, menos malvada”, como costumava dizer Paulo Freire. Uma
educação sem esperança não é educação.
A educação, nesse sentido, confunde-se com
processo de humanização. Respondendo à questão “como o professor
pode tornar-se um intelectual na sociedade contemporânea”, o
grande geógrafo brasileiro Milton Santos, falecido no ano de
2001, respondeu: “Quando consideramos a história possível e não
apenas a história existente, passamos a acreditar que outro
mundo é viável. E não há intelectual que trabalhe sem idéia de
futuro. Para ser digno do homem, qual seja, do homem visto como
projeto, o trabalho intelectual e educacional tem que ser
fundado no futuro. É dessa forma que os professores podem
tornar-se intelectuais: olhando o futuro”[54].
Pensar a educação do futuro e o futuro da
humanidade é pensar holisticamente, pensar a totalidade. E
educar holisticamente é estimular o desenvolvimento integral do
ser humano em sua totalidade pessoal - intelectual, emocional,
física - relacionada com a totalidade do mundo da vida - os
outros seres vivos, a comunidade, a sociedade - e a totalidade
cósmica: a Terra, o universo. Educar holisticamente é entender o
se humano como um ser que transcende, que ultrapassa todos os
limites, “até o último horizonte”, como diz Leonardo Boff[55].
O professor precisa indagar-se constantemente
sobre o sentido do que está fazendo. Se isso é fundamental para
todo ser humano, como ser que busca sentido o tempo todo, para
toda e qualquer profissão, para o professor é também um dever
profissional. Faz parte de sua competência profissional
continuar indagando, junto com seus colegas e alunos, sobre o
sentido do que estão fazendo na escola. Ele está sempre em
processo de construção de sentido. Como diz Celso Vasconcellos[56],
“o sentido não está pronto em algum lugar esperando ser
descoberto. O sentido não advém de uma esfera transcendente, nem
da imanência do objeto ou ainda de um simples jogo
lógico-formal. É uma construção do sujeito! Daí falarmos em
produção. Quem vai produzir é o sujeito, só que não de forma
isolada, mas num contexto histórico e coletivo (...). Ser
professor, na acepção mais genuína, é ser capaz de fazer o outro
aprender, se desenvolver criticamente. Como a aprendizagem é um
processo ativo, não vai se dar, portanto, se não houver
articulação da proposta de trabalho com a existência do aluno;
mas também do professor, pois se não estiver acreditando, se não
estiver vendo sentido naquilo, como poderá provocar no aluno o
desejo de conhecer?”
Celso Vasconcellos, um dos melhores alunos de
Paulo Freire, insiste, em seu belo livro que o papel do
professor é “educar através do ensino”[57].
Ele pode apenas ensinar tabuada, mas só educa através do ensino
quando construir o sentido da tabuada junto com seu aprendiz,
por que, como diz ele, ensinar vem do latim insignare, que
significa “marcar com um sinal”, atuar na construção do
significado do que fazemos. Tudo o que fazemos precisamos fazer
com sentido, tudo o que estudamos tem que ter sentido.
Os dois maiores educadores do século passado,
John Dewey e Paulo Freire, cada um a seu modo, procuraram
responder a essa questão e centraram suas análises na relação
entre “educação e vida”, reagindo às pedagogias tecnicistas do
seu tempo – tanto de esquerda quanto de direita – que só se
preocupavam com métodos e técnicas. “Gostaria de ser lembrando
como alguém que amou a vida”, disse Paulo Freire duas semanas
antes de falecer. A educação só tem sentido como vida. Ela é
vida. A escola perdeu seu sentido de humanização quando ela
virou mercadoria, quando deixar de ser o lugar onde a gente
aprende a ser gente, para tornar-se o lugar onde as crianças e
os jovens vão para aprender a competir no mercado.
A educação, para ser transformadora,
emancipadora, precisa estar centrada na vida, ao contrário da
educação neoliberal que está centrada na competividade sem
solidariedade. Para ser emancipadora a educação precisa
considerar as pessoas, suas culturas, respeitar o modo de vida
das pessoas, sua identidade. O ser humano é incompleto e
inacabado como costumava dizer Paulo Freire, em formação
permanente.
Por isso hoje o professor preciso
mostrar que o neoliberalismo, com sua política de
mercantilização da educação tornou a sua profissão descartável.
É preciso mostrar também que uma educação de qualidade para
todos é inviável e contrária ao projeto político neoliberal
capitalista. É preciso fazer a análise crítica, social,
econômica. Mas tudo isso não basta. É preciso que a rigorosa
análise da situação não fique nela, mas aponte caminhos e nos
indique como caminhar. Caso contrário, as análises sociológicas
e políticas, por mais rigorosas e corretas que sejam, elas
ajudam apenas para manter o imobilismo e a falta de perspectivas
para o educador.
