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Sobre a importância do estudo dos processos de socialização em um curso de formação de educadores

Fábio Gregori – Aluno de Pedagogia - FEUSP

 

         A escola exerce um papel extremamente complexo dentro de uma sociedade. Mais do que um local para simples transferência de informações ou conteúdos, é nela em que há ressonância de todos os valores sociais, perpetuando-os, mas ao mesmo tempo trazendo a semente para mudanças de concepção de mundo, o que lhe confere um dinamismo particular. Evidentemente não há como desvinculá-la de outras instituições, entre elas a família e a mídia, formando agora um mosaico no qual os limites da influência de cada uma delas na formação da criança é difuso, posto que estão em constante interação e projetadas numa escala de tempo, dando a estas instituições uma dimensão histórica.

Considerando tal premissa, a socialização da criança envolve dois sistemas integrados. O primeiro diz respeito ao processo de aprendizagem necessário para tornar o indivíduo um membro da sociedade. Pais, familiares, professores estão entre os agentes encarregados de incutir valores, regras, e comportamentos capazes de introduzir o indivíduo em formação nos padrões socialmente desejáveis de seu grupo cultural específico. O segundo aspecto é o de expandir o horizonte social da criança, tornando-a apta a ver-se como membro "de uma parcela cada vez maior da humanidade", "um cidadão do mundo".

Tais processos caminham paralelamente, fazendo que a socialização ocorra num plano mais próximo do círculo de familiares e amigos, sem que isso implique em tornar o indivíduo restrito a este microcosmo, mas permitir sua participação em grupos cada vez maiores, fato este em muito favorecido pela disseminação e acessibilidade dos meios de comunicação.  

Disto decorre que processo de socialização reveste-se de um caráter universal, sendo básico para a origem, desenvolvimento, transformação e conservação de uma sociedade e sua cultura, que aliás é a matéria que faz os organismos sociais se perpetuarem. Tal propriedade traz consigo também a negação de uma unicidade, pois as sociedades são diferentes entre si, não cabendo a adoção de crivos qualitativos. Assume-se o corolário de que só se pode socializar alguém se há educação, sendo estas inter-dependentes, configurando-se um contrato simbólico.

Pode-se dizer que o professor adquire um papel de destaque no processo de socialização, pois está em suas mãos, ainda que potencialmente, a capacidade de adotar posturas domesticadoras, ou de  "controle e restrição", incutindo um traço inibidor de atitudes nos alunos ou também passar "aspectos ativos e construtivos" que estimulam a pessoa a libertar seus desejos e a empreender ações criadoras.

         Assim, a razão para se estudar o processo de socialização num curso de educadores reside primeiramente no fato de entender a sociedade e as instituições como um todo, para a obtenção de massa crítica suficiente de modo a poder trazer à luz dos alunos quando no exercício da docência, a proposta de um debate democrático e solidário sobre a realidade, e apontar algumas pistas rumo a metodologia que possam provocar mudanças pessoais e coletivas, gerando comunhão e participação, na formação de uma sociedade autônoma. Não só os processos de socialização, mas a Sociologia da Educação como um todo, tornam-se vitais para provocar uma discussão científica, que faça uma interpretação competente, sistemática e orgânica da realidade, permitindo que as demais disciplinas de um curso de formação de educadores, como as didáticas, possam apontar para saídas de um projeto educacional formador de cidadania.

        Caso contrario, o que significaria uma sociedade adestrando seus cidadãos para a assimilação de um discurso único?  A sociedade estaria organizada de maneira tal, que tudo o que aconteceria, aconteceria de modo funcional. Disto vai decorrer uma prática submissa, intimidada, de perda de identidade, de perda da historicidade, de moralismo exacerbado e autoritário, repressivo e opressivo. Assim a  Escola operará um papel de censor, reprimindo, suprimindo os sonhos e as buscas, situação esta altamente nociva à sociedade.

Educação, e cidadania são entidades que convergem. Deve-se educar o cidadão para que seja autor de seu destino, assumindo a sua dimensão histórica, cuidando da sua vida e de todos. A cidadania, decorrente do processo educativo, seria a busca da liberdade de expressão, da vivência da solidariedade, da construção comunitária de uma experiência de prática política de autonomia, de reciprocidade, de cooperação e de responsabilidade.

 Concluindo, para se poder promover o debate das questões da realidade, quando somos capazes de analisar suas causas e efeitos, de discernir saídas, estamos discutindo e aprofundando a compreensão da sociedade, suas relações, a questão do poder, a necessidade da mudanças e, em essência, das condições que se está conduzindo o processo de socialização.

 

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