O poder do professor está tanto na
sua capacidade de refletir criticamente sobre a realidade para
transformá-la quanto na possibilidade de formar um grupo de
companheiros e companheiras para lutar por uma causa comum.
Paulo insistia que a escola transformadora era a “escola de
companheirismo”, por isso sua pedagogia é uma pedagogia do
diálogo, das trocas, do encontro, das redes solidárias.
“Companheiro” vem do latim e significa “aquele que partilha o
pão”. Trata-se portanto de uma postura radical ao mesmo tempo
crítica e solidária.
Às vezes somos apenas críticos e perdemos o
afeto dos outros por falta de companheirismo. Não haverá
superação das condições atuais do magistério sem um profundo
sentimento de companheirismo. Lutando sozinhos chegaremos apenas
à frustração, ao desânimo, à lamúria. Daí o sentido
profundamente ético dessa profissão. No fundo, para enfrentar a
barbárie neoliberal na educação vale ainda a tese de Marx de que
“o próprio educador deve ser educado”, educado para a construção
histórica de um sentido novo de seu papel.
Escrevi esse livro me inspirado na
Pedagogia da autonomia de Paulo Freire. Nesse que foi seu último
livro ele trabalhou principalmente a ética e a estética do ser
professor: o que ele deve saber para ser professor, como ele
deve ser para ser professor.
Paulo Freire sonhava com uma
sociedade, um mundo, onde todo coubessem. A educação pode dar um
passo na direção deste outro mundo possível se ensinar as
pessoas com um novo paradigma do conhecimento, com uma visão do
mundo onde todas as formas de conhecimento tenham lugar, se
dotar os seres humanos de generosidade epistemológica, um
pluralismo de idéias e concepção que se constitui na grande
riqueza de saberes e conhecimento da humanidade.
Creio que existe ainda na comunidade
humana uma imensa reserva de altruismo e de solidariedade que o
educador precisa conhecer e potencializar. Educar é empoderar.
Não é tanto ensinar quanto reencantar. Ou melhor, ensinar, nesse
contexto, é reencantar, despertar a capacidade de sonhar,
despertar a crença de que é possível mudar o mundo. Essa
profissão, por isso, é insubstituível. Não podemos imaginar um
futuro se
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
m ela. Não podemos imaginar um futuro sem professores.
Nisso acredito nas palavras de Rubem Alves: “Ensinar é um
exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver
naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da
nossa palavra. O professor, assim não morre jamais...”[58]
BIBLIOGRAFIA
ALVES, Rubem. Conversas com
quem gosta de ensinar. São Paulo, Cortez, 1981.
ARROYO, Miguel G. Ofício de
mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis, Vozes, 2000.
----------. Tempo de
transcendência: o ser humano como um projeto infinito. São
Paulo, Sextante, 2000.
----------. Ironias da
educação: mudança e contos sobre mudança. Rio de Janeiro,
DP&A, 2000.
----------. Tecnologias do
conhecimento: os desafios da educação. Petrópolis, Vozes,
2001.
ESTEVE, José M. O mal-estar
docente. Lisboa, Escher, 1992.
FERNÁNDEZ, Alícia. A mulher
escondida na professora. Porto Alegre, Artmed, 1994.
IMBERNÓN, Francisco.
Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a
incerteza. São Paulo, Cortez, 2000.
NÓVOA, António (org.).
Profissão professor. Porto, Porto Editora, 1991.
SANTOS, Milton. “O professor
como intelectual na sociedade contemporânea”. In Anais do IX
ENDIPE- Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino,
vo. III, São Paulo, 1999.
VASCONCELLOS, Celso. Para
onde vai o professor? Resgate do professor como sujeito de
transformação. São Paulo, Libertad, 2001.
Francisco Imbernón. Formação docente e profissional:
formar-se para a mudança e a incerteza. São Paulo, Cortez,
2000, p. 109. O autor é professor da Universidade de Barcelona.
align: justify">
Rubem Alves, “Sobre moluscos e homens”, in Folha de S. Paulo,
17 de fevereiro de 2002, p. 3.
Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à
prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997, p. 25.
Milton Santos, “O professor como intelectual na sociedade
contemporânea”. In Anais do IX ENDIPE- Encontro Nacional de
Didática e Prática de Ensino, vol. III, São Paulo, 1999, p.
14.
Celso Vasconcellos, Para onde vai o professor? Resgate do
professor como sujeito de transformação. São Paulo,
Libertad, 2001, pp. 51-52.

